O primeiro desfile do Carnaval Luso Brasileiro da Bairrada remonta a 1971, após no ano anterior, um grupo de pessoas – onde estavam, entre outros, Luís Bernardino Marques, Manuel Santos, Cesário Cerveira, Álvaro Xabregas, Albino Saldanha, Carlos Pereira e Joaquim Luís – verem cancelados os festejos de Sant’Ana, devido ao falecimento de António de Oliveira Salazar, em Julho de 1970. Neste ano, a festa religiosa da padroeira da Mealhada seria a maior de sempre com duração de quase uma semana e uma panóplia de acontecimentos – provas de ciclismo, muita música e uma garraiada -, mas o falecimento do estadista português, cancelou o evento.

Com a não realização completa dos festejos, foi Luís Marques quem colocou o desafio aos colegas de se fazer um Carnaval «como o que acontecia para os lados de Ovar», depois do professor Manuel Santos ter dito que a Avenida Dr. Manuel Louzada seria um excelente circuito para esse efeito. Estava lançado o mote para um evento que, não só se realizou de 1971 a 75, como ainda ininterruptamente de 1978 a 2020.

À comitiva da organização dos festejos de Sant’Ana de 1970 juntam-se, nos primeiros anos do Carnaval, elementos de um grupo de «snooker», assim como indivíduos conhecidos da vila. Entre outros, eram eles José Castanheira, António Costa, António Alves, Manuel da Cruz, António Fernandes, António Castanheira de Melo, António Ferreira, António Inácio, Zé Flauta, Valeriano Cardeira, Manuel Coleta, António Machado, Carlos Jaime, António Lopes, João Penetra Saraiva, Fernando Melo, António Gradim, João Peres, José Coleta e Carlos Breda.

 

O primeiro corso…

O ansiado cortejo realizou-se no Domingo Gordo, a 21 de Fevereiro de 1971, tendo os participantes partido do armazém do Grémio da Lavoura para a Avenida Dr. Manuel Louzada. Iam no desfile, entre outros, os Gaiteiros Zés Pereiras das Carvalheiras, da Quinta do Valongo e de Ribeira de Frades; as «Caldeireiras» da Póvoa da Mealhada; o carro Foguetão (que abria caminho para a imaginação das crianças); carros da Casa Gilinho (um veículo blindado de combate) e das Caves Messias (com uma enorme garrafa de espumante); o grupo «Macacu» com um numeroso número de índios cuja crítica sem filtros fez deste agrupamento um marco do Carnaval da Mealhada; e um carro «sala de restaurante» de Sernadelo elaborado por Manuel Martins Vaz, Carlos Alberto Castela e Carlos Gradim. O mais aguardado era uma camioneta de caixa aberta, cedida por César Carvalheira, com uma estátua em gesso, da autoria de Augusto Mamede, de Casal Comba, que representava um alegre folião carioca. À volta dessa estátua, brasileiros da Universidade de Coimbra – os responsáveis pelo evento se designar «luso-brasileiro» – cantavam e dançavam.

No fim, vinha o carro real com o Cerejo, o Rei Momo, e toda a sua corte. «O Cerejo era do Rosmaninhal, mas trabalhava no laboratório do Instituto da Vinha e do Vinho na Mealhada. Era um “bom vivant”, uma pessoa bem-disposta, muito sociável e um homem vistoso. Era alguém que estava cem anos à frente do tempo. Não havia muita gente a querer desempenhar o papel de Rei, mas para ele não havia problema nenhum», descreve Maria da Conceição Rosmaninho, antiga funcionária do IVV e elemento das «Damas», um grupo que começou a desfilar no Carnaval em 1979.

O desfile repetiu-se na terça-feira, 23 de fevereiro de 1971, tendo o evento dado um saldo positivo global de 33.170$00.

 

Nos anos seguintes…

Em 1972, consegue-se a mobilização das populações das oito freguesias do concelho da Mealhada, e, em 1973, a Comissão do Carnaval contrata um ornamentista – «senhor Lobo» de Felgueiras – para construir os carros e conta com um grupo de animação do Paraguai.

