Agora já corres, eu sei, e se pudesses voar de certeza que voarias bem alto. Também já deves conseguir ler, de cor e salteado, o alfabeto português e soletrar as palavras e dizê-las corretamente. Hoje em dia, a velocidade com que aceleras deve ser a mesma, ou até maior, do que aquela com que fui contar no bairro que acabaras de nascer.

No dia em que vieste ao mundo andava eu distraído a lavar roupa. Coloquei o telemóvel junto ao aparelho de rádio, para que caso tocasse me apercebesse pelo ruído. Estava preocupado com a mãe, pois o médico já a havia alertado do grande risco que era voltar a ter um bebé. Mas, teimosa como só ela sabe ser, voltou a tentar para ver se lhe aparecia a menina, que tantas vezes desejou e não conseguiu. Desta vez seria a última, garantiu. Quando chegou o dia do parto decidiu contar só a duas pessoas, uma das nossas irmãs mais novas e ao nosso pai. A mim não me disse nada.

A tua chegada ao mundo foi uma surpresa muito agradável, senti um grande alívio quando me disseram que tudo havia corrido bem e que tu e a mãe estavam de boa saúde. Não pensei muito, respirei fundo e comecei a correr o mais rápido que podia. Demorei uns três minutos a chegar a casa da tia, para lhe dar a boa nova.

O meu entusiasmo com a tua chegada foi grande, mas durou pouco. Estivemos juntos oito meses e aposto que não tens memórias minhas, a não serem aquelas que te contam sobre mim. Já tu, permaneces no meu coração e guardo nele cada momento partilhado. Peguei-te ao colo poucas vezes, porque me fazia impressão pegar-te tão pequenino, mas dava por mim vidrado em ti, a ver-te dormir. Diziam-me que éramos parecidos e isso alegrava-me.

Deixei-te para trás e vim estudar, não me lembro se já conseguias sentar-te sem o apoio de alguém, mas recordo-me bem da tua alcunha, Apuntchumpantcam, que na verdade nem sei qual é a origem. É assim que todos te chamam ao fazer-te miminhos. Também não me esqueci que és o único da família registado com um nome português, Fernandinho Adulai Djaló. Uma homenagem ao Sr. Fernando, que ajudou a mãe na hora de parto.

Sabes que estou prestes a ir de visita a casa? E para te ser sincero, não sei bem como reagir quando apareceres à minha frente, mas juro que vou tentar fazer contigo aquelas brincadeiras que os irmãos costumam fazer. Contar-te-ei as pequenas histórias que não tive oportunidade de te contar. Levar-te-ei a passear. Jogarei contigo. Comeremos chocolate juntos – imagino que devas gostar – e seremos felizes a cada minuto. Eu, tu e o mano fazemos uma equipa que mais nenhuma outra pode vencer. Somos um trio forte, unido pelo amor.

 

Artigo de Mamadu Alimo Djaló

Estudante de sociologia na universidade do Algarve

Antigo aluno de Técnico de Restauração, Cozinha e Pastelaria na EPVL

 

Imagem de capa: AnnieSpratt (pixabay.com)