Um Pato Chamado Donald, um Coelho Chamado Snowball e Sete Cães Emprestados
Na quinta onde vive no Algarve, partilha o espaço com dois cães que são seus para sempre e uma rotação de hóspedes que muda quase todos os meses. Só nos últimos três meses, ele e a namorada acolheram sete cães vindos de abrigos da região. Cada um recebe casa temporária, vacinas em dia e treino básico até aparecer uma família disposta a ficar com ele. Também adotaram um pato chamado Donald e um coelho chamado Snowball, ambos resgatados de condições que os dois consideraram inaceitáveis, e que hoje partilham o quintal com os cães sem que ninguém pareça achar isso estranho. Nenhum destes animais gera retorno financeiro para de Vries. É, aliás, o único tipo de investimento que ele próprio descreve como incapaz de dar lucro, e um dos poucos que persegue com esta constância, ano após ano, muito depois de a novidade ter passado.
O empresário neerlandês construiu a sua reputação a identificar falhas em mercados e a montar empresas para as preencher. Fundou e vendeu a Costa Events, uma promotora de festas de verão em Espanha, ainda antes dos trinta anos. Mais tarde recuou da gestão diária da GAET Holding, a empresa que fundou, para ficar apenas como acionista. Essa distância deu-lhe tempo para expandir para o imobiliário, a mobilidade e, mais recentemente, para participações em inteligência artificial. Nos últimos anos, aplicou o mesmo instinto de identificar ineficiências a um problema que não tem nada a ver com lucro: o tratamento dado aos animais em Portugal, o país onde escolheu instalar-se depois de deixar os Países Baixos.
O Choque Cultural que Se Tornou Ponto de Partida
De Vries e a namorada mudaram-se para Portugal à procura de espaço exterior suficiente para os seus próprios cães correrem à vontade. O que encontraram foi uma relação com os animais bastante diferente daquela a que estavam habituados.
“Reparámos logo, ao chegar, que aqui o bem-estar animal se vive de outra forma”, disse de Vries. “Na Holanda, e creio que nos Estados Unidos também, o animal de estimação é tratado como mais um elemento da casa, com todo o carinho que isso implica. Em Portugal, encontrámos muitos casos em que o cão serve sobretudo para vigiar a propriedade, preso o dia inteiro a uma corrente curta, ao sol, sem água por perto.”
O casal encontrou esse hábito repetido junto de vizinhos e conhecidos, gente que gostava genuinamente dos próprios animais mas que raramente os via como parte da família da mesma forma que de Vries via os seus dois cães. Foi esse contraste, mais do que qualquer plano de negócio, que o empurrou para o setor da proteção animal.
Portugal Perde Cerca de 120 Animais Por Dia Para o Abandono
O incómodo de de Vries coincide com um problema que as autoridades portuguesas documentam há anos. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas registou 41.994 animais errantes recolhidos em 2022, uma ligeira descida face aos 43.603 do ano anterior, números que traduzem uma média próxima de 120 animais abandonados por dia em todo o país. Cidades como Cascais, Braga, Famalicão, Santo Tirso e Ponta Delgada, nos Açores, surgem repetidamente entre as zonas mais afetadas, mas associações no terreno insistem que o problema não se limita a essas manchas: é nacional. Julho e agosto concentram sozinhos mais de um terço dos casos todos os anos, período que várias organizações ligam diretamente às viagens de férias.
Sandra Duarte Cardoso, médica veterinária e presidente da associação SOS Animal, resume o problema como uma questão cultural mais do que económica. “Neste país, o abandono foi normalizado”, afirmou. A associação recebe hoje pedidos frequentes de gente que ameaça abandonar o próprio animal caso não obtenha ajuda imediata, uma espécie de chantagem que se tornou rotina para quem trabalha na linha da frente do resgate. Para Cardoso, essa atitude nasce de uma visão do animal como posse, não como um ser com direito a cuidado permanente. Em Lisboa, a associação Animalife recebe atualmente mais de quatro mil pedidos de ajuda por semestre e apoia cerca de 700 famílias que cuidam, no total, de perto de 1.500 animais, sobretudo através de consultas veterinárias, identificação eletrónica e apoio para a compra de comida.
A pressão sobre os abrigos aumentou desde 23 de setembro de 2018, data em que entrou em vigor a lei que proíbe o abate de animais saudáveis nos canis municipais. A lei acabou com uma prática que durava décadas, mas deixou às instituições de acolhimento a tarefa de alimentar, tratar e encontrar casa para um número de animais que continua a crescer mais depressa do que a capacidade de os receber. Foi dentro desse cenário, e não de um qualquer estudo de mercado, que de Vries decidiu agir.
