Andava constantemente a questionar a si próprio “como consigo ter o que quero?”.  Até que um dia, a sua Avó o apanhou num canto e ouviu o seu desabafo. “Que tens tu, meu neto?”, perguntou, naquele instante, a Avó. Lito hesitou em responder. Correu de imediato para o quarto.

No dia seguinte, ele foi ao mesmo sítio, sentado e a jogar as pedras para o ar, voltou a questionar e desta vez, com a voz baixinha para ninguém ouvir. Chegou a Avó, devagarinho para não assustar o seu neto querido e sentou-se ao lado dele, sem fazer barulho. Distraído com as pedras, Lito nem se apercebeu da presença da Avó Chica. A sua cabeça apoiada nos joelhos, a mandar as pedras e a falar com consigo mesmo. Quando percebeu que o barulho dos cascalhos estavam a soar mais do que aquilo que atirava ao ar, levantou a cabeça e viu sua Avó ao lado dele. “Que estás a fazer aqui sentada ao pé de mim?” perguntou Lito a Avó Chica. Ela não respondeu e continuou a jogar as pedras ao ar. Lito voltou a perguntar “ouviste então tudo o que estava a dizer”? Voltou a não responder o seu neto e foi para o quarto dela.

Depois da missa do domingo, encontraram-se no mesmo sítio, sem se combinarem. E desta vez começaram a competir “vamos ver quem é que manda mais pedras” dizia a Avó. Mandaram tantas e no fim ficaram só com duas e a Avó Chica disse “não vamos mandar estas que faltam, toma a minha e guarda-as”. Lito sentou-se ao pé da Avó e perguntou “como é que uma pessoa consegue o que realmente quer?”. Sem dar muitas voltas ela respondeu com uma pergunta “que mais queres se debaixo dos teus pés tens tudo?. Implicitamente Lito percebeu que a sua Avó sabe dos seus desabafos e levantou-se e disse “quero ir estudar fora”.

A Avó Chica ficou comovida com a resposta curta e direta do seu neto, que na altura já tinha acabado o décimo segundo ano de escolaridade, não fazia praticamente nada e a sua rotina era igreja-casa-igreja. Lito era um dos jovens que lia textos bíblicos na abertura das missas e noutras atividades sagradas. A vontade de poder começar uma nova vida era enorme.

Passado seis meses sem estudar, Lito conseguiu aquilo que tanto desejava (ir estudar fora), e logo lembrou de uma das frases do padre que dizia “nunca te esqueça do dia em que rezavas para ter o que tens hoje, por isso agradece sempre”. Naquele dia, o jovem Lito passou a noite inteira na igreja, a rezar e a agradecer o feito.

Nos primeiros dois anos da sua formação nada lhe corria bem. Andava na equipa de basquete da sua Universidade, trabalhava para ganhar algum e para auto sustentar, e também a ida à igreja não lhe deixava muita margem de manobra, frequentava quase todos os dias e nunca faltava aos domingos. Lito sentia-se obrigado a mudar a sua rotina e sempre que hesitava em fazer algo, passava a noite na igreja a rezar e a agradecer.

Numa daquelas noites que passava na igreja, apareceu-lhe uma mensagem que lhe fez mudar completamente a sua rotina. Passou a não ir a igreja e nunca pôs em causa a sua fé em Deus e de todos os ensinamentos bons que adquiriu ao longo da vida, deixou de ir jogar com os seus colegas e limitou-se simplesmente a estudar e a trabalhar para conseguir o seu sustento e garantir a sua energia diária. Entretanto, sempre que os seus camaradas reclamavam da sua falta de comparência nos treinos e nos jogos, ele respondia sem alongar muito “eu vim aqui para estudar”!

Os restantes dois anos que lhe faltavam acabar a sua formação foram de luxo, conseguiu com o seu esforço diário colmatar todas as lacunas deixadas nos anos anteriores e no fim recebeu a caneta que um dos seus professores tinha há trinta anos, para entregar a algum estudante que chegasse a nível que ele chegou. Honrosamente, Lito mereceu a esferográfica, que representava excelência acima de tudo e não sucesso que muitos procuravam ter.

 

Artigo de Mamadu Alimo Djaló

Estudante de sociologia na universidade do Algarve

Antigo aluno de Técnico de Restauração, Cozinha e Pastelaria na EPVL

 

Imagem: cm_dasilva (pixabay.com)