A AGRESSIVIDADE INFANTIL E SEUS FATORES

“As crianças são como esponjas. Absorvem tudo o que fazemos, tudo o que dizemos. Aprendem connosco o tempo todo, mesmo quando não nos damos conta de que estamos a ensinar”.

De certo já todos nós ouvimos alguma vez a célebre frase “As crianças são como esponjas!!!”. Pois é…a criança absorve tudo, inclusive aquilo que não devia, ou que não lhe faria falta nenhuma se não absorvesse, como quem diz…se não visse ou ouvisse o que não lhe interessa, se não assistisse ao que não lhe compete assistir. Já dizia Maria Montessori que as crianças são como esponjas. Absorvem tudo o que fazemos, tudo o que dizemos. Aprendem connosco o tempo todo, mesmo quando não nos damos conta de que estamos a ensinar.

A criança tem uma mente absorvente. No início, a mente da criança é inconsciente, o que quer dizer que não há escolha no que se absorve, mas teoricamente, ela retém aquilo que é importante e deixa ir o que não é. O problema é que existem estímulos tóxicos que as crianças recebem e que, tal como esponjas do mar, podem ser filtrados ou não. E quando não são, a esponja para de filtrar, fica ansiosa, perde habilidade de lidar com o stress e frustração, perde resiliência e força de vontade e pode ficar mais desafiadora e agressiva. A agressividade é sem dúvida uma dessas absorções desnecessárias, mas frequentemente apreendida pelas crianças, sem que por vezes o adulto se dê conta.

Teorias à parte, sabe-se que o comportamento agressivo é próprio da espécie humana e apresenta múltiplas configurações. Segundo estudos, ele pode ser expresso pela via motora, através de movimentos de ataque ou fuga, por via emocional, com a experimentação de sentimentos de raiva e ódio, pela via somática, como a apresentação de taquicardia, rosto ruborizado, entre outras reações autónomas.

O comportamento agressivo pode também ser expresso pela via cognitiva, através de crenças de conquistas sem que importem os meios utilizados e finalmente pela via verbal, da qual a criança vai utilizar-se do sentido das palavras para expressar controle em relação aos outros.

Portanto, ao longo do processo de desenvolvimento da criança, há tendências agressivas inatas que emergem, embora estas possam ser diferentes, consoante a criança em questão. Nos primeiros anos de vida, por não dominar os recursos da linguagem e, consequentemente, não conseguir exprimir verbalmente os seus “problemas”, a criança expressa a sua agressividade através de gritos, choro ou até com agressões físicas.

Nesta fase, a agressividade é essencialmente manipulativa, porque o seu objetivo é alcançar determinados fins, por exemplo, ganhar um brinquedo ou defender-se. Este comportamento é a forma que a criança encontra para controlar o ambiente, ou seja, é a forma mais eficaz para satisfazer as suas necessidades.

Com o passar do tempo, acontece que a agressividade pode não desaparecer, mas a criança vai aprendendo que existem outras formas de obter o que deseja, como por exemplo através da partilha e da negociação. Mas e quando isso não acontece e a criança continua a não saber usar outra forma senão a agressiva?

A agressividade infantil é sem dúvida um dos temas da atualidade, gerador de vários estudos e imensamente preocupante para pais e educadores. Muitas questões se têm levantado sobre a sua origem. Será a televisão? Os jogos? As famílias? As escolas? Que soluções podemos encontrar para ela?                  

A conclusão mais plausível a que se tem chegado é que, quando as condutas agressivas persistem com o tempo, muitos poderão ser os fatores geradores de agressividade, mas os principais prendem-se sem dúvida essencialmente às interações familiares e ao ambiente social.

 

O COMPORTAMENTO DOS ADULTOS COMO REFERÊNCIA

 “A escola pode também contribuir para aumentar consideravelmente a agressividade”.

