Muitas das vezes, as caminhadas que decidimos fazer não provém das nossas motivações mais íntimas, mas sim através das motivações de outras pessoas. Da mesma forma que, nem sempre devemos esperar que nos pisem os calos para decidir finalmente protestar contra essa atitude. Portanto, sem se perceber incorporamos dois papéis: – o nosso papel e o de outra pessoa.

O tempo em que vivemos hoje em dia reflete muito bem essa dualidade de papéis. Ou seja, “o sofrimento do outro também é o meu sofrimento”, e é legítimo que seja assim. Por isso, optamos por não ficar quietos a observar tudo a passar, o que nos leva (e levou vários homens e mulheres ao longo da história) a protestar contra as injustiças sociais instaladas nas mais diversas áreas e em diferentes cantos do universo.

Na verdade, os protestos feitos ao longo da história, mais precisamente no século passado, foram conduzidos com base do período que se vivia naquela altura, exigindo igualdade de direito e de oportunidade no acesso aos recursos e entre outras causas. De certa forma, foram vencidas, ainda que existam algumas lacunas por preencher. E agora pergunto, será que os protestos que estamos a protagonizar, atualmente, estão a ter em conta os olhares do presente? E será que não estaremos a criar mais lacunas para que as futuras gerações continuem a lutar, quase como nós, quando chegar a altura deles deixando mais lacunas para as outras gerações?

É evidente que se pode elaborar muitas questões ao lado destas e/ou contrariando-as. Mas o que é também claro é que estamos a julgar o passado com os olhos do presente e isso acabará por levar-nos a desviar dos problemas essenciais que hoje em dia devíamos enfrentar.

De referir que, qualquer tipo de protesto desde que tenha um fundamento forte, como a atual manifestação contrarracismo que estamos a ver um pouco por todo mundo, merece ser preparada e programada de modo que, não só fica marcado o “tal dia” como um dia “histórico”, como também um dia que causou mudança a nível das pessoas, das comunidades e das diferentes instituições do país. Caso contrário, sairemos várias vezes à rua com cartazes e fotografias nossas a demonstrar que estivemos na manifestação, gritamos, dizemos o que nos apetecia, mas sem resolver sequer uma linha das várias razões que nos levaram a sair para protestar.

É de uma importância crucial resgatar a história, falar do passado, tentar corrigi-lo, mas nunca julgá-lo com os olhos do presente, através de vandalismos em estátuas que, feliz ou infelizmente, representam algo, razão pela qual não devem ser atacadas, porque o problema não se resolverá com ataque aos patrimónios coletivos. Mas sim, com propostas sérias e comprometedoras entregues às instituições e seguir o cumprimento dessas mesmas propostas.

 

Artigo de Mamadu Alimo Djaló

Licenciado em Sociologia pela Universidade do Algarve;

Chef de Cozinha no Restaurante Paço 100 Pressa na Covilhã.