É a partir da cidade de Anadia, de uma gráfica com mais de cem anos – a Litoanadia -, e pelas mãos de uma jovem designer, Manuela Rego, que nasce o “notebook”, composto e impresso em tipografia tradicional. O primeiro lote, uma homenagem à Bairrada (Saberes e Sabores), foi o ponto de partida para que outras ideias surgissem e fizessem nascer a TicOOlgrafia, uma marca que “junta, da forma mais bela, o passado ao presente num objeto para registos de futuro”.

Terça-feira, 8 de janeiro de 2019, 15 horas. Chegamos à entrada da principal avenida da cidade de Anadia e deparamo-nos com a secular gráfica Litoanadia. À espera da equipa do «Bairrada Informação» estavam, para além de Manuela Rego, Carlos Nogueira, funcionário da empresa que, em agosto deste ano, assinalará cinquenta e três anos de serviço “à casa”.

O primeiro sítio onde vamos é a cave, onde nos mostram material – em chumbo, antimónio e estanho -, em letras e tudo aquilo que possamos necessitar ao trabalharmos numa folha em “word”, se quisermos ter um meio de comparação. A diferença é que ali não há o “word” e muito menos um computador e para se escrever / imprimir duas palavras demora-se cerca de vinte minutos.

“Quando a Manuela cá chegou, não entrava nesta sala há mais de dez anos”, confessou-nos Carlos Nogueira, aparentemente feliz, por nos mostrar, durante duas horas, o que nos dias de hoje, nos parece inimaginável. “Nessa altura, éramos vinte compositores, demorávamos três horas para compor uma página e meia hora para um simples cartão de visita”, referiu.

Mas para que os nossos leitores percebam, quisemos saber todos os passos necessários para se escrever, como não podia deixar de ser, as palavras «Bairrada Informação». É num componedor que todo o processo começa. Num local repleto de gavetas que, imagine-se, tem, por exemplo, um “B” em diferentes tipos, em diferentes tamanhos, em caixa alta e em caixa baixa, a itálico, regular e em “bold”. O mesmo acontece para as restantes letras e números. Carlos Nogueira sabe de cor em que gaveta estão todos e Manuela Rego já lhe segue os passos.

“Todas as pessoas que estão lá em cima nos computadores deviam passar por isto”, afiança o trabalhador da empresa, em labuta desde os doze anos de idade, garantindo que, no seu entender, “hoje é tudo muito fácil”.

Prelo para corrigir os erros

Do componedor, as palavras passaram para uma galé. Ali atam-se com linha – com o passar dos anos até para essa função o “senhor Carlos” arranjou uma forma simples de atar e desatar, a que designa de um “segredo” – e coloca-se a tinta que se quer. De seguida, vamos ao prelo, onde se faz uma prova e se corrige os erros. (de notar que a tinta das letras depois tem que se tirar com diluente para dar para outras vezes e outras cores).

Segue-se a “imposição” e a assentadeira, forma de assentar as letras. Só depois o material é colocado numa máquina robusta, uma impressora “Heidelberger”, que nos fará chegar às mãos um documento com a informação que pedimos. Para que as letras tenham sido impressas a preto e o risco a cor de laranja o documento teve que ir à máquina duas vezes. Até porque depois de utilizada a tinta preta, toda a máquina é limpa com petróleo para se colocar a cor laranja.

O resultado é mágico ao toque pois é possível notar as diferentes dimensões de profundidade (baixo relevo) no papel, proporcionando uma experiência que apenas este processo consegue oferecer ao utilizador.

 

 

“TicOOlgrafia” cria produtos únicos

Manuela Rego, designer “freelancer”, com atelier no Espaço Inovação da Mealhada, reconhece “uma paixão pela tipografia como imagem gráfica”. “É um brincar com letras e construir imagens utilizando a tipografia”, explica-nos a jovem que, há muito tempo, ansiava por um produto seu, especificamente “cadernos com tipografia tradicional”. Foi assim que nasceu a “TicOOlgrafia”, em finais de 2017, uma marca que alia “letterpress” (tipografia tradicional) ao design actual e que se foca em criar produtos únicos.

E Manuela Rego já conta com centenas de encomendas, especialmente se contabilizar com as do Natal passado, em que vendeu duas centenas de “notebooks” para um restaurante na Mealhada e seiscentos para outro de Anadia. O original “notebook” pode também ser encontrado na Rota da Bairrada, na Curia.

E desengane-se quem possa pensar, pela nossa descrição pormenorizada, de que tal processo demoraria meses. Sendo um processo artesanal, Manuela Rego necessitou de apenas três semanas, tanto para os duzentos como para os seiscentos.

Em cada um deles está um desenho, uma composição e impressão artesanais, que juntos perfazem exemplares únicos, cosidos e numerados em séries limitadas.

 

Agora é dar largas à imaginação, o que parece não faltar a Manuela Rego, que pretende alargar a distribuição e sair fora de portas da Bairrada.

E os interessados em conhecer os “notebooks” e/ou em obter mais esclarecimentos da TicOOlgrafia devem contactar os números 231 281 513 e/ou 966 161 021 ou dirigirem-se ao Espaço Inovação da Mealhada. Pois como dizia o designer americano Aaron Burns, “você nunca tem uma segunda chance de causar uma primeira impressão”. E nestes, parece-nos estar garantida a boa impressão!

 

Reportagem de Mónica Sofia Lopes

Fotografias de JOSÉ MOURA