Porque fazer não implica desfazer, Iassim nunca deixa de ter o que fazer. E porque a vida é uma continuidade, esta mulher não sabe o que é parar de trabalhar. Trabalha dia e noite, e ainda, sob a sua responsabilidade, sobram sempre afazeres para o dia seguinte, deixando guardado, invisivelmente no ar, o segredo desumanamente escondido neste mundo machista: o eterno reinado das mulheres.

Trata-se de uma mulher, tal como as demais difusas pelo mundo fora, que desde sempre se determinou para o bem-estar da sua família, assumindo desta forma a dura consequência dessa determinação. Trabalha tanto e nem sequer dá pela passagem do tempo. Os dias, umas vezes parecem ter asas, voando para além do seu alcance e sobre o entrelaçamento entre o sol e a lua, outras vezes, parecem uns patins em pistas de gelo, deslizando sobre o seco chão húmido da sua vida. “Bem que os dias podiam durar mais que meras vinte e quatro horas!”, pensava, introspetiva, desafiando as regras do universo.

Iassim sente que, apesar de todos os dias acordar de madrugada e ser a última a ir para a cama, a sua vontade de fazer sempre mais é inesgotável. É casada, mãe de filhos e é uma inquestionável e excelente dona de casa que nunca deixou de cuidar da sua própria feminidade. De facto, tanto o seu marido como os seus filhos orgulham-se bastante dela, por tratá-los com carinho e inclusive idealizar as suas fantasias sentimentais.

O governo do lar é assumido exclusivamente por ela, atendendo ainda que o que cada um faz também depende do seu aval, além de controlar os resultados desses mesmos afazeres. Se os seus meninos, de alguma forma, obedecem com pouca resistência aos seus comandos, já o seu marido, que apenas sabe arranjar dinheiro para o sustento da família, deixando a gestão do mesmo ao cargo dela, pouco ou nada contribui nas tarefas da casa.

Esse padrão determina a sua luta pela sobrevivência diária e justifica a infindável vontade de fazer mais. “Deus não há de descer para nos alimentar”, demonstrava. Iassim, sente-se tentada a dar passos maiores do que a perna para garantir que nada falte aos seus. “Os meus filhos não têm culpa de terem nascido, por isso as minhas responsabilidades assumo-as eu integralmente.” Neste aspeto, ela não é nada diferente de tantas outras mulheres que, diariamente, se ocupam da casa e investem na felicidade familiar.

Mas Iassim tem particularidades que muito se destacam das mulheres comuns. Ela sabe que a vida é de escolhas e circunstâncias. “O comodismo mata”, defende. Qualquer que seja a escolha feita ou a circunstância determinante as pessoas hão de moldam-se e se adaptar-se aos novos desafios. Ela sabe que se amortecesse essa sua vontade interior de fazer mais e mais e mais, esse seu sonho de se estabilizar e conseguir o melhor para os seus filhos, deixaria moribunda a sua capacidade de superação e realização. Deixaria o seu marido indemne a esse hábito machista que subjuga a mulher e diminui o valor caritativo do homem, e, consequentemente, os seus filhos seriam incapazes de uma visão de justiça equitativa e valorativa para todos. Fica ao critério do seu marido ajudar ou não nos afazeres domésticos, mas não admite mais ficar à espera que seja ele o único a trazer dinheiro para casa para o sustento de todos.

Iassim decide, por isso, trabalhar, assumindo implicitamente que, se o marido consegue ir trabalhar para deixar algum dinheiro em casa, também ela consegue. E ainda pode, simultaneamente, cuidar da casa, dos filhos, do marido e do bem-estar de todos, provando que o mundo seria uma bola em chamas sem a determinação e o amor das mulheres.

Percorre quilómetros e quilómetros de bicicleta em distribuição dos seus serviços para as comunidades circundantes, carregando dentro de si, entre pensamentos de preocupação e sonhos de lealdade, toda a pressão requerida para o bem-estar da sua família. Dá orientações às puérperas, ensina as gestantes a cuidarem de si e indica medicamentos à base de raízes e cortiças aos doentes. Presta um verdadeiro serviço humanitário em troca de sacos de mancarra, carvão e mandioca que revende sempre para a realização das suas despesas pessoais e familiares, através de uma organização de carater humanitário, que a contratou para trabalhar como sensibilizadora para a emancipação das mulheres domésticas e para a igualdade do género.

Aos poucos, fazendo o que gosta e granjeando alguma estabilidade na vida, ganha a confiança das pessoas, das populações e dos dirigentes da organização para a qual trabalha, o que lhe permite obter algum reconhecimento pelo seu dinamismo, pelo seu empenho e determinação, por parte da sua comunidade, que a vê como “a distribuidora da saúde e da felicidade.”

Esta mulher, esta mãe e este Ser é a prova de que as mulheres são como as aves inteligentes, que procuram acima de tudo construir bem os seus ninhos, ajudando e protegendo as suas avezinhas e também outras voadoras.

Iassim, à margem dos ditames da sociedade, transformou-se num modelo de Ser, numa mulher referencial, num ser humano fiel aos seus desígnios, dando provas de que o contributo para uma sociedade justa e feliz depende da nossa capacidade de nos fazermos felizes a nós próprios e da nossa vontade abnegada em ajudar os outros sem nada esperar em troca.

 

Artigo de Mamadu Alimo Djaló

Estudante de sociologia na universidade do Algarve

Antigo aluno de Técnico de Restauração, Cozinha e Pastelaria na EPVL

 

Imagem de capa: Fotorech (pixabay.com)