Perdoem-me falar nos Três Pinheiros, mas ao ler as notícias veiculadas por diversos órgãos de comunicação social* dei por mim a recordar os tempos de juventude…

É inevitável não fazê-lo! Aquele espaço marcou a geração dos meus pais, marcou a minha e tenho pena se não conseguir marcar a da minha filha. Que sorte tivemos nós de ter um “outro mundo” à porta de casa, onde em dias de enchente as gentes da Mealhada podiam deslocar-se a pé tranquilamente.

Aquele espaço, que cheguei a frequentar em alturas em que as três pistas lotavam por completo, não marcou só diversas gerações da região da Bairrada.  Ali, estavam semanalmente pessoas vindas de vários pontos do país. Sernadelo era o epicentro nocturno (mesmo que isso nem sempre tenha agradado a todos(as), pelas questões óbvias de ruído que daí advinha).

 

Recordo as míticas noites de Páscoa e de Natal, onde encontrávamos aqueles que só víamos duas vezes por ano: na Páscoa e no Natal, precisamente nos Três Pinheiros. Dias em que as ruas de Sernadelo se enchiam de carros para receber transeuntes vindos de todo o lado. E olhem que isto não foi assim há tanto tempo!

Ali houve de tudo… em grande e à grande! Festas de finalistas, festas da espuma, matinés… os Três Pinheiros foram palco, durante muitos anos, de um grande espetáculo de cultura que ainda hoje perdura e que também marcou parte da minha juventude e vida de estudante – as Escolíadas -, onde pais e professores acompanhavam filhos e alunos.

 

Considero que os mealhadenses da minha geração foram uns sortudos – e perdoem-me se acharem isto um disparate -, tivemos diversão no “jardim de casa”, o que terá certamente levado os nossos pais a dormirem mais descansados…  Fomos felizes!

Ali existiram muitos postos de trabalho e pessoas que conseguiram orientar as suas vidas. Ainda hoje, em idas ao local por motivos profissionais, algumas caras são (eram) as mesmas de há vinte anos.

 

Em fevereiro passado, após um jantar com colegas de escola, acabamos por parar nos Três Pinheiros, onde decorria um evento de Carnaval com as quatro escolas de samba do evento Luso Brasileiro da Bairrada. Nada era como antigamente. Estacionamos à porta e não tivemos filas para entrar. Nada era igual, mas naquelas quatro paredes lembrei-me dos meus 18 anos e dos 19 e dos 20….

 

Os Três Pinheiros não são mais nem menos do que qualquer outro estabelecimento – cafés, restaurantes, pequeno comércio, … – que, com a pandemia e eventualmente muitos outros motivos adjacentes, sofre na pele tempos difíceis. Sofrem as “casas” e sofrem os trabalhadores. A luta pela frente não é fácil e está agora a ser posta prova. Perdoem-me, por isso, falar exclusivamente dos Três Pinheiros, mas a malta do meu tempo vai certamente entender porque o faço!

 

 

*MEALHADA

O complexo Turístico Três Pinheiros, um espaço emblemático da Bairrada, apresentou um pedido de insolvência na semana passada, na sequência das quebras provocadas pela pandemia.

«O nosso modelo de negócio, com mais de 40 anos, assentava em grupos de visitantes, que desfrutavam de muitos serviços. Noventa por cento da nossa facturação no restaurante vinha de grupos muito alargados de pessoas, uma situação que acabou por causa da pandemia», relata Cláudio Pires.

(…) Criado nos anos 80, o espaço tem uma discoteca, um hotel e ainda várias salas para

eventos. 

Notícia completa na edição impressa do Diário de Coimbra desta sexta-feira, 22 de maio de 2020

 

 

 

Artigo de Mónica Sofia Lopes

Imagem com Direitos Reservados