Eram nove horas e dez minutos quando ouvi uma voz a perguntar “onde está o Mamadu?”: Saí logo do quarto onde estava a dar assistência (enquanto auxiliar de ação médica): “Estou aqui, já acabei o que estava a fazer. O que precisa?”. Naquele instante, nem sequer tive tempo de analisar o olhar da senhora enfermeira, que perguntou por mim, mas consegui ter a perceção nítida da sua voz. Disse-me “vamos fazer uma coisa que nunca fizeste…”.

Naquele instante, viajei para outra dimensão, fora daquele corredor, parado, onde estava, para outro com profissionais a andarem de um lado para o outro. “Vamos preparar o senhor D., que morreu há instantes”.

É certo que, pela expressão dos meus olhos, a senhora enfermeira notou alguma mudança na minha forma de estar. “Tens medo?”, questionou. A minha boca estava presa, as pernas a tremerem e o coração e o pensamento distantes do meu corpo.

Voltei a ouvir “vamos?”. Abanei afirmativamente a cabeça e seguimos pelo corredor até ao quarto onde se encontrava o corpo do senhor D. “És sociólogo, não és? Então, da mesma forma que lidas com a vida, tens que aprender a lidar com a morte”, disse.

Já ao pé da cama do senhor D., notava o olhar da senhora enfermeira para mim. Peguei várias vezes “nele”…. Era sereno, frio e calmo e eu não conseguia encontrar uma palavra para caracterizar aquele instante e todo o seu processo…

No fim, a senhora enfermeira perguntou-me “como te sentes?”, e mais uma vez, não soube elaborar frases longas, respondi simplesmente “não sei”, enquanto pensava que isto “teria que acontecer mais dia menos dia”. Foi precisamente no dia em que completava um mês desde que comecei este novo trabalho.

 

A vida é mesmo um sopro! Aproveitemos enquanto podemos”.

 

 

Texto de Mamadu Alimo Djaló

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