Há um fenómeno curioso e cada vez mais comum nas organizações: pessoas que fazem pouco, mas parecem fazer muito. Estão sempre agitadas, andam apressadas de um lado para o outro, verbalizam constantemente que não têm tempo para nada e repetem, quase como um mantra, que têm trabalho a mais. No entanto, quando olhamos para os resultados concretos, o impacto real do seu trabalho é reduzido.

Vivemos numa cultura que confunde movimento com progresso e barulho com valor. Estar ocupado tornou-se um sinal de estatuto. Quem corre, suspira, queixa-se e mostra exaustão parece automaticamente importante. Quem trabalha em silêncio, com foco e método, corre o risco de ser visto como alguém que faz pouco.

Este teatro da ocupação não é apenas uma questão individual. É, sobretudo, um reflexo das organizações que o alimentam. Empresas que valorizam mais a disponibilidade constante do que a entrega de resultados e que recompensam quem está sempre em reunião, mas não questionam a utilidade dessas reuniões, que confundem urgência com importância e presença com contribuição.

Muitas destas pessoas não são preguiçosas. Estão, na verdade, presas num ciclo de má definição de prioridades, interrupções constantes, tarefas pouco relevantes e uma necessidade permanente de provar que estão a trabalhar. O problema é que, no meio dessa agitação, o que realmente importa fica por fazer.

O paradoxo é evidente. Quem mais fala da falta de tempo é, muitas vezes, quem menos protege o seu tempo. E quem mais produz raramente anda a anunciar isso. Trabalha, entrega e segue para a próxima prioridade.

Esta lógica tem custos elevados. Para as equipas, gera frustração e injustiça percebida. Para as lideranças, cria uma falsa sensação de esforço coletivo. Para as organizações, traduz-se em baixa produtividade, desgaste emocional e decisões tomadas em cima do caos, não da estratégia.

Talvez esteja na hora de mudarmos a pergunta. Em vez de “quem está mais ocupado?”, deveríamos perguntar: quem está a gerar mais valor?

Em vez de premiar quem vive em stress permanente, talvez devêssemos aprender com quem trabalha com clareza, foco e impacto.

Porque trabalho não é barulho e estar ocupado não é o mesmo que ser útil.

 

Artigo de Pedro Oliveira Castela