Eis a questão que se coloca quando se aproximam as matrículas de ingresso no 1º ciclo: “Deverá o meu educando entrar com 5 anos ou 6 anos no 1.º Ciclo?”. Esta dúvida acompanha os Encarregados de Educação das crianças que apenas perfazem os 6 anos entre 16 de setembro e 31 de dezembro, assim como os seus educadores, durante todo o ano antes da tomada de decisão.

As perspetivas são várias, entre especialistas, equipas pedagógicas e Encarregados de Educação, pois cada criança é uma criança e o seu desenvolvimento não pode ser observado tendo em conta apenas a sua faixa etária. O consenso no ingresso ou não, ou a tentativa de chegada a ele, tem que ter sempre e como primeira prioridade a criança, a sua individualidade e o seu bem-estar. Estar atento à criança é o pilar basilar para a tomada desta tão importante decisão. O acompanhamento por parte da equipa pedagógica do Pré-escolar em consonância com os Encarregados de Educação é fulcral nesta etapa da vida, pois é necessário compreender se a criança apresenta a maturidade e a autonomia necessárias para realizar essa transição.

Quando observamos uma criança que se insere neste intervalo de tempo e que pode permanecer no Pré-escolar ou passar a ser designada por aluno condicional, ou seja, que está condicionada à vaga na escola, muitos aspetos têm que ser tidos em conta. Olhar a maturidade global envolve observar se a criança evidencia autonomia no seu quotidiano, se é capaz de se expressar de forma fluída através da linguagem, se tem em si estratégias de autorregulação, entre outras capacidades. Podemos observar que uma criança a nível cognitivo se encontra ao nível das crianças mais velhas, mas que ao nível emocional e social ainda não possui estratégias que lhe permitam lidar, por exemplo, com situações de frustração, de aceitação dos pequenos fracassos que encontra no seu dia-a-dia, ou que ainda não possui destreza no seu quotidiano para resolver de forma autónoma as suas necessidades. Estas fragilidades podem sugerir que será melhor para a criança a sua permanência no Pré-escolar de forma a fortalecer a sua maturidade.

Nesta fase o apoio aos Encarregados de Educação é igualmente fundamental, pois a sua ansiedade e insegurança, perante a nova transição dos seus filhos, pode repercutir nas crianças essa mesma instabilidade. Nos dias que correm as famílias, regra geral, encontram-se muito ansiosas face às conquistas académicas das suas crianças, o que dificulta em muitos casos a decisão de matricular ou não as crianças condicionais.

A permanência de mais um ano no Pré-escolar é encarada, por vezes, como “perder um ano” mas, na realidade pode ser vista exatamente como o contrário, um ganho de tempo, tempo de qualidade em que não vamos dar à criança um desafio para o qual ela ainda não está preparada, evitando dessa forma sentimentos de ansiedade e frustração e podem comprometer o seu futuro escolar. Ao permanecer no Jardim-de-infância a criança pode usufruir de mais um ano em que, calmamente e ao seu ritmo, terá a oportunidade de alcançar a maturidade que necessita para enfrentar posteriormente o desafio do 1º ano do Ensino Básico.

Cabe aos Educadores de Infância, e à sua equipa pedagógica, auxiliar as crianças, de forma segura e tranquila, na sua transição para o ensino primário, contudo, e segundo as Orientações Curriculares para a Educação Pré-escolar – OCEPE: “apoiar a transição e assegurar a continuidade não significa antecipar as metodologias e as estratégias de aprendizagem (…) [mas sim] proporcionar (…) as experiências e oportunidades de aprendizagem que permitem à criança desenvolver as suas potencialidades, fortalecer a sua autoestima, resiliência, autonomia e autocontrolo, criando condições para que tenha sucesso na etapa seguinte.”

Todavia, e como é anteriormente referido, cada criança requer um olhar diferente e como tal tem as suas características individuais. Assim se a criança ainda não tiver de facto os 6 anos concluídos mas o seu desenvolvimento não revelar as fragilidades enunciadas, se manifestar uma curiosidade nata, por exemplo, pelo código escrito ou por noções matemáticas, se o seu interesse for além dos desafios do Pré-escolar, a criança pode de facto estar preparada para encarar a nova etapa de uma forma tranquila e confiante.

A continuidade da criança com o seu grupo de pares de referência, com os amigos de sempre com quem a criança criou os seus laços de amizade, e que favorece a sua segurança emocional, é uma questão que muito preocupa os Encarregados de Educação. Porém, a maioria dos grupos de crianças, atualmente, manifesta uma característica heterogénea quanto à idade, o que faz com que algumas crianças permaneçam no grupo, atenuando assim essa inquietude.

Em suma e face a este tema é possível constatar que não há uma resposta igual para todos, é certo que as crianças em idade de escolaridade obrigatória ingressam no 1ºciclo do Ensino Básico, quanto às outras passa por respeitar o seu ritmo e as suas necessidades como seres únicos e individuais que são.

 

 

Liliana Serranheira, Educadora no Centro de Assistência Paroquial da Pampilhosa