 

Há, sem dúvida, uma relação íntima entre o comportamento das crianças e dos adultos, nomeadamente os que são considerados figuras de referência, como o caso dos pais, familiares mais chegados, vizinhos, professores, educadores, auxiliares de ação educativa. As crianças tendem a replicar os comportamentos observados e se virem frequentemente os adultos a discutirem entre si, ou a repreenderem comportamentos indesejáveis com agressões verbais ou físicas, é natural que também elas adotem posturas mais agressivas nas suas interações.

Tendo em conta que as crianças hoje em dia passam a grande maioria do seu tempo na escola, é de suma importância a forma como professores e auxiliares resolvem os conflitos e como acompanham as crianças, nomeadamente nos momentos de interação entres estes, pois muitas vezes as crianças vagueiam pelos intervalos sem grande vigilância, potenciando situações de desordem e conflito sem que este possa ser travado ou até gerenciado.

A escola pode também contribuir para aumentar consideravelmente a agressividade, uma vez que ainda nos dias de hoje a agressividade surge como um método de disciplina, onde professores e funcionários chegam a recorrer a agressões físicas sobre as crianças, mas sobretudo utilizam uma agressividade simbólica, patente no constante controlo que detêm sobre os alunos, na prepotência, no desrespeito, na falta de privacidade e nos preconceitos que emitem.

 

Muitas vezes o problema existe, porque os próprios adultos não conseguem lidar com a sua própria frustração face ao comportamento agressivo da criança e agem de forma errada e por vezes também ela agressiva e descontrolada.

A agressividade não ocorre no vazio, insere-se num grupo, numa escola e numa teia de comunicação.

Família e Escola precisam desenvolver uma relação de confiança mútua e de colaboração, entendendo que ambas são importantes para a educação da criança. Neste sentido, o diálogo e a sintonia nas ações são fundamentais.

Se a criança é incentivada a ser agressiva, ao ouvir os pais dizerem “se te baterem defende-te…”, “Se te baterem, bate também…”, se o progenitor é chamado à escola porque a criança teve um comportamento agressivo com um colega ou com um adulto e a resolução do problema é bater na criança em frente a esse adulto ou até outros indivíduos alheios à situação, é óbvio que ela vai encontrar dificuldades em assimilar as regras de convivência da escola.

Em algumas ocasiões o cansaço, os problemas quotidianos, o ritmo acelerado de vida leva-nos ao recurso fácil das palmadas como solução efetiva e rápida para controlar o mau comportamento das crianças. No entanto devemos saber que existem formas alternativas, respeitosas e muito mais eficazes para consegui-lo: pegando ensinamos a pegar, dialogando ensinamos a dialogar, amando e compreendendo ensinamos a ser boas pessoas.

Cabe aos adultos ajudarem as crianças a desenvolverem o discernimento, o autocontrole e a capacidade de expressar os seus sentimentos de uma forma mais aceitável.

 

As “Brigas” na presença das crianças

Os conflitos de casais são normais, uma vez que estamos a falar de duas pessoas com valores e personalidades diferentes, mas deixam de o ser a partir do momento em que interferem com o emocional dos filhos e os fazem sentir culpados pelo desentendimento conjugal ou mesmo fazem com que eles absorvam essas “brigas” como uma forma normal de lidar com os problemas.

Estudos indicam que é benéfico para as crianças presenciarem os debates dos progenitores, desde que neles impere o bom senso. Os pontos de vista de cada um devem ser colocados de uma forma tranquila, sem agressões físicas ou verbais, sempre numa tentativa equilibrada de buscar uma solução.

As crianças necessitam de ter presente na sua vida que os conflitos existem, mas que devem ser tratados de forma respeitosa, aceitando-se as frustrações e buscando a aceitação das diferenças individuais.

Sempre que há um desentendimento presenciado pela criança, esta deverá entender o que está a acontecer, sendo-lhes explicados corretamente os motivos, para que não se sintam com medo, ansiosas ou até culpadas pela situação.

