Vivemos numa época em que a expressão “não tenho tempo” se tornou quase automática. Dizemo-la no trabalho, em casa, entre compromissos e responsabilidades que parecem não parar de crescer. Mas será mesmo o tempo o problema? Ou estaremos a olhar para a questão da forma errada?
Talvez esteja na altura de reformular a pergunta. Falamos de gestão do tempo ou, na verdade, de gestão no tempo? O tempo não se gere, vive-se.
O tempo é um recurso peculiar. Não pode ser acumulado, acelerado ou travado. Passa de forma contínua e igual para todos. Nesse sentido, o tempo é, na prática, incontrolável. O que podemos controlar são as nossas decisões dentro do tempo.
Esta mudança de perspetiva é essencial. Quando dizemos que queremos “gerir o tempo”, muitas vezes estamos a cair numa ilusão de controlo. O que realmente está ao nosso alcance é escolher o que fazer, quando fazer e com que prioridade. Por isso, talvez o conceito mais correto e mais útil seja gestão no tempo.
A maioria das pessoas não tem falta de tempo, mas sim falta de clareza, critério e capacidade de decisão. No dia a dia, as tarefas não são todas iguais e podemos classificá-las em diferentes níveis de relevância: Emergências, Urgentes, Importantes, Necessárias, Úteis, Fúteis e Desnecessárias. Depois de classificar, surge outra decisão. O que fazer com cada tarefa. Para isso, existem três caminhos fundamentais: Resolver, Programar, Delegar. E há ainda uma quarta decisão muitas vezes esquecida. Eliminar tudo o que é fútil ou desnecessário.
A arte de saber dizer “não” é também uma ferramenta essencial para a Gestão no Tempo. Muitas vezes vivemos das emergências, urgências ou importâncias dos outros, sem sequer questionarmos se têm o mesmo nível de relevância para nós. Não vivemos das prioridades dos outros, mas sim das nossas escolhas.
A sociedade atual valoriza a ocupação constante. Estar sempre “atarefado” é muitas vezes visto como sinal de produtividade. Mas são coisas diferentes. Uma pessoa pode passar o dia inteiro ocupada com tarefas úteis ou até fúteis e ainda assim não avançar nos seus objetivos mais importantes. A verdadeira produtividade não está na quantidade de tarefas realizadas, mas sim no impacto dessas tarefas.
Aceitar que não controlamos o tempo pode parecer desconfortável à primeira vista. Mas, na verdade é libertador. Ao aceitarmos o tempo que temos e focarmo-nos nas escolhas que temos de fazer, passamos a dedicar-nos ao que realmente importa. E é aí que a mudança acontece.
Talvez a pergunta que devamos fazer, no início de cada dia, não seja: “O que tenho de fazer hoje?”, mas sim “O que é realmente importante fazer hoje, dentro do tempo que tenho?”. Esta pequena mudança pode transformar completamente a forma como trabalhamos, vivemos e tomamos decisões.
No fim, a diferença não está nas horas disponíveis, mas na forma como as usamos. Não se trata de fazer mais. Trata-se de fazer melhor, com intenção e critério. Porque o tempo, esse, continuará a passar igual para todos. A única variável somos nós e as escolhas que fazemos dentro dele.
Artigo de Pedro Oliveira Castela






















