“África tem qualquer coisa…” assim me diziam todos quantos já tinham pisado aquela terra, sem saber explicar bem porquê. Tem… e eu também não sei como se conta o que se sente, nem de onde vem o que entra no coração depois de experimentar a energia daquele lugar. Não sei se África é toda assim… São Tomé, é! Entranha-se na pele e passa a fazer parte de nós… passou a fazer parte de mim, ou eu passei a fazer parte dela… não sei. Sei que me apaixonei, como não sabia que me iria apaixonar… Apaixonei-me por jeitos de ser, por sorrisos, por um calor especial, por paisagens, pela simplicidade… especialmente por uma simplicidade alegre e única.

Quando embarquei nesta aventura tinha a vontade de uma vida e o coração aberto para o que viesse, sem expectativas, sem nada. Foi junto de uma Amiga que descobri o projecto Abraçar o Mundo, e não quis mais largar esta oportunidade que surgiu com a ADRA*, uma organização que tem como missão apoiar os mais desfavorecidos e ajudar a tornar o mundo um pouco melhor. Acho que foi a melhor maneira de começar um caminho que sei que não vai ficar por aqui. Tive a possibilidade de me iniciar num projecto bem estruturado e bem liderado pelo Pastor António Rodrigues – a ADRA está ligada à igreja Adventista e por isso, dos 57 voluntários que embarcaram nesta missão, poucos não pertencíamos à igreja, mas em momento algum sentimos que não fazíamos parte, muito pelo contrário, fomos recebidos de braços abertos e tivemos oportunidade de partilhar muito mais do que apenas os dias, e a mim, fizeram-me sempre sentir bem acolhida e em casa.

O projecto, tendo o fundo que tinha e sendo de baixo custo, levou-nos a sair totalmente da zona de conforto, ficar alojados numa escola, dormir em colchões insufláveis, tomar banho com o mínimo de água possível para poupar recursos, fazer a alimentação estritamente necessária (e que se revela mais que suficiente!), e montar todas as campanhas da forma possível, com muita capacidade de improviso. No entanto, estive sempre, mas mesmo SEMPRE, plenamente confortável!

Os dias de missão eram divididos nas duas vertentes que o compunham: social e de saúde, sendo que, depois de reunirmos todos os bens necessários e criarmos as centenas de cabazes alimentares e de material escolar, dedicávamos as manhãs à distribuição dos mesmos nas localidades onde iríamos fazer a Expo Saúde (programa de rastreios de saúde) à tarde.

Nas entregas de bens fomos às profundezas de cada localidade, às casas das pessoas, que tantas vezes se resumem a uma divisão que dá para tudo, sem saneamento, sem conforto, sem acessibilidade fácil para ninguém, onde moram pessoas que ficam agradecidas só por nos ter ali. Vimos crianças que têm braços musculados às custas de trabalhos pesados e necessários. Vimos mães de 7 filhos que nunca sabem se vão ter comida para o dia seguinte. Conhecemos famílias que anseiam por poder ter lápis e cadernos para os filhos não terem que desistir da escola tão cedo.

No programa de saúde recebemos mais de mil pessoas, muitas nunca tinham feito exames ou sequer ido ao médico. Muitas pessoas doentes. Crianças doentes e até com alterações neurológicas graves, cujos pais desconheciam totalmente, não percebendo porque os filhos não conseguiam falar ou andar… Tantos que queriam óculos ou escovas de dentes apenas. Vivemos um conceito de “saúde” que em nada se assemelha ao que conhecemos, e que para um profissional de saúde é devastador!

Naqueles dias fizemos viagens para as localidades onde íamos trabalhar em carrinhas apinhadas de gente e de boa vontade, cheias de música entoada pelas vozes africanas da comunidade que tao bem nos recebeu. Foram as viagens mais demoradas e mais alegres que já fiz!

No fim de tudo, depois da entrega e dedicação, com o cansaço já a chegar, olhando para trás, é inevitável ver o que fica por fazer… tudo! E o sentimento de frustração ameaça um bocadinho. Mas é aí que nos lembramos de cada uma das pessoas: dos que puderam lavar os dentes, dos que não desistiram da escola já, dos que tiveram o que comer mais uns dias, do senhor que passou a poder pescar em dias de chuva, dos que puderam tomar antibiótico quando estavam mesmo a precisar, dos que puderam ter óculos… de cada um… da Neuza, do Pedro, do Muriel, da Abdneuza, da Laicy, do Euclides, do Zacarias, de tantos, tantos…! E é aí que tudo faz sentido… porque se ajudarmos uma pessoa que seja, aqui, lá, ou em qualquer lugar do mundo, tudo já valeu a pena!

De São Tomé vim embora com saudades como quando se deixa a nossa casa… e lembrar continua a encher-me os olhos de lágrimas. Sou grata pela oportunidade de ter começado ali um novo caminho… talvez o meu caminho!

A todos os que contribuíram com bens materiais e com donativos para que pudéssemos cumprir o projecto social, aproveito para deixar o maior agradecimento.

 

À ADRA e a todos os que fizeram e fazem acontecer: Obrigada!!

 

 

Paula Gradim

 

 

 

*Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais