Sensibilizar para a conservação das serpentes em Portugal e inspirar as pessoas a protegerem estes animais, tão úteis para o bom funcionamento dos ecossistemas e saúde pública, é o grande objetivo do projeto «Cobras de Portugal», lançado em 2020, e coordenado pela Associação BioLiving. Em https://www.facebook.com/cobrasdeportugal, os quatro voluntários envolvidos na iniciativa já deram resposta a cerca de sete centenas de mensagens enviadas por utilizadores.

Davina Falcão, 35 anos, residente em Aveiro, é a coordenadora do projeto «Cobras de Portugal». «Sempre gostei de répteis. Nasci na África do Sul e tenho uma paixão por cobras», desvenda a jovem, que garante que quando chegou a Portugal, nos anos 90, sentiu falta de informação sobre este tipo de animais. «Descobri livros europeus que falavam das espécies existentes em Portugal e tive vontade de transmitir essa informação», afiança Davina Falcão, lamentando ter-se deparado com o facto «de as pessoas matarem as cobras por tudo e por nada».

Mestre em Ecologia, Gestão e Conservação da Biodiversidade, Davina Falcão sublinha que o projeto que coordena «pretende promover uma convivência mais saudável entre humanos e serpentes através da capacitação do público geral na identificação das espécies existentes em Portugal com partilha de boas práticas e procedimentos a adotar quando em contacto com serpentes». «Para além disso, queremos desmistificar histórias, mitos e lendas que frequentemente moldam a opinião pública relativamente a estes répteis, tornando-os seres assustadores e perigosos», acrescenta.

«É importante que as pessoas tomem consciência de que as cobras ajudam no controlo de pragas, por exemplo, as roedoras são um problema para a agricultura e para a transmissão de doenças. As cobras não extinguem os ratos, mas quando deixarem de existir, vão haver muitos mais ratos», explica, lamentando a «ideia comum» em Portugal de que «as cobras são perigosas». «A verdade é que em Portugal temos apenas dez espécies e destas só duas são consideradas perigosas. Um “perigoso” que não tem nada a ver com espécies de outros países, pois as nossas víboras têm um veneno extremamente fraco», continua Davina Falcão, dando dicas para a distinção de uma cobra venenosa de uma que não o é: «As serpentes inofensivas têm olhos com pupila redonda e as venenosas uma linha vertical; já o desenho ziguezague é muito típico nas víboras».

«Quando estão encurraladas bufam e aumentam o tamanho do corpo, mesmo as inofensivas. A cabeça fica em forma triangular, achatada para que possa parecer maior, e as pessoas acham sempre que este é um sinal de que são venenosas, mas não é verdade. No fundo, quando se sentem encurraladas, sentem que somos uma ameaça para elas», diz a jovem, aconselhando as pessoas, nestas situações, a contactarem as «Cobras de Portugal» ou as autoridades, mas evitando a morte do animal. «Normalmente, as equipas do Serviço de Proteção da Natureza e Ambiente da GNR tiram-nas do local e, se não apresentarem nenhum ferimento, são imediatamente libertadas», afirma, apelando «ao respeito por estes animais».

Por agora, o trabalho está muito centrado no online, mas, no futuro, as «Cobras de Portugal» querem fazer «tours» por todo o país com atividades e palestras. «Em 2020, recebemos mais de 700 mensagens com pedidos de ajuda para identificarmos cobras. Geralmente, pessoas que avistam uma cobra e tiram foto. 90% dos pedidos que nos chegaram eram de animais inofensivos», enaltece Davina Falcão, garantindo «celeridade na resposta» na página do projeto na rede social Facebook.

 

Mónica Sofia Lopes