Apesar das muitas adversidades e dos inúmeros constrangimentos que abalam a minha vida diariamente, continuo firme, tal como aquelas árvores de grandes dimensões: os Poilões. Sinto-me um Poilão, sim na verdade sou um. Uma espécie de Poilão andante, que não se cansa de sentir aquele vento quente que bate no seu tronco, que não esmorece ao levar com o sol ardente que parece fogo, que não enfraquece ao receber aquela chuva forte de madrugada, que desperta até o sono dos mais fortes, que não se abate perante as tempestades. Não me canso nunca. Nunca me cansarei deste percurso que faço todos os dias ao caminhar pelas ruas e estradas tortas da minha cidade, que tanto amo e estimo. O meu ganha pão, e da minha família, depende deste longo caminhar que faço.

Poucas vezes consigo pagar o transporte para chegar ao porto de Bissau, onde carrego sacos e sacos de arroz e de cimentos a troco de tostões. O preço de uma viagem nos toca-tocas (transportes urbanos de Bissau) é caro para mim. Infelizmente, não existe uma companhia de transportes públicos adequada ao salário dos tantos guineenses como eu.

A maioria dos toca-tocas, são veículos pouco confortáveis e alguns já com muitos anos de rodagem. Só há cintos de segurança nos lugares da frente das carrinhas. Os restantes vão seguros pela fé. A conversa entre passageiros, ajudantes e condutores alegra o caminho. Ouvem-se, a cada instante, buzinas de carros e pessoas trocam acenos, com um sorriso genuíno. Sobrevive-se, é verdade, mas de modo feliz. Encontra-se conforto na simplicidade, tendo a honra e a dignidade como valores.

Quando ando a pé da minha casa até ao porto de embarcações, que na maioria das vezes é mais porto de desembarcações, já que o país importa mais do que exporta, vejo a desordem, o excesso de pessoas nos passeios e dentro dos pequenos mercados, o tamanho diminuto das estradas, e penso em como ainda temos tanto que fazer para melhorar o território em que vivemos. Penso no governo, no modelo de democracia, na corrupção, na história que está lá para trás e no futuro… Como será o futuro? Tanto caminho há para percorrer…tantas dificuldades estão por ultrapassar.

Mas mesmo assim, perante este cenário o povo, tal como eu, permanece rijo como um Poilão. Já andei muitas vezes quase descalço, de sapatos quase sem sola, mas sempre permaneci de cabeça erguida. E para nunca perder o rumo e a fé mantenho na cabeça a celebre afirmação de Amílcar Cabral: “o que quer o Homem Africano é ter a sua própria expressão política e social – independência. Quer dizer, a soberania total do nosso povo no plano nacional e internacional, para construir ele mesmo, na paz e na dignidade, à custa dos seus próprios esforços e sacrifícios, marchando com os seus próprios pés e guiado pela sua própria cabeça o progresso que tem direito como qualquer povo do mundo!”.

À custa do meu esforço e sacrifício caminharei de consciência limpa, mantendo a minha dignidade e a da minha família, em busca de subsistência diária. E prometo que nunca me cansarei de ser um Poilão!

 

Artigo de Mamadu Alimo Djaló

Estudante de sociologia na universidade do Algarve

Antigo aluno de Técnico de Restauração, Cozinha e Pastelaria na EPVL