 

Os média e o seu contributo para o aumento da agressividade

No mundo moderno, a criança passa muito mais tempo com os seus heróis da TV do que com os pais ou professores. Muitas crianças suprem a falta que sentem dos pais com a televisão, sempre presente, colorida e de fácil acesso. Quanto menor e mais frágil for a criança, mais estará suscetível e maior influência sofrerá se encontrar um herói violento ou mau caráter, no qual se espelhará. Da mesma maneira que a família e a escola, a TV também tem um papel muito importante no desenvolvimento da pessoa.

Sabemos que a criança desde cedo tem a tendência à imitação, portanto imitam também o comportamento que vêm na televisão. Capazes de imitarem os comportamentos agressivos e violentos. As cenas agressivas são vistas nos filmes e desenhos animados e as crianças não as distinguem da violência real. Alguns heróis violentos são mais prejudiciais às crianças do que alguns vilões, porque são modelos que elas gostam de copiar. A justificativa da violência, como se fosse certo agir assim, e a constante exposição das crianças a ela trazem a dessensibilização.

Cenas de violência são apresentadas em todos os meios de comunicação, fazendo parte da programação atual da TV, a que chama a atenção principalmente das crianças que acabam ficando imunes a todos os tipos de agressão e violência, já que as vêm como entretenimento e até mesmo como maneira eficaz de resolver problemas.

As crianças que estão excessivamente expostas a violência que assistem na TV tem tendências a serem mais agressivas, visto que, a principal forma de aprendizado das crianças é a observação e imitação.

 

AGRESSIVIDADE “TRATA-SE”

Tal como se aprendem as condutas isso significa que também podem modificar-se. Isto aplica-se tanto às condutas agressivas como às mais sociáveis e positivas. Assim sendo um comportamento baseado na agressividade pode não só tratar-se, mas também ser modificado e substituído por outro adequado. Assim, uma primeira forma para prevenir a agressividade é a de a convertermos em modelos adequados para as nossas crianças, repartindo amor, carinho, ternura, formas de comunicação positiva, sem gritos nem gestos feios, com firmeza, mas com calma. Não há garantias de que seja infalível, mas a probabilidade de que sejamos imitados será muito maior e, dessa forma, a de que realizem a conduta contrária.

É importante que consigamos percecionar a tempo se as crianças apresentam algum défice de habilidade sociais, fraca capacidade de comunicação, ausência de estratégias verbais adequadas para resolver situações complicadas para eles, entre outros, e que possam estar por detrás da agressividade que manifestem. É fundamental, neste caso, consultar e falar com os professores perante qualquer dúvida, já que é na escola onde passam a maior parte do tempo. Tão pouco nos devemos esquecer a possível existência de fatores orgânicos que possam estar na raiz do problema, tais como doenças específicas, uma nutrição inadequada ou problemas hormonais.

Em casos mais específicos, caso não consigamos melhoras no comportamento da criança ou mesmo notemos que este continua a aumentar, não devemos ter dúvidas em ir a um profissional que possa ajudar-nos adequadamente a encontrar tanto as causas do mesmo como as medidas a adotar para resolvê-lo de forma satisfatória.

Outras ferramentas de redução da agressividade poderão passar por passar tempo de qualidade com as crianças, impor limites com afeto, conversar e brincar, valorizando os pequenos e grandes sucessos de cada dia, reduzir o número de horas de contacto com a televisão/comutadores/videojogos, bem como acompanhar estas atividades de perto, reduzindo a capacidade de visualização de situações tensas e agressivas.

As atividades recreativas também poderão ter um papel fundamental nesta causa, uma vez que nelas é gasta alguma energia e libertada tensão, para além de serem cultivas emoções positivas. Atividades que apelam à criatividade, tais como pintura, dança ou música, podem ser importantes meios para alargar comportamentos positivos e encontrar diferentes formas de lidar com as tenções emocionais.

 

Artigo da Prof.ª Sónia Simões – Técnica de Atividades de Tempos Livres do Centro de Assistência Paroquial da Pampilhosa