Nome: Luís Carlos Pires Martelo

Idade: 31

Naturalidade: Barcouço

Profissão: Músico Profissional

 

 

Depois de três anos a viver na rua, Luís Carlos Pires Martelo, hoje com 31 anos, natural de Barcouço, no concelho da Mealhada, rumou a Inglaterra, em 2014, em busca de «um futuro melhor e com o sonho de recuperar a carreira na música». Com o trompete sempre debaixo do ombro e um trabalho que começa agora a dar frutos, o jovem foi, recentemente, galardoado com a Medalha de Bronze dos «Global Music Awards 2020», nos Estados Unidos da América, como o terceiro melhor instrumentista do mundo.

Luís Martelo recorda a infância em Barcouço e o percurso do 5.º ao 12.º ano no Centro de Estudos Educativos de Ançã. Paralelamente estava na Filarmónica Lyra Barcoucense 10 de agosto e frequentou o Conservatório de Música de Coimbra. Seguiu-se a recruta e especialidade de músico na Banda Sinfónica do Exército, tendo sido destacado para a Banda Militar de Évora, cidade onde entrou na universidade no curso de Música Clássica (Trompete). «Em 2011 saí do exército e acabei a dormir na rua, durante quase três anos, pela zona de Vila Nova de Milfontes, onde fui trabalhando no que aparecia para conseguir comer: pesca, bares, obras, etc.», desvenda sobre um período da vida que só terminou, em setembro de 2014, quando partiu com destino a Inglaterra.

Depois de três anos a residir em Londres, atualmente Luís Martelo vive em Somerset perto de Bristol. «Emigrei pela falta de oportunidades, mas também com o sonho de recuperar a minha carreira na música, a minha vida e também constituir família», confessa.

A facilidade com a língua, a ideia que tinha de Londres «pelo que via na televisão», mas também pela história, a música, a neve, a multiculturalidade jovem, a arte, o divertimento e muita oferta de trabalho, levaram o músico a escolher Inglaterra. «A cultura aqui é totalmente diferente da nossa», enfatiza, dando como exemplo simples «as questões de higiene». «Nós, os latinos, somos muito asseados e, por isso, todos querem os portugueses nas limpezas», explica.

O «sonho» de Londres, «a cidade bonita da televisão», terminou rápido. «Eu pagava por um quarto com cozinha e casa de banho, nos subúrbios de Londres, 950 libras, um sítio onde ninguém quer viver pela perigosidade, caso contrário seria bem mais caro. A parte bonita de Londres fica-se pela zona histórica, todo o resto são guetos e subúrbios», defende, sublinhando, contudo, que é ali que está «o país multicultural e animado».

«Em Somerset encontramos a paz, o campo, o verde, os animais e também há desenvolvimento. Os preços são muito mais acessíveis e o ambiente mais saudável para os filhos crescerem, terem amigos, andarem na rua, etc.», sublinha Luís Martelo, lamentando, contudo, que, por ser uma zona mais tradicional, «o racismo tem aumentado e está presente diariamente, agora ainda mais acentuado depois do Brexit».

E voltar a Portugal? «Pelo país em si e pela cultura… ia já para Portugal. Mas viver de quê? Que futuro dou aos meus filhos? Quem me dera que tudo mudasse e as condições fossem melhores. Não há nada como o nosso cantinho e a nossa gente», afiança, garantindo que o que mais sente falta «é da comida, do mar, do café, da língua, do abraço dos amigos e da liberdade de estar na nossa terra». «Não és 100% feliz vivendo num país que não é teu, por muito que tudo corra bem», remata.

 

Percurso na música está consolidado

Há seis anos e meio quando emigrou para Inglaterra, trabalhou na restauração, na construção civil e ainda como operário numa fábrica de madeira. «Em determinada altura consegui comprar um trompete e concorri a uma orquestra de Bristol, onde fiquei», explica o jovem, que tem feito sucesso nas três «Big Bands» onde toca, explorando as raízes latinas. «As músicas são escolhidas a dedo em cada “show” que faço», confessa, garantindo que 2020 «foi o seu melhor ano de carreira». «Comecei a tocar em lares de idosos, com uma coluna livre de eletricidade que me permite estar longe deles. Toco na rua, enquanto eles estão dentro das suas casas», sublinha, desvendando que, neste momento, faz no mínimo, 180 a 200 libras em duas horas.

Luís Martelo tem também gravado, em estúdio, para vários artistas conhecidos e várias bandas sonoras de filmes de Hollywood, tal como a última faixa chamada «Uber Time» para o realizador Scott Fivelson dos filmes «American Reel» e «Near Myth: The Oskar Knight Story» onde participa o ator português Joaquim Almeida. Foi convidado para atuar e lecionar em várias masterclasses e festivais internacionais, tal como vai acontecer no «VG Brass Festival», na Croácia, em junho próximo.

Nos tempos livres, o terceiro melhor instrumentista do mundo em 2020, descreve que adora «ir à Igreja com a família, ir ao ginásio, caminhar nos parques verdes e serras, descobrir museus e tudo aquilo que o faça sonhar e viajar».

 

«É difícil viver longe da família»

Sem vir a Portugal há dois anos, Luís Martelo confessa que é difícil viver longe da família e do país Natal. «Uma angústia decidir entre cá e lá; entre o melhor e o pior; entre ir para perto da família ou ter uma vida melhor», afirma o jovem músico, lamentando que os quatro filhos não possam crescer «livres e felizes, como nós fomos, com os tios, primos e avós, cheios de lama na roupa e tardes inteiras passadas na rua sem perigo».

Luís Martelo deixa ainda um conselho: «Como artista tive o privilégio e honra de viajar para tocar em quase todas as comunidades portuguesas na Europa – Suíça, Luxemburgo, França, Bélgica, Gales, Ilha de Jersey, Espanha, etc. – e aquilo que quero dizer aos portugueses é que valorizem aquilo que têm porque, apesar de todas as dificuldades, eles são felizes!».  «Em todos estes países que passei não conheci uma comunidade que não sofresse com preconceito, a saudade, dor, tristeza, trabalho duro e, em muitos casos, até fome, com a agravante de estarem longe de casa», foca.

 

 

Texto de Mónica Sofia Lopes

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