Uma Lógica de Negócios Aplicada a um Abrigo
A primeira ideia de de Vries foi criar o seu próprio abrigo. Só depois de visitar algumas das instalações já a funcionar na região é que percebeu faltar-lhe experiência para arrancar do zero, e mudou de plano.
“Fui a um dos maiores e melhores abrigos da minha zona, e isso ensinou-me muita coisa”, contou. “Foi lá que me indicaram um abrigo novo, a poucos minutos de casa, que estava a ser construído. Perguntei como podia ajudar e, claro, a resposta foi dinheiro. Mas eu não queria dar apenas uma verba pontual. Queria começar a trabalhar com eles para melhorar a operação.”
O abrigo em questão é a Animal Rescue Algarve, fundada em 2017 por um empresário britânico residente na região e instalada, desde 2018, numa propriedade de cinco hectares em Cabanita, perto de Loulé. Hoje soma 48 canis capazes de acolher até 100 cães, catorze zonas de socialização ao ar livre e uma cattery para cerca de 50 gatos. Desde que abriu portas, já concluiu mais de 2.300 adoções, mais de 160 só este ano.
De Vries começou por organizar, com amigos e familiares, uma angariação que reuniu 4.950 euros para comida e material básico do canil. Uma segunda campanha, feita no Natal, juntou perto de 12.000 euros, desta vez canalizados através de uma associação formal que ele próprio ajudou a criar precisamente para dar estrutura às angariações seguintes. O dinheiro, no entanto, foi sempre a parte mais fácil.
“Eles queriam aprender connosco como funcionar melhor como equipa”, explicou de Vries. “Queriam gerar mais receita, atrair pedidos de adoção com mais qualidade, ter mais marketing.” A sequência que descreve é a mesma que aplica a qualquer um dos seus negócios: identificar a ineficiência, perceber a causa raiz e só depois desenhar uma solução capaz de se sustentar sozinha, sem depender de um novo cheque a cada ano.
A Rede que Já Ultrapassa os Cães
O interesse de de Vries pelo bem-estar animal não ficou pelos cães do Algarve. Tornou-se também um dos primeiros doadores do santuário Pangea, um projeto que está a transformar mil hectares no Alentejo num refúgio para elefantes resgatados de zoos e circos, o primeiro do género na Europa. Registada como associação britânica desde 2017 e como instituição portuguesa desde 2022, a Pangea recebeu em 2026 o seu primeiro habitante: uma elefanta batizada Julie, descrita como o último elefante de circo ainda em atividade no país, que passou quase quatro décadas longe de África antes de chegar ao Alentejo. Além do apoio financeiro, de Vries emprestou à Pangea a mesma experiência em marketing e angariação de fundos já aplicada no Algarve.
Essa lógica de replicar o modelo estende-se agora às próprias empresas que dirige. Nas operações que mantém na Alemanha e em Malta, começou a incentivar os funcionários a envolverem-se em voluntariado com causas animais. É uma escala modesta face aos números nacionais de abandono, mas segue o mesmo raciocínio aplicado ao primeiro abrigo perto de casa. Em vez de escrever um cheque e seguir em frente, de Vries prefere ficar por perto tempo suficiente para que a ajuda produza algo que dure além do próprio donativo.
A filantropia de de Vries não se resume aos animais. Lidera também esforços de apoio às vítimas da guerra na Ucrânia, e a sua empresa na Polónia tem metade do quadro de pessoal composto por trabalhadores ucranianos. Mas é o bem-estar animal que ocupa o espaço mais visível da sua rotina, precisamente porque é onde o problema aparece todos os dias, ao pequeno-almoço, com um cão emprestado à espera de dono e um pato chamado Donald a andar por perto.
A namorada de de Vries continua a ser quem gere grande parte do dia a dia dos animais em casa, das idas ao veterinário à triagem de quem se candidata a adotar cada cão que passa pela quinta. É um trabalho que raramente aparece nas notícias sobre os negócios de de Vries, ainda que ocupe uma fatia constante da rotina do casal, semana após semana.
De Vries continua a acolher cães temporariamente. Continua a apoiar a Animal Rescue Algarve. E continua a procurar, entre as instituições com quem já trabalhou, aquelas que precisam menos de dinheiro do que de alguém disposto a ajudar a resolver o problema todos os dias, um pouco como fez com cada empresa que fundou antes desta.





















