O tempo passa rápido aqui… todos os dias são uma surpresa…e esta aventura está aproximar-se do fim…. embora ainda tenha alguns dias de descoberta pelo sudoeste asiático – sem dúvida um lugar de crenças, valores, realidades bem diferentes das nossas.

Chego agora ao momento de refletir que sendo mundos tão distintos nenhum é superior, nenhum é melhor… Porque havemos nós de pensar que os nossos costumes é que são corretos? Porque havemos de achar que as nossas é que são as regras certas? Até que ponto temos o direito de achar que somos mais evoluídos….

Aqui prevalece o caos, mas neste caos tudo parece estar em harmonia.

Quando vimos como turistas só nos apercebemos da confusão das ruas e dos sítios turísticos onde nos levam…quando começamos a viver a cidade, a sentir a cidade, a cheirar os locais…percebemos que o caos é to harmonioso, que tudo parece fazer sentido, tudo convive  em harmonia: os animais, particularmente as vacas e cães, atravessam as estradas sem que nada lhes aconteça, são respeitados, as motas cruzam com carros, camiões, bicicletas…sem sinalização nenhuma e o trânsito parece fluir numa confusão absolutamente louca de entender. As pessoas deambulam pelas ruas, o comércio acontece…há quem durma num canto qualquer do chão, as lojas abertas para as ruas, os animais dentro das lojas…tudo parece tão natural, tão  sem julgamento e em nenhum  momento, neste lugar considerado caótico para nós, eu ouvi uma palavra mais dura, algum sinal de violência.

É engraçado que se há primeira vista nos chama atenção o lixo nas ruas e que realmente se vê em aglomerados em alguns locais… se seguirmos as rotinas deles, todas as manhãs quando abrem as suas lojas, limpam sagradamente o espaço envolvente das lojas, o que se reflete em passeios totalmente bem limpos, diariamente. E ao fim dia reúnem-se nas portas das suas lojas onde se sente o companheirismo entre eles.

No Domingo, aqui é dia de trabalho, o Prof Dr. Rabeendra é um homem muito ocupado, ainda assim disponibilizou nos um pouco do seu tempo e levou-nos a conhecer a faculdade de medicina onde é diretor e depois ao hospital universitário onde é co-diretor, assim como do Fewa Hospital onde  estou. A sua paixão é a Ortopedia, mas como foi também gestor de um banco estes são os cargos que tem de exercer. A experiência no Hospital Universitário foi muito boa, este hospital apesar de semiprivado já parece espelhar um pouco mais a realidade do Nepal: enfermarias sobre-lotadas, pacientes no chão, todos os familiares com os doentes, os cheiros, as refeições confecionadas pelas famílias no local, os corredores cheios, as condições nem sempre as melhores… é bom conhecermos outras realidades para darmos valor as nossas… tenho pena que o meu estágio não tenha sido neste hospital, de certa forma acabaria por contactar, ainda mais, com a realidade mais dura deste país.

Nesta segunda semana mudamos um pouco a estratégia do nosso trabalho. De manhã como não há tanto movimento no hospital temos aproveitado para explorar a cidade e de tarde vamos para o hospital onde ficamos pelo serviço de urgência e assistimos às cirurgias.

Uma tarde destas uma senhora olhava fixamente para mim no meio da sala da urgência, acabando por vir ter comigo…falou Nepalês tão rápido, que não entendi uma única palavra. Ela deu-me a mão, eu tentei falar-lhe em inglês… pareceu haver ali uma cumplicidade tão grande, apenas abafada pela língua diferente … levei-a comigo junto de uma enfermeira e pedi lhe que me traduzisse o que ela queria…estava simplesmente a convidar-me para ver o marido dela que estava doente. Depois abraçou-se a mim … tenho pena não ter fotografado este momento.

Aqui sente se o Amor entre as pessoas, aqui as famílias não se abandonam nos hospitais, aqui as pessoas cumprimentam-se com todo o respeito “Namastê”, aqui os turistas e voluntários  são bem recebidos – como nos dizia um empregado no hotel, a filosofia deles é: se dás o Bem recebes o Bem, aqui as pessoas cuidam umas das outras…ainda que tantas vezes com tão poucos recursos.

Gosto de passear pelas ruas da cidade, quando saio do hospital, o calor já é mais suportável, as pessoas estão todas nas ruas, a penumbra começa a surgir e é quando consigo sentir que também faço parte desta cidade …

 

Estela Loureiro é médica na Unidade de Saúde Familiar Caminhos do Cértoma, no concelho da Mealhada, e está, neste momento, no Nepal em missão de voluntariado.

Tal como aconteceu em 2017, em S. Tomé e Príncipe, atendeu, generosamente, ao repto do «Bairrada Informação», e tenta, sempre que é possível, contar-nos a todos(as) a experiência que está a viver.

Para o nosso jornal é uma honra e um orgulho desmedido conseguirmos ter connosco pessoas que têm como objetivos de vida correr o mundo a ajudar e conhecer outras realidades, que nos ficam muito mais próximas quando contadas por pessoas que conhecemos do dia-a-dia.

Obrigada, doutora Estela! Estamos certos que este “obrigado” será replicado por todos os(as) nossos(as) leitores(as).

 

1.º artigo em https://www.bairradainformacao.pt/2019/07/29/nepal-2019/

2.º artigo em https://www.bairradainformacao.pt/2019/07/31/nepal-o-hospital/