Hoje de manhã, levantei-me, espreguicei, alonguei e respirei fundo. Pensei para comigo: estou bem, tenho saúde e estou capaz de ir trabalhar mais um dia. Vamos lá então!

Nos últimos dias tudo tem sido um turbilhão de emoções, para todos! Uma situação nova e assustadora que nos coloca na posição mais frágil em que o Ser Humano pode estar, à mercê de um inimigo invisível, com o qual nem sabemos bem como lidar, além das precauções a tomar, que infelizmente vemos que nem todos tomam… sim, agora precisamos que todos sejamos um só na forma de pensar e de agir.

Nestes dias tenho vindo a sentir esta “invasão” de várias formas diferentes. Inicialmente fui surpreendida pois confesso que, quando o vírus ainda estava confinado à China, desvalorizei o seu impacto… eu, como tantas outras pessoas. Foi preciso tocar mais perto para sentir a gravidade e seriedade da situação (não devia ser preciso).

1ª Aprendizagem: não é porque está longe, num país desenvolvido (porque tendemos a preocupar-nos e ser solidários apenas com os países pobres ou com as grandes catástrofes naturais) que é menos preocupante. O Mundo é um só, e se o problema existe, mesmo que lá do outro lado, existe para nós também e merece a preocupação e interesse de todos.

À medida que os dias passam e vemos as notícias hora a hora, minuto a minuto, cresce a ansiedade de saber o que nos toca a nós, como está a desenvolver-se tudo isto em Portugal. Preocupamo-nos mais do que o normal com o país vizinho, porque agora as dificuldades deles serão as nossas também, assustam-nos mais ainda, pelo exemplo e pela proximidade. Na realidade, apesar das fronteiras agora tão marcadas, nunca estivemos tão próximos uns dos outros! Em força, em vontade, em solidariedade. Se as fronteiras nos têm que separar, há uma energia que nos une mais que nunca, e isso é maravilhoso!

2ª Aprendizagem: estávamos habituados a ser solidários quando o mal está do lado de lá. Mas é quando toca a todos que esta solidariedade se torna mais genuína… talvez porque se misture com medo… mas que sirva para percebermos que todos somos importantes para todos! E, acima de tudo, que sirva para nos unir muito mais do que aquilo que nos pode separar!

Entretanto, de um momento para o outro, as pessoas viram-se obrigadas a ficar em casa a reestruturar as suas prioridades e a voltar a olhar para dentro. Para dentro de si mesmas, para dentro de casa, para a família. Viram-se obrigadas a voltar a conviver e entender a si mesmo e a quem está ao lado, sem usar mecanismos de fuga. Porque neste momento não há escape senão a compreensão e a tolerância seja com o outro, seja consigo próprios. Agora se redefine muito do que realmente importa para cada um de nós… sem agendas preenchidas que nos fazem olhar para tudo e focar em nada…

3ª Aprendizagem: olhar mais para dentro de si, de quem se ama verdadeiramente, deixar de ser escravo do tempo e reaprender a VIVER! E VIVER não significa necessariamente fazer as melhores viagens do mundo, nem ser capaz de fazer mil coisas ao mesmo tempo. VIVER é sentir plenamente tudo o que se faz, mesmo que seja “apenas” ficar em casa…

 

Por fim, e para terminar esta minha análise, que poderia ser bem maior, se tivesse páginas para isso (já que tempo agora até há!), vejo agora empresas e instituições a reinventar-se e a criar formas de responder, acima de tudo, a necessidades que surgem. Vejo pessoas a mostrar-se solidárias com o próximo disponibilizando-se para ajudar e proteger quem precisa. Há também quem faça o contrário e leve o isolamento social para o lado feio, com o egoísmo que os faz esvaziar prateleiras ou manter empresas abertas com a sede de facturar o mais possível antes de ser obrigado a parar… Mas eu prefiro olhar para o outro lado, o bom, tão bom, que um fenómeno destes pode criar!

4ª Aprendizagem e mais reveladora de todas: é sob pressão (verdadeira pressão) que o Ser Humano se revela!! Que o lado BOM prevaleça!

E assim vim hoje trabalhar mais um dia, com fé naqueles que podem fazer algo para tudo melhorar: TODOS! A todos os que ficam em casa eu devo o meu profundo agradecimento. Porque eu tenho que vir trabalhar, e venho com gosto, com o mesmo gosto e orgulho daqueles que podem e têm que ficar em casa, porque estamos todos juntos na mesma batalha, em campos diferentes (e bem separados agora), mas somos todos soldados do mesmo batalhão. Vim trabalhar com as rotinas obsessivas de desinfecção desenfreada, protegendo-me tanto quanto possível, porque esta parte não pode relaxar NUNCA! Mas agora vou tentar relaxar as rugas da cara e tirar um bocadinho de carga às sobrancelhas. Hoje entrei no Hospital e dei a todos um “BOM DIA ALEGRIA”, só porque estamos aqui a fazer a nossa parte e somos capazes de o fazer.

Por isso, a todos vocês, que estão a fazer a vossa parte: BOM DIA ALEGRIA!

 

 

Artigo de Paula Gradim