Cerca de três dezenas trabalhadores de uma empresa com sede na Mealhada estão «retidos» em Guadalupe, depois de sucessivos voos cancelados, numa altura em que a ilha regista mais de 60 casos confirmados de infeção por Covid-19 e onde praticamente toda a população ainda não tem cuidados preventivos ao sair de casa. A empresa para a qual trabalham está a ser, aliás, a única ajuda dos operários que, na passada segunda-feira, voltaram a ver mais um voo cancelado. Nova «operação» de repatriamento está montada, novamente promovida pela entidade empregadora, para esta sexta-feira.

Humberto Rodrigues, de 23 anos, oriundo de Coimbra, chegou à ilha de Guadalupe, nas Caraíbas, há cerca de três semanas, para trabalhar na área da metalomecânica. «Estávamos cá há apenas uma semana quando foram detetados dois casos de coronavírus na empresa», começa por explicar Humberto Rodrigues, garantindo que «a fábrica foi logo encerrada e os funcionários colocados em quarentena nas suas casas».

Numa semana, a ilha passou de cinco para 60 casos confirmados e a empresa tem unido todos os esforços para conseguir retirar os trabalhadores (12 já estão em Portugal). «A nossa entidade empregadora tem feito de tudo para que nada nos falte. Dá-nos vencimento semanal para termos dinheiro para a alimentação e disponibiliza viatura para irmos às compras, onde vamos sempre protegidos com máscaras e gel desinfetante», referiu Humberto Rodrigues que garante que a empresa «já tentou marcar voos, mas são todos cancelados».

Divididos em habitações de três e quatro pessoas, António Luís, de Aveiro, e Yuriy Usanov, de Anadia, são as companhias de casa de Humberto Rodrigues, o estreante da empresa, que volta a enfatizar o apoio dado pela mesma em todo o processo. «A única coisa que não lhes é possível é trazerem um avião para nos levarem, se não até isso faziam», explica o trabalhador mostrando-se, contudo, muito preocupado com a situação. «Sentimo-nos presos numa quarentena obsoleta, uma vez que quando um de nós sai para comprar comida, fica suscetível ao contacto com a restante comunidade que não está ainda sensível para este problema», continua o jovem, relembrando que «os recursos na ilha são naturalmente escassos» e que «apesar de pequena, tem uma grande densidade populacional».

A preocupação tornou-se ainda maior quando, na passada segunda-feira, 23 de março, os cinquenta trabalhadores viram o voo de repatriamento para Portugal cancelado pela operadora que o ia realizar. «Estamos a ficar muito desconfortáveis com o número de casos de infetados na ilha e estamos certos de que a propagação vai ser muita rápida!», lamentou, ao «Bairrada Informação», o trabalhador, concluindo: «As nossas famílias estão muito preocupadas!».

 

Empresa não tem medido esforços para repatriar funcionários

Da Simetriaxal, falámos com João Sousa, um dos sócios da empresa, que nos garantiu «estar a fazer de tudo para trazer os funcionários para Portugal». «Tínhamos lá 56 trabalhadores e uma operação totalmente montada para chegarem cá na passada segunda-feira», começou por explicar, garantindo que, desde então, já conseguiu fazer chegar a solo português 12 operários.

Agora, e depois da companhia aérea Iberia ter «abortado» a operação que a empresa montou para a passada segunda-feira, tudo indica que os trabalhadores possam sair de Guadalupe amanhã, 27 de março. «A Air France é, neste momento, a única entidade a operar em Guadalupe e estamos com as melhores expectativas de que esta sexta-feira os nossos trabalhadores cheguem a Orly (França), de onde depois partirão, com os devidos cuidados, num autocarro até Portugal», afirma João Sousa, garantindo que «a burocracia de se trazer os funcionários para cá tem sido imensa, com custos brutais para a empresa». «Temos 150 funcionários e, neste momento, muitas obras paradas e outras canceladas», lamenta o empresário, garantindo, contudo, que a única preocupação, nesta altura, «é a da zelar pelo bem-estar dos trabalhadores». «Em Guadalupe têm excelentes condições de habitabilidade, mas compreendemos que queiram estar perto da família e estamos ajudar nesse sentido», ressalva.

 

Texto de Mónica Sofia Lopes

Fotografia com Direitos Reservados