As associações recreativas e culturais «sofrem» com as restrições da pandemia, numa altura em que o Verão trazia uma agenda cheia de eventos, mas que foram sendo cancelados, gradualmente, ao longo dos últimos quatro meses. No concelho da Mealhada, falamos com os dirigentes da Filarmónica Pampilhosense, do Rancho de São João e da escola de samba Sócios da Mangueira, percebendo assim o impacto da covid-19 no associativismo.

Por esta altura, em outros anos, a agenda estava repleta e os elementos das diferentes associações não tinham mãos a medir. «Encerrámos os nosso trabalhos em Março e a partir daí começámos a receber chamadas dos organizadores das festas, principalmente, religiosas, a cancelarem os eventos e a dispensarem o nosso trabalho», começa por explicar Daniel Vieira, presidente da direção da Filarmónica Pampilhosense, que apesar de o cancelamento das presenças dos músicos fazer com que a associação não tenha que lhes pagar os prémios, «a verdade é que não temos entrada de dinheiro e há despesas fixas para a manutenção da sede, como a água e a luz». «Valeu-nos um subsídio camarário já previsto para o nosso centenário, que fez face a dispensadores de álcool-gel, mudança do bar e manutenção na sede e de instrumentos», conta.

Em 2020, a Filarmónica Pampilhosense assinalou os seus 100 anos, sem a festa de «pompa e circunstância» tão almejada. «Tínhamos a visita dos nossos congéneres da Bélgica, um concerto com a Banda da Armada e a gravação de um CD, mas foi tudo adiado para 2021», lamenta o dirigente, garantindo que «o regresso ao “trabalho” está a ser feito com toda a segurança e higienização», mas ainda «só com metade da banda».

No início de março, Portugal registava poucos casos, mas já o Rancho de São João, de Casal Comba, decidia «encerrar» portas e toda a atividade envolvente. «Tivemos conhecimento que um rapaz daqui tinha tido contacto com alguém infetado e não quisemos estar expostos ao risco», diz-nos Augusto Mamede, presidente da direção do Rancho, lamentando que tudo tenha acontecido no ano em que se começavam os festejos do centenário do Rancho que acontece em 2022. «Em maio já tínhamos realizado um encontro com todos os folcloristas ainda vivos, onde já tínhamos mais de 200 presenças, assim como uma grande exposição fotográfica, com fotos desde 1922», diz o dirigente.

As tradicionais Festa das Sopas e Tasquinhas também não serão uma realidade em 2020, o que faz com que o Rancho não realize o habitual conforto financeiro que vinha sendo hábito. «Não entra nada e o dinheiro que temos é para pagar as despesas da luz, água e IMI», lamenta Augusto Mamede, enaltecendo que o rancho «tinha um projeto encantador até 2022».

André Castanheira, presidente da direção dos Sócios da Mangueira, fala num ano «desastroso». «Não posso abrir a escola, o bar e vimos canceladas quinze atuações só no Verão», garante o dirigente, que poucos dias depois do Carnaval da Mealhada se ter realizado, teve que fechar as portas. «Trabalhamos o ano todo, precisamente para conseguirmos ir buscar o melhor para apresentarmos na avenida. Neste momento, não temos solução e nem perspetivas de quando teremos alguma», diz.

Para a associação a quebra financeira é «abrupta». «Estou bastante preocupado desde o final do Carnaval quando comecei a ser contactado pelas empresas e comissões de festas a cancelarem a nossa presença. Iriamos encaixar 11.500 euros, sendo que parte desse valor colmataria despesas ainda do Carnaval de 2020», explica, descrevendo que a associação tem mais de três centenas de sócios, não fazendo sentido «abrir a sede só para dez ou 20». «Não somos capazes de deixar pessoas de fora!», remata.

 

 

Texto de Mónica Sofia Lopes

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