Nas últimas décadas temos assistido a uma alteração alarmante nos hábitos da maioria das nossas crianças e das suas famílias. O contacto com os espaços exteriores parece estar a desaparecer no dia-a-dia das crianças portuguesas, privilegiando o tempo passado no interior, num clima de suposta segurança. Nos diferentes contextos em que as crianças participam quer seja creche, jardim de infância, escola ou casa, muitas vezes, o brincar tem vindo a perder o seu carácter espontâneo e livre. Por sua vez as famílias “urbanizaram-se” e mesmo em espaços não citadinos, passaram a viver em apartamentos, deixando as casas que tinham quintal, que, no passado, era uma fonte de experiências e oportunidades de aprendizagem para as crianças (terra, pedras, paus, galinhas, folhas, bichinhos, …) para um contacto excessivo e cada vez mais precoce com a tecnologia que, pensam os pais, constituir uma brincadeira mais lúdica e segura na vida dos seus filhos.

A equipa pedagógica do CAPP tem vindo a assistir a esta alteração de forma atenta e crítica tentando, ao longo dos últimos tempos, tomar pequenos passos paulatinamente.  Acreditamos que o brincar é uma prática essencial na infância de toda a criança, é uma tarefa fundamental para o desenvolvimento humano, uma prática altamente séria e de profunda significação para a criança. Neste sentido, e de forma a sensibilizar toda a sua comunidade educativa para a temática chegou o momento de desenvolver o projeto Educativo BRINCAR “Sem Tetos” para CRESCER durante os próximos três anos letivos.

Com esta temática pretendemos não só fomentar e promover, junto das crianças, oportunidades de contacto com novas situações de descoberta e exploração do espaço exterior bem como demonstrar e sensibilizar a comunidade educativa para a urgência de deixarmos as nossas crianças brincarem livremente, substituindo os espaços excessivamente seguros e controlados pelos adultos onde as crianças são desencorajadas a arriscar e experienciar as potencialidades do seu corpo, espaços onde as crianças não são autênticas e não alcançam resposta para as suas curiosidades. Sensibilizar as famílias para substituírem os tempos das crianças fechados em casa por passeios nos parques onde possam correr, saltar, trepar, cair e levantar em vez de encararem esses espaços exteriores como prejudiciais e arriscados para a criança. No caso dos bebés é essencial que os pais permitam que a criança passe pelas diversas “etapas” de desenvolvimento de forma tranquila, criando condições para que o bebé gatinhe, explore, ande, caia, tropece, se levante e recomece, em vez de usar excessivamente as cadeirinhas e o colo de forma a prevenir que os bebés se magoem ou se sujem.

Quando estão a brincar, as crianças estão também a adquirir preciosos e valiosos conhecimentos sobre o seu próprio corpo e a perceber as suas limitações. Quando está a brincar, a criança vai desenvolvendo uma capacidade emocional fundamental para a sua vida: a resiliência.
Durante uma brincadeira com outra criança em que acaba por perder o jogo que estão a jogar, a criança é “forçada” a enfrentar e a saber lidar com a frustração da derrota. Para lidar com essa mesma frustração, ela terá de ser capaz de adaptar-se e desenvolver o seu olhar sobre o mundo a partir disso. Uma criança resiliente aprende a lidar com as suas deceções, derrotas e frustrações e fica mais capaz de enfrentar as adversidades que a vida lhe vai colocar. Alguns autores e profissionais associam os comportamentos de proteção exagerada a crescentes dificuldades evidenciadas pelas crianças na tomada de decisões, resolução de problemas, capacidade em lidar com riscos ou desafios.

Nos contextos educativos, a concretização curricular deve ser vista numa perspetiva alargada e flexível, indo para além de atividades estruturadas, orientadas pelo adulto e desenvolvidas em sala. Ao ar livre, em espaços da “natureza” a criança tem um papel ativo na construção do seu próprio conhecimento. Nesta perspetiva o CAPP pretende valorizar o espaço exterior, sendo concebido e organizado de forma a dar continuidade às atividades e trabalhos iniciados em sala, bem como a atividades livres e/ou orientadas completamente realizadas em espaço exterior. No decorrer do projeto irão ser desenvolvidas atividades onde o brincar tem um papel preponderante proporcionado às crianças experiências adequadas que envolvem por um lado limites e por outro novos desafios que favoreçam essencialmente a auto-estima e autoconfiança das nossas crianças e contribuam para a sua saúde, bem-estar, aprendizagem e desenvolvimento.

Posto isto, importa salientar que entendemos o conceito de brincar como uma atividade livre que não dispensa do acompanhamento do adulto, disponibilizando tempo para brincar com a criança e oferecendo-lhe oportunidades que facilitem essa brincadeira encorajando-a a experimentar e a testar as potencialidades do seu corpo explorando de forma autónoma e tranquila o espaço que a envolve. Pretendemos que o adulto seja participativo nas brincadeiras das crianças mas a maioria das vez que seja um mero espectador das conquistas das mesmas, dando espaço às crianças para que estas brinquem livremente, para que possam soltar a sua imaginação e escolher os lugares e as crianças com quem querem brincar e explorar, pois só assim, as crianças se desenvolvem de forma sã e equilibrada. Pretendemos enriquecer o nosso exterior criando ambientes mais estruturados e desafiantes dando oportunidade à criança para criar e correr riscos. Considerar que é preciso que as crianças corram riscos para se desenvolverem não significa de modo algum colocá-las em perigo ou descurar a vigilância, mas dar espaço para o sucesso e o fracasso em determinadas situações.

 

Sugestões de intervenção em contexto exterior:

– Compreenda as fases do desenvolvimento da criança;

– Incentive a autonomia, dando auto-estima e autoconfiança à criança;

– Encoraje e enfatize o esforço e o progresso, não apenas o resultado;

– Brinque com a criança, mas deixe-a brincar sozinha também;

– Esteja atento à criança, mas não interfira demasiado na brincadeira;

– Evite os “NÃOS” e os “CUIDADO COM…”  – a criança precisa descobrir os seus limites e as suas potencialidades;

– Use incentivos como “Tu és capaz…”; “Estou orgulhosa de ti”;…

– Avalie de forma “tranquila” a queda da criança em vez de entrar em pânico (quando não é demasiado grave);

– Deixe a criança cair e levantar-se sozinha;

– Deixe a criança sujar-se e ser feliz:

– Incentive o outro a fazê-lo também e terão crianças mais saudáveis e felizes.

 

 

Educadora: Ana Ferreira

Centro de Assistência Paroquial da Pampilhosa