Escrevo sobre o som da chuva pesada que cai… é a estação das monções…os ventos vindos do oceano levam o ar húmido para o continente, o que causa as chuvas muito fortes. Pode chegar a chover a semana inteira.  Mas temos tido sorte, de dia não tem chovido e de noite sabe bem sentir a chuva a cair e a refrescar o ar.

No primeiro dia no hospital fomos com um outro voluntário americano que está cá há um mês e é estudante de medicina. Fomos apresentadas no hospital, onde orgulhosamente nos mostraram todos os serviços. É  um hospital privado, se bem que aqui não é equiparável a um hospital privado português. Mas faz me pensar como serão  as condições do hospital público…

Vamos colaborar no serviço de urgência e sempre que quisermos podemos integrar outras atividades como a consulta ou cirurgias.

No serviço de urgência trabalha uma equipa de enfermeiros e um médico, que normalmente ainda não é especialista e que vem fazer o turno encaminhado do hospital universitário. As enfermeiras são todas novinhas com os seus 19 a 23 anos. A urgência esta dividida numa sala principal e mais três quartos onde existem várias macas. Não há privacidade, os homens estão juntos das mulheres e das crianças. Se for preciso fazer um ecg, auscultar ou outro procedimento é ali mesmo. Toda a observação é feita ali com os três, quatro ou cinco membros da família que vêm a acompanhar… e junto com todos os outros doentes. O material é já antigo, as macas cobertas por lençóis que servem para os mesmos doentes  e algumas macas não têm nada e vão passando de doente em doente. A alimentação é providenciada pela própria família, assim como lençóis ou outras necessidades (estamos a falar de um hospital privado, não esquecer). Os nepalenses comem com as mãos, ou pelo menos uma maioria deles, fazem a comida nos quartos e comem…com toda aquela mistura de condimentos e odores. O doente  que entra no serviço de urgência após a breve avaliação é lhe passada receita de tudo o que precisa incluindo agulhas, seringa, sistema de soros e medicação…que é comprado pelo próprio e só depois administrado.

O hospital tem internamento e dispõe de várias especialidades incluindo cirurgia, ortopedia, pediatria, otorrinolaringologia. Tem ainda um pequeno laboratório e serviço de radiologia, o que me impressionou bastante e me fez pensar que até tinham muitos recursos, apesar das mas condições, no meu ponto de vista. Verifiquei ainda que o hospital tinha uma unidade de cuidados pós cirúrgicos, uma unidade de cuidados intensivos e uma unidade de cuidados intensivos neonatais. Da parte da tarde tive a oportunidade de assistir a duas cirurgias.  Os blocos operatórios apresentam algumas dificuldades quer em materiais já ultrapassados, quer em cuidados de higiene…no entanto fica me a ideia de que se faz muito com poucos recursos…talvez um pouco aquilo a que já nos desabituamos em Portugal.

A Urgência ainda não tem muitos doentes, mas ao que parece esta é a época mais baixa, e também porque sendo um hospital privado só é acessível a quem tenha alguns recursos.

O que me encheu o coração:

Uma das tardes saímos para passear pelas ruas de Pokhara e respirar a cidade… li na internet que havia um campo de refugiados tibetanos…e assim fomos a procura: Tibetan refugee camp… Em 1959 a China invadiu o Tibete e muitos fugiram das montanhas para o Nepal. Vivem agora em comunidades, em campos de refugiados, onde construíram os seus próprios mosteiros. Entramos um pequeno portão de ferro que passaria totalmente despercebido e fomos recebidas com muito Amor. Neste campo vivem cerca de quinhentos tibetanos entre eles monges budistas. Alguns já nasceram aqui e têm nacionalidade Nepalesa, outros são simplesmente refugiados, sem documentos que os identifiquem e que não podem mais voltar ao seu próprio país. Eles só desejam ser livres e exprimir a sua cultura.

Neste campo conheci um monge de noventa e um anos, já cego e muito surdo de quem me aproximei e sem tabus, através do toque, transmitiu-me uma sensação Leve de Paz que me pareceu uma Benção…o seu sorriso ficará para sempre na minha memória…

 

 

Estela Loureiro é médica na Unidade de Saúde Familiar Caminhos do Cértoma, no concelho da Mealhada, e está, neste momento, no Nepal em missão de voluntariado.

Tal como aconteceu em 2017, em S. Tomé e Príncipe, atendeu, generosamente, ao repto do «Bairrada Informação», e tentará, sempre que lhe for possível, contar-nos a todos(as) a experiência que está a viver.

Para o nosso jornal é uma honra e um orgulho desmedido conseguirmos ter connosco pessoas que têm como objetivos de vida correr o mundo a ajudar e conhecer outras realidades, que nos ficam muito mais próximas quando contadas por pessoas que conhecemos do dia-a-dia.

Obrigada, doutora Estela! Estamos certos que este “obrigado” será replicado por todos os(as) nossos(as) leitores(as).

 

1.º artigo em https://www.bairradainformacao.pt/2019/07/29/nepal-2019/