O artista Ricardo Henriques, de 31 anos, está na Mealhada, concretamente em Sernadelo, há cerca de duas semanas a desenhar e pintar um mural numa homenagem aos peregrinos de Santiago de Compostela no muro do Albergue de Peregrinos da Mealhada.

«No ano passado fiz um trabalho no Parque da Cidade da Mealhada e quando estava lá, os proprietários deste albergue convidaram-me para vir fazer esta parede sob o mote da peregrinação e dos peregrinos», começou por dizer o jovem, natural de Mortágua, mas que há uma década reside nas Caldas da Rainha.

«Na Tornada fiz um apontamento também dedicado aos peregrinos de Santiago, mas muito pequeno, nada a ver com este na Mealhada», acrescentou, explicando que «o projeto foi totalmente idealizado por mim, uma vez que os proprietários do espaço não tinham uma ideia formada, queriam algo relacionado com os peregrinos e que tivesse a Catedral de Santiago de Compostela».

E o maior «feedback» que tem é por parte dos peregrinos que por ali passam, contudo, durante a entrevista, testemunhamos também alguns carros que chegaram a abrir o vidro demonstrando o agrado pelo trabalho artístico. «É a primeira vez que estou a trabalhar lado a lado com uma estrada, o que significa que não há tanto contacto com as pessoas. De qualquer forma, quase todos os dias passam aqui peregrinos e alguns manifestam-se “maravilhados” com o que veem», acrescentou, congratulando também «o facto de os carros pararem e darem uma palavra. É incentivador, obviamente».

Também no Parque da Cidade da Malhada, há um ano, o projeto foi pensado e desenhado por si. «A Câmara contactou-me e remeteu-me os animais que se podem encontrar naquele local. Eu escolhi, fiz a montagem e a pintura, tendo sempre como mote um público muito virado para as crianças e para o Centro de Interpretação Ambiental», recordou.

Ricardo Henriques foi estudante de Artes Plásticas em Lisboa, tendo ido para a Universidade das Caldas da Rainha, onde tirou Design de Produto de Cerâmica. «Trabalhei três anos e meio nesta área, como escultor, na Bordallo Pinheiro. Só de há quatro anos para cá, é que faço da pintura a minha vida, o que nunca pensei que fosse possível», referiu, explicando que sempre pintou em murais, mas também quadros. «Fiz muito graffiti e pintura na rua e o que aconteceu é que num desses projetos, um presidente de uma Junta de Freguesia viu e convidou-me para fazer um trabalho com eles. A partir daí as portas abriram para todo o lado, com os convites sempre a chegar», disse, acrescentando que «normalmente o que acontece é estar num lugar a trabalhar, alguém ver a pintura e chamarem-me para fazer outro trabalho. A maior publicidade que tenho é estar na rua».

Com muitos trabalhos na zona de Alcobaça, Leiria e Nazaré, depois da Mealhada, o artista parte para Mira de Aire e Santa Quitéria, perto de Alfeizerão, esperando regressar à região da Bairrada para outros trabalhos.

 

Arte quer enaltecer um local por onde o Caminho de Santiago passa há centenas de anos

Da parte dos proprietários do Albergue de Peregrinos da Mealhada, há muito que entendiam «fazer utilização do muro exterior, tanto na perspetiva de divulgar o Albergue, como de tornar público, através da Arte, um sinal bonito da passagem do Caminho de Santiago pelo nosso território».

«Acima de tudo é uma forma de lembrar e fazer lembrar quem por ali passa (peregrino, mas também habitantes e transeuntes), que somos uma terra de acolhimento, por onde passa o Caminho de Santiago há centenas de anos», explica Nuno Canilho, enfatizando que «queremos ter essa marca na nossa identidade, nomeadamente num local público, que é um espaço de encontro da comunidade de Sernadelo, por ter ali a fonte e o largo das festas». «Há ainda a vantagem de trazer arte urbana, bela e de qualidade, à aldeia onde nascemos, crescemos e trabalhamos, e que tanto gostamos», enaltece.

O Albergue de Peregrinos da Mealhada, que nasce a partir da Residencial fundada pela a avó de Diogo e Nuno Canilho, em 1973, foi o primeiro a aparecer no Caminho Português Central a sul do Rio Douro, em 2012, recebendo anualmente centenas de peregrinos do Caminho de Santiago, mas também do Caminho de Fátima. «Em 2025, não foi diferente, sendo que a larga maioria são peregrinos estrangeiros a caminho de Santiago de Compostela», remata Nuno Canilho.

 

Mónica Sofia Lopes