O concelho da Mealhada assinalou o 25 de Abril com um programa alargado e participado, que envolveu não só as iniciativas promovidas pelo Município, mas também um conjunto expressivo de atividades dinamizadas pelas Juntas de Freguesia e pelo movimento associativo local, ao longo de todo o fim de semana.
A par da programação preparada pelo Município da Mealhada para assinalar o 25 de Abril, o território viveu intensamente esta efeméride, com iniciativas descentralizadas que mobilizaram as comunidades locais, nas quais fez questão de estar presente o executivo municipal, liderado pelo presidente António Jorge Franco. Exposições, concertos, poesia e diversas manifestações culturais marcaram, assim, todo o concelho, num claro sinal da vitalidade do tecido associativo e do compromisso coletivo com os ideais de Abril.
Em Barcouço, a Junta de Freguesia em articulação com o movimento associativo lançou um concerto comemorativo, na noite de 24 de abril, reunindo a população em torno da música, memória e evocação histórica, numa programação que incluiu ainda outros momentos simbólicos como a Arruada da Liberdade e o testemunho de um Coronel de Abril.
Na Pampilhosa, o programa comemorativo integrou as habituais cerimónias oficiais, com homenagem aos combatentes, atividades culturais e momentos de convívio, com o envolvimento das associações locais, onde se destacaram a Caminhada dos Cravos e um almoço comunitário, promovendo a participação e o reforço dos laços comunitários da população.
Também noutras freguesias, como o Luso e Casal Comba, a data foi assinalada com iniciativas próprias, desde sessões solenes e inaugurações de espaços institucionais a ações simbólicas e evocativas que envolveram a população, com especial enfoque na preservação da memória e na transmissão dos valores de Abril às gerações mais jovens. No Luso, para além da sessão solene evocativa da data, foi inaugurada a nova sala da Assembleia de Freguesia. E em Casal Comba, a freguesia “vestiu-se” de 25 de abril para homenagear militares, para perpetuar a memória para que as crianças e os jovens nunca esqueçam a liberdade.
Nuno Veiga, vereador com os pelouros da Animação e Promoção Municipal e Cooperação e Apoio às Juntas de Freguesia, não esconde a satisfação por ver “todo o concelho mobilizado para celebrar o 25 de Abril. Mais do que um momento institucional, esta é uma data vivida pelas pessoas, nas freguesias, nas associações e na rua. Porque esta revolução aconteceu na rua e faz todo o sentido de ser celebrada na rua”.
Partidos políticos apelaram à responsabilidade coletiva e defesa ativa da liberdade
O concelho da Mealhada viveu o ponto alto das comemorações do 25 de Abril com um conjunto de cerimónias protocolares que incluíram a parada das corporações de bombeiros do concelho e da Filarmónica de Luso, o hastear das bandeiras, largada de pombos e a deposição de uma coroa de flores no monumento aos mortos em combate do concelho. A sessão solene da Assembleia Municipal ficou marcada por uma reflexão transversal sobre o significado atual da Revolução dos Cravos.
O presidente da Assembleia Municipal, Carlos Cabral, no decorrer desta sessão evocativa do Dia da Liberdade, na tenda colocada para o efeito no Jardim Municipal, promoveu uma reflexão crítica sobre o percurso democrático, questionando o contributo individual e coletivo para a concretização dos valores de Abril. “Criticamos que nem tudo está feito nestes 52 anos, nem tudo está bem, mas devemos interrogar-nos: o que fizemos para fazer cumprir os valores do 25 de abril?”, questionou.
Depois de ouvir atentamente os vários discursos das forças políticas com representação no órgão que preside, Carlos Cabral, apontou os efeitos “terríveis” do 25 de Abril na Mealhada, lembrando a comissão administrativa da Câmara no pós-25 de Abril “tinha a seu cargo uma única máquina: um cilindro de pedra puxado por uma junta de bois. Isto simboliza o que nos deixou o regime que nos atormentou durante 48 anos”.
Francisco Lopes, do CHEGA, alertou para o risco de esvaziamento simbólico da data, defendendo que “celebrar o 25 de abril não pode ser feito de frases feitas” e questionando se o país honra verdadeiramente o seu espírito. O deputado sublinhou que, mais de cinco décadas depois, muitos portugueses continuam a sentir limitações concretas na segurança, na saúde e nas condições económicas, optando por abordar o 25 de novembro, defendendo que “foi com aquela data que o 25 de Abril se tornou verdadeiramente liberdade”.
Já Paulo Silva, do PSD, centrou a sua intervenção na responsabilidade intergeracional, afirmando que “celebrar o 25 de Abril não é apenas recordar o passado, é acima de tudo assumir responsabilidades no presente e olhar com seriedade para o futuro”. Destacou vulnerabilidades sociais como os baixos salários, a precariedade jovem e fragilidades no apoio aos idosos, alertando que “a democracia não está garantida para sempre, precisa de atenção e de participação”.
Nuno Canilho, em representação do PS, destacou os 50 anos da Constituição como um dos maiores legados de Abril, sublinhando o seu carácter inovador e estruturante. “A constituição foi revolucionária face às constituições europeias”, afirmando que este documento continua a ser motivo de orgulho coletivo. “Podia ser uma constituição como tantas outras, um documento ou apenas regras de um jogo, mas não(…)”, traduzindo num “projeto constitucional, que criou as bases de um tempo novo. E conseguiu”, disse.
Por sua vez, João Louzado, do Movimento Independente Mais e Melhor — atualmente maioritário nos órgãos autárquicos — enfatizou a génese do projeto político local como expressão direta da liberdade conquistada. “O Movimento Mais e Melhor nasceu num ato puro de cidadania, porque foi possível pela liberdade que hoje celebramos. E com um propósito claro: responder aos problemas concretos do concelho e melhorar a vida das pessoas”, disse, apontando que “é um espaço de pluralidade onde a diversidade não é apenas tolerada, é valorizada”.
Num registo abrangente e mobilizador, António Jorge Franco, presidente da Câmara da Mealhada optou por uma intervenção centrada na liberdade enquanto prática quotidiana e compromisso coletivo. “O 25 de Abril é um compromisso”, afirmou, sublinhando que “a liberdade não é um dado adquirido, é um exercício diário”. “Num tempo em que assistimos um pouco por todo o mundo a discursos de exclusão, ódio, intolerância e de divisão, devemos estar atentos. O retrocesso não chega de um dia para o outro, instala-se lentamente, quando normalizamos o preconceito, quando aceitamos a intolerância, quando deixamos de defender os outros”, enfatizou o autarca, acrescentando que “numa sociedade verdadeiramente livre o normal não é uniformizado. É a diversidade, é a coexistência de diferentes formas de pensar, de viver, de amar de acreditar. O normal é cada pessoa poder escolher o seu caminho político, religioso, afetivo, sexual, sem ser descriminado ou marginalizado por isso”.
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