Os lucros deste biénio, para além de uma reserva de 100 contos para os festejos de 1974, foi distribuído por diversas associações desportivas, sendo que 50 contos foram «reservados» para se dar início à construção do Pavilhão Gimnodesportivo da Mealhada, uma ideia que surgiu logo em 1971, tornando-se a partir daí o grande objetivo do evento.

Em 1978 com o Carnaval a ter «ultrapassado os mil contos» de saldo positivo, a comissão adquire um terreno junto ao campo de futebol da Mealhada e, em 1979, com um lucro de mais de três mil contos inicia-se a construção do Pavilhão. Os anos seguintes, contudo, trouxeram proveitos bastante inferiores e a Associação de Carnaval da Bairrada (constituída em 1979 precisamente para ser uma personalidade jurídica a proprietária do terreno e mais tarde do pavilhão) não conseguiria concluir o pavilhão. «Foi proposto à Câmara que comprasse à Associação o terreno e a estrutura metálica que ela lá tinha instalado. A Câmara aceitou a proposta», referiu, ao Jornal da Mealhada, em 2008, Manuel Santos, um dos mentores do evento.

 

Vinda de Tony Ramos recordada como o ano de «maior enchente»

Depois da revolução do 25 de abril – em 1975 ainda terá havido um apontamento carnavalesco -, as edições de 1976 e 77 não se realizaram. Nessa altura, a Câmara presidida por Odete Isabel solicita a Luís Marques que retome a realização dos festejos do Carnaval Luso-Brasileiro da Bairrada, ressurgindo em 1978 com uma inovação bastante saliente: um rei brasileiro conhecido do público. Aproveitando o facto de as telenovelas brasileiras serem «uma febre» em Portugal, a organização do Carnaval trouxe ao desfile o ator Jaime Barcelos, «Doutor Ezequiel Prado» na telenovela «Gabriela, Cravo e Canela».

O sucesso «estrondoso», estava longe de se igualar ao ano seguinte, em que o rei foi o ator Tony Ramos, talvez o ano com maior enchente de público. «Recordo-me de o desfile ter parado ao pé do armazém de tecidos, porque era impossível alguém circular ou mexer-se. O Tony, do alto do carro, “entalado de pessoas”, só pedia para lhe darem as crianças lá para cima», descreve Maria da Conceição Rosmaninho, acrescentando que «a massa humana era tanta que havia pessoas a chorar com a aflição».

É nesse ano que desfila também no evento a primeira escola de samba da Mealhada, a segunda mais antiga do país, os Sócios da Mangueira. Uma década depois surge o Batuque, seguindo-se, passados dez anos, a Real Imperatriz, de Casal Comba; e, nos anos seguintes, a Juventude de Paquetá, da Mealhada; os Amigos da Tijuca, de Enxofães; e o Samba no Pé, de Sepins.

 

Carnaval muda-se para Sambódromo Luís Marques, mas regressa onde «nasceu»

Em 2001, com Fernanda Graça e José Guindeira na presidência e vice-presidência, respetivamente, da ACB, o Carnaval muda-se do centro da vila para a zona desportiva da Mealhada, para aquele que, durante muitos anos, foi designado de «Sambódromo Luís Marques». Nessa altura, os dirigentes da organização do evento entendiam que só assim o Carnaval podia crescer e as escolas se poderiam «especializar».

É neste percurso que «nasce» o Concurso de Escolas de Samba, em 2006, promovido pelo Jornal da Mealhada. Bruno Peres e Nuno Canilho foram os autores do seu regulamento.

Passados mais de quinze anos, e num mandato liderado por Alexandre Oliveira, os corsos regressam ao centro da Mealhada, uma mudança aplaudida pela maioria dos foliões.

 

 

Texto de Mónica Sofia Lopes

Imagens com Direitos Reservados disponibilizadas para o livro dos “50 anos do Carnaval Luso-Brasileiro da Bairrada”