Quase sempre sossegado, até que numa certa noite, em que o sono recusava a chegar, decidi saltar da cama para ir à janela da cozinha. A velocidade com que saí da cama até parecia que alguma me esperava do outro lado da janela. Quatro passos antes de chegar à janela, travei, repentinamente, e comecei a caminhar lentamente.

Naquele instante, os quatro passos passaram a ser mais do que isso… Quando finalmente cheguei ao meu destino (à janela), não conseguia ver nada. Com os cotovelos apoiados sobre o parapeito e as duas mãos no queixo, perguntei a mim mesmo “o que vim aqui fazer?”.

Ainda assim, fiquei ali, a contemplar o nada… Tudo o que via durante o dia, as casas, as arvores, os carros e as pessoas a passarem de um lado para outro, tornou-se num vazio completo, e o cantar dos bichos voadores pela manhã e no aproximar da noite tornou-se, igualmente, num silêncio absoluto. Tudo desapareceu.

Afinal, o que estava a ver era uma claridade escura, sem nenhuma mensagem. Tudo em branco e um vazio de imaginações. Mas continuei ali a suportar o vento da madrugada que entrava pela janela adentro. Às vezes fechava os olhos na tentativa de imaginar o que poderia ver e ouvir, mas nada ocorria na minha cabeça e quando abria os olhos via tudo em branco e sem ruído.

O silêncio era tanto que decidi falar com o outro lado da rua:

“Vivemos para isto! É para isto que vivemos?
Durante o dia corremos de um lado para o outro
E chega a noite, o momento de recarregar as energias, não conseguimos.
Com esperança de falar com o mundo, encontramos todo
O universo sob um manto branco, sem pistas.
O que será feito de nós sem uma noite escura que fala?
Sem uma noite com luzes, como a conhecemos?
Ficamos assim a contemplar o branco da noite sem nada e que cala?”

 

Artigo de Mamadu Alimo Djalo

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