Depois do «Versejar no Rasto das Pandemias», um livro de versos publicado em 2023, Júlio Francisco Costa, natural de Felgueira Velha, mas residente na Mealhada há décadas, publicou agora «História de uma vida», com grande enfoque para a transcrição do seu diário de guerra em Angola, onde esteve de 1963 a 1965. «É um livro muito interessante pela memória de guerra muito diferente daquela a que estamos habituados. Aqui temos um registo na primeira pessoa de cada momento, onde vamos percebendo as frustrações, o aborrecimento, o desgaste ou até os períodos de doença», enaltece Nuno Canilho, o revisor e autor do prefácio da obra, mas também presidente da direção da Associação Humanitária dos Bombeiros da Mealhada, entidade para a qual o valor da obra reverteu.
Tem 87 anos e um percurso de vida vasto. Natural de Oliveira do Hospital, tirou o curso de regente agrícola em Coimbra, seguindo-se um estágio na Estufa da Mealhada, na década de sessenta. «Os meus pais – a mãe Céu e o pai João – eram analfabetos, mas vivendo da agricultura, arranjaram maneira de vir para uma quinta em Coimbra para que os três filhos pudessem estudar. Só quando acabámos os cursos e seguimos as nossas vidas, é que eles regressaram à aldeia», desvenda Júlio Costa, que trabalhou no Conselho Nacional do Ministério do Ambiente e já depois de se ter reformado esteve uma série de anos ligado a uma cooperativa agrícola no concelho da Mealhada.
Na política, foi no primeiro ano de mandato de Odete Isabel seu vice-presidente e chegou a ser candidato à Câmara da Mealhada, pelo Partido Socialista, mas foi no PCP que encontrou os seus ideais partidários, tendo sido inclusivamente mandatário do partido no concelho mealhadense, nas últimas eleições autárquicas.
O rugby pela Académica de Coimbra foi o seu desporto até aos 35 anos, tendo sido também treinador pela Escola Agrícola e jogado nos veteranos da modalidade. Ainda hoje as sextas-feiras são sagradas no designado «Clube de Rugby» em Coimbra. «O aluguer daquele imóvel vem do nosso tempo enquanto jogadores. Hoje temos um espaço por cima do edifício, onde fazemos os nossos encontros com jantar, todas as semanas e continuamos a ir ver alguns jogos. No fundo estamos “vivos”», disse, ao nosso jornal, Júlio Costa, fazendo um balanço da sua vida, que está, aliás, toda explanada nas mais de duas centenas de páginas da obra, recentemente publicada.
Mas a parte mais aliciante do livro será o que designa de «Diário de Guerra em Angola». «Estive 42 meses e 15 dias na tropa, sendo que destes estive 27 meses em Angola, onze deles no Norte do país, com intensa atividade, onde estávamos mal instalados e com comida horrível, só à base de conservas», explica Júlio Costa, que, dentro do cenário de guerra e da paixão pela agricultura, recorda a horta que fez, a cem metros do acampamento, «que me ajudou a ter uma alimentação mais correta, com verduras como alfaces e tomates, mas principalmente me ajudou a suportar o stress».
O autor confessa ainda que quando começou a reescrever o diário, «as feridas voltaram “a abrir” e o livro esteve quase para ficar por aí» até porque, recorda, «fui para a tropa com 23 anos e vim de Angola com 27, o que significa que a minha juventude foi toda ali». Apesar disso, assume «uma vida com uma história muito bonita, nas áreas política, profissional e desportiva e, obviamente, no contexto familiar com três filhos maravilhosos, três noras dedicadas e seis netos espetaculares».
O custo da obra – cem livros – foram todos suportados pelo autor, com as vendas a reverterem a favor dos Bombeiros da Mealhada. «Trata-se de um gesto de generosidade de alguém que tem uma vida dedicada ao cooperativismo e à política, dando sempre um pouco de si aos outros», congratulou Nuno Canilho.
Texto de Mónica Sofia Lopes
Fotografia com Direitos Reservados























