Preferia usar a palavra “receio” em vez de “medo”, quando lhe perguntavam se tinha medo de animais ou de outra coisa qualquer, como se medo e receio não fossem a mesma coisa. Mas da forma como ele responde, e utiliza a palavra “receio”, leva a crer que são duas palavras diferentes, para quem não conhece bem o vocabulário.

Certo dia, calhou-lhe o dia ter corrido lindamente. A manhã foi espetacular, por ter conseguido acordar logo às oito, como desejara no dia anterior. Os seus afazeres domésticos e compromissos pessoais foram cumpridos sem mazelas. Até chegou a partilhar a sua refeição com pessoas com as quais não tinha muita conversa.

Todos os dias, quando chegava às quatro da tarde, juntava-se aos seus colegas do bairro, numa caminhada feita em conjunto. Deambulavam pelo bairro e outras andanças, sem um destino certo. Para eles, andar em grupo e conversar sobre diferentes assuntos, era uma das melhores terapias do dia, sejam dias felizes ou tristes.

Nesse dia feliz da vida dele, calhou os seus colegas não estarem todos presentes. Os que estavam disponíveis para a caminhada, decidiram não ir porque estavam ocupados com os seus afazeres. No meio da conversa, percebeu que, ou ia caminhar sozinho, ou voltava para sua casa. Quando decidiu que o melhor era voltar, confrontaram-no com um pedido. A vizinha de um dos seus colegas, que não estava presente para a caminhada, pediu-lhe para ir procurar o seu cão que andava perdido, porque ela tinha um compromisso que a impedia de o fazer. Por momentos, a hesitação tomou conta dele… Ouviu uma pergunta, sem perceber quem a fez: tens medo de cães? Ao que ele, respondeu que não. O que ele tinha é um certo receio de animais, neste caso, os animais domésticos porque não se sabe ao certo quando são de confiança.

Ainda assim, decidiu aceder ao pedido, e dirigir-se ao centro da cidade, numa tarde ventosa e friorenta com sol e céu claro, em busca do cão, que segundo a sua dona, “não fazia mal a ninguém”. O medo ou receio, como costumava dizer, que sentia naquele momento era indescritível. Mas seguiu…

Mesmo sentindo frio e “receio”, deu várias voltas pelo centro da cidade e arredores, sem encontrar o que procurava. Na sua cabeça, achava que não seria justo pensarem que ele teria andado por sítios onde seria pouco provável encontrar o cão, ou que se teria ido sentar num café e aparecer depois a dizer que não encontrou tinhas encontrado o animal. No meio do seu dilema decidiu dar mais uma volta e não regressar a casa enquanto não encontrasse o que procurava.

A vida do rapaz transformou-se radicalmente desde esse dia. Voltava a casa às escondidas, tratava da sua higiene pessoal e das suas necessidades de madrugada, sem que ninguém percebesse e voltava novamente a deambular pela cidade em busca do cão da vizinha. Quando lhe ligavam a perguntar onde andava, dizia que ainda estava à procura do cão. Com o passar dos dias, começou a parar na rua, e a fazer festas aos cães que passeavam com os seus donos. O que ele chamava “receio” desapareceu! O medo também, mas não queria voltar a casa sem cumprir com o pedido que lhe tinha sido feito.

Um dia, ao sair de casa cedo para não o verem, sentiu um grande aperto no peito. Ainda assim, continuou a caminhar sem destino, mas com um propósito. Pela cara, escorria-lhe suor e lágrimas.  A voz não saía naturalmente como era habitual. Engasgava-se a cada cumprimento que dirigia às pessoas que não conhecia. “O que lhe restava?”, perguntou uma voz que não reconhecia e não sabia de onde saía. Sem responder, continuou no seu caminho. Ora chorando, ora sorrindo, mas nunca se esquecendo do que andava a procurar

 

Artigo de Mamadu Alimo Djaló

Estudante de sociologia na Universidade do Algarve

Antigo aluno de Técnico de Restauração, Cozinha e Pastelaria na EPVL

 

Imagem de capa: furry_portraits (https://pixabay.com/)