A tradicional Romaria da Ascensão volta a ganhar destaque no concelho da Mealhada como um dos principais marcos da identidade e tradição locais. A Junta de Freguesia do Luso, a Câmara Municipal da Mealhada e a Fundação Mata do Bussaco prepararam um programa alargado, convidando toda a comunidade a participar ativamente nesta celebração, que decorre durante todo o mês de maio. Os pontos fortes, para além desta Quinta-Feira da Ascensão, estão marcados para os dias 15 e 17, com um desfile infantil e um cortejo etnográfico, respetivamente.
Até final de maio, sob o mote do renascer das tradições, o programa da Romaria da Ascensão propõe transformar o concelho, com enfoque para a vila de Luso, num verdadeiro jardim vivo. A população é desafiada a decorar portas, janelas e varandas com elementos típicos da época, como ramos de giesta e flores silvestres, recriando ambientes que evocam a memória coletiva e o espírito desta festividade. «O mês de maio está muito associado ao mês da fertilidade, tanto rural como a feminina e, por isso, antigamente, logo no dia 1, as pessoas colocavam “os maios” (ramos de giesta e de flores silvestres), num gesto simbólico de proteção contra o “mau-olhado”, evocando a tradição das Maias. Quem assim não o fizesse, era rotulado de preguiçoso e ficava mal visto», explica Joaquim Correia, Chefe da Divisão do Turismo do Município da Mealhada.
Este ano, a época da Ascensão, para além da Romaria, que leva centenas de pessoas ao Bussaco, tem previstos dois cortejos, um deles infantil com a participação do Centro Escolar de Luso, na sexta-feira, 15 de maio, a partir das 10h00, pelas ruas da vila, e o cortejo etnográfico «Tradições das Nossas Gentes», no dia 17, às 16h00, envolvendo a população dos vários lugares da freguesia, com dez carros alegóricos, grupos musicais e de folclore do concelho da Mealhada, bem como o grupo de bombos «Só Pedra» e a Associação Filarmónica de Luso. Cada grupo terá um tema, que está a ser trabalhado há já algumas semanas. A título de exemplo, «de Barrô será a cestaria e o empalhamento; do Bussaco as promessas à Senhora do Leite; do Bairro Luso d’Além, as lavadeiras; dos Moinhos, o peneirar nos moinhos; e da Lameira de Santa Eufémia, as vindimas», declarou, aquando de uma conferência de imprensa, João Leite, presidente da Junta de Freguesia de Luso, congratulando o facto «dos carros alegóricos estarem a ser preparados inteiramente pela população, com material antigo que as pessoas têm em casa e que dará uma cenografia perfeita». «Isto é algo que está a dar muito trabalho à comunidade, mas que sabemos que ficará na memória de todos», enfatiza o autarca.
A Venda Nova levará a desfile o tema «A Taberna». «Ando de volta de uma salgadeira antiga a trabalhá-la. Gostava de levar um trator antigo com as alavancas, mas não dá, por causa dos seguros, assim, iremos levar um trator mais moderno, mas recriando uma taberna antiga», começou por explicar, ao nosso jornal, José Duarte, de 62 anos, acrescentando que «a intenção é mostrar a realidade fiel de como tudo era antigamente» e que, por isso, «julgo que vamos conseguir ter quatro pessoas dentro desta taberna, todas vestidas a rigor». «É preciso lembrar que, na década de 60/70, na Venda Nova, ainda muitas pessoas trabalhavam com juntas de bois, das 5h00 da manhã até ao final da tarde. O único lazer era, no final do dia, parar num tasco ou numa adega para beber um copo», conta.
Cerca de uma dezena de pessoas têm trabalhado só neste tema. «Estas iniciativas são importantes por aquilo que nos recordam e estou muito feliz por isso. Julgo que quando o cortejo arrancar, até me vou emocionar», confessa-nos, recordando «os seus oito anos, em que a família ia toda a pé, desde a Venda Nova até ao Bussaco. Era uma tradição muito grande, em que vinham os meus tios de Lisboa e de Santarém», relembra. «Comíamos só iguarias caseiras, como o pão, a carne, enchidos e, às vezes, até se criavam leitões para assar neste dia da Ascensão», diz ainda.
Para além do cortejo etnográfico, durante o próximo fim-de-semana, está ainda previsto um Mercado da Ascensão, no sábado, a partir das 10h00, no Mercado da vila de Luso; pelas 20h00, haverá jantar com petiscos e bebidas; e, pelas 22h00, «Baile à Antiga» com Sampaio & Queiroz. O mercado prossegue no dia seguinte, na Alameda do Casino.
«Peças da Tradição», de Mickael Lourenço, são mote para exposição
No âmbito das celebrações do Dia da Ascensão, o Posto de Turismo Luso Bussaco tem patente, até dia 31 de maio, a exposição «Ascensão Peças da Tradição», que mostra a coleção pessoal de lenços e xailes de Mickael Lourenço, residente na freguesia de Luso. As entradas são gratuitas e a mostra pode ser vista, de segunda-feira a domingo, das 9h00 às 13h00 e das 14h30 às 17h30.
O colecionador e autor da exposição, Mickael Lourenço, «desde muito cedo se interessou pelas tradições e cultura popular portuguesas, tendo ingressado no mundo do folclore e da etnografia e participado, como membro ativo, em diversos grupos, quer na parte da dança, quer na parte da indumentária». «Com o seu gosto e interesse pela pesquisa e conhecimento, destas questões culturais, tem vindo a fazer uma recolha de peças de vestuário e acessórios, remetentes a finais do século XIX e inícios do século XX», lê-se na descrição da mostra, que acrescenta que o jovem «recolheu xailes, lenços, sombrinhas e chapéus de chuva, de forma a preservar as memórias dos tempos de outrora, para que as gerações futuras continuem a conhecer aquela que foi a vida e o passado das gentes e das suas tradições, da sua forma de trajar e os utensílios que usavam, bem como os usos e costumes».
Joaquim Correia, chefe de setor do Turismo do Município da Mealhada, quem nos guiou por esta exposição, garante que a mesma «convida o visitante a mergulhar num universo onde o tecido se torna história e o acessório se transforma em herança, revelando a elegância e a identidade das gentes de outrora». «Mostrarmos este tipo de tradições no Posto de Turismo tem muita relevância, até porque há dias, como aconteceu durante a Semana Santa, em que recebemos aqui mais de cem pessoas», refere ainda, congratulando o facto, de este ano, «a Ascensão estar viva na comunidade da freguesia».
Reportagem de Mónica Sofia Lopes

























