Quem vive em alguns pontos da região Centro já se habituou à passagem de peregrinos, durante todo o ano e maioritariamente no sentido de Sul para Norte. Carregam grandes mochilas, têm ar estrangeiro, e, praticamente todos, caminham bem-dispostos ou, pelo menos, é esta a ideia com que se fica… A história que o «Bairrada Informação» foi conhecer, envolve uma peregrina, de origem italiana, um albergue de peregrinos na zona da Bairrada e uma história de amor, que até já deu frutos….DSCF0051

6 de fevereiro de 2014, C. “aterra” em Lisboa e inicia o percurso até Santiago de Compostela. Uma “viagem”, a pé, que durou um mês e só terminou seiscentos e cinquenta quilómetros depois. De origem italiana, o mote para este percurso de C. provém de uma tese final de curso, numa escola dinamarquesa, em que a jovem, hoje com trinta e cinco anos, se propôs a fotografar o caminho e o que de melhor captasse dele.

“Foi a minha quarta peregrinação a Santiago de Compostela. Fiz o Caminho do Norte, o Francês e o de Santo António na Itália”, confessou-nos C., garantindo tê-lo feito “sempre sozinha”. “Caminhar sozinha é uma meditação, uma terapia, um vício….”, acrescentou.

15 de fevereiro de 2014: C. recorda-se da chegada ao concelho da Mealhada. Tinha partido de Coimbra e numa localidade da freguesia de Casal Comba deparou-se com “mais um momento dos que ficam na memória” e que se junta a muitos outros que durante dias se vai acumulando: “Chegaram a chamar-me para pagar um café e pedirem para rezar por ‘elas’ em Santiago. Nesta viagem vemos o lado mais humano de todas as pessoas”.

DSCF0056Mas voltemos à chegada à Lendiosa… “Era meio da tarde e havia uma festa de aniversário de uma criança, numa garagem. Quando passei começaram a chamar-se: ‘Peregrina’, ‘peregrina’ vem comer e beber qualquer coisa!”, conta C., recordando este momento, que lhe deu energia para chegar ao centro da Mealhada.

“Estava a entardecer e eu só queria chegar a um local para descansar”, referiu, relembrando ter sido abordada por um rapaz, que lhe perguntou se precisava de ajuda e com quem mais tarde se veio a encontrar, por ser funcionário do alojamento onde permaneceu nessa noite.

“Fiquei com vergonha, pois tinha há poucos minutos negado a sua ajuda….”, explicou, entre risos, C., recordando que estava a caminhar “desde as 8 horas, cerca de vinte e cinco quilómetros” e que “apesar de ser tudo feito tranquilamente, de forma a conhecer a cultura, gastronomia e património de cada localidade, é muito cansativo ao final de cada dia”.DSCF0533

Ao amanhecer, e de partida para Águeda, deu-se a troca de contactos e uns quilómetros mais acima, no Porto, passados uns dias, houve novo encontro. Começava assim a história que contamos, que teve “nova” separação para que C. concluísse a sua caminhada até Santiago.  “Um mês que vou recordar para sempre. A primeira semana é fisicamente cansativa, depois vem o desgaste mental e quando temos o físico e o mental treinados, a experiência termina”, confessa, afirmando que “este poderá ser o motivo para o qual muitas pessoas repetem o Caminho”. “Torna-se viciante!”, diz.

Concluído o percurso e com viagem marcada de Madrid até à Dinamarca, C. ainda teve tempo de passar pela Bairrada e “alimentar” os laços que perduram até hoje.

Algumas viagens trocadas, é na Bairrada que actualmente vive C. e o namorado, que em 2017 foram pais de uma menina. Chama-se Estela e explicam porquê: “Se há registo de restos mortais de Santiago (apóstolo dos ‘mais chegados’ de Jesus Cristo) nos anos de 813 e 820, Compostela tem também uma forte mensagem, por significar ‘campo de estrelas’, uma vez que era, nos tempos passados, seguindo as estrelas, que os peregrinos chegavam a Santiago… Fez-nos sentido que o nome da nossa filha fosse Estela…”.

Dados estatísticos sobre os Caminhos a Santiago de Compostela

Dados da Oficina do Peregrino – http://oficinadelperegrino.com/ – mostram que, em 2016, chegaram a Santiago de Compostela perto de 278 mil peregrinos, 13.245 desses foram de nacionalidade portuguesa. Durante esse ano, o Caminho mais utilizado foi o francês, por 176 mil peregrinos, tendo o caminho português sido feito por mais de 49.500 caminhantes, que partiram essencialmente do Aeroporto do Porto, Lisboa, Ponte de Lima, Viana do Castelo, Guarda, Coimbra, Chaves, Póvoa do Varzim, Fátima e Aveiro.DSCF0752

O proprietário de um albergue na Bairrada garante “haver um aumento de 30% de peregrinos”. “Daqui até Santiago fica-se a conhecer dois países e passa-se por locais, muitos deles Património da Humanidade, religiosos e/ou de grande influência cultural, como são exemplo, Lisboa, Tomar, Fátima, Coimbra, Porto, Barcelos e Ponte de Lima”, explica o responsável por Albergue, garantindo que em média “o peregrino gasta 25 euros por dia, com dormida e duas refeições”.

Uma “mais – valia” para as economias locais de diversos pontos por onde estes caminhos passam, havendo aldeias em Espanha que há 30 anos estavam em ruínas e hoje são autênticas vilas, que renasceram para dar resposta às necessidades dos peregrinos.

Na década de 80, com a publicação da obra “O Alquimista”, de Paulo Coelho, houve um “boom” na peregrinação a Santiago de Compostela. Um “renascimento” que dura até hoje….

Só em dezembro passado, receberam o Diploma de Peregrinação 2.893 pessoas, tendo sido o caminho português o segundo mais utilizado e apenas ultrapassado pelo francês….

 

Reportagem de Mónica Sofia Lopes

Fotos de C. aquando do percurso português de Lisboa a Santiago de Compostela