Todas as vezes que estavam juntos, discutiam. Em casa já ninguém os aturava com tantas discussões que tinham. Discutiam por isto e aquilo, cada um a puxar a razão por si.

Entraram tarde para a Universidade e isso fez com que não fossem praxados no primeiro ano. Logo no início do segundo a irmã gémea do Zé decidiu que ia ser praxada e submeter-se a todas as atividades que envolviam praxes.

O Zé é um rapaz tímido e dedicado, queria fazer parte das praxes e ao mesmo tempo não queria faltar a nenhuma aula. Ao contrário do Zé, Lara, sua irmã gémea, é uma pessoa extrovertida e curiosa. Dedicada “só quando o circo aperta”.

Logo no primeiro dia de aulas, antes de saírem da casa, a Lara foi falar com o irmão ao quarto dele e disse: – Sabes que não vou às aulas, por isso, tens que me passar qualquer matéria se é que vão dar alguma coisa nestas duas semanas.

– Não sei não, (respondeu o irmão), se queres matéria das aulas devias ir, em vez de te ires submeter à humilhação. Ahh, também vai ser só aulas de apresentação.

– Humilhação? Para mim não é submeter-me a humilhação, mas sim aceitar e respeitar as tradições académicas. Imagina, sem as praxes não teríamos momentos adequados para interagirmos uns com os outros e principalmente com os alunos que acabam de entrar para Universidade.

– “Vamos, eu vou fechar a porta e temos o caminho todo até chegar a faculdade para falar deste assunto”. Com toda a sua calma, Zé fechou a porta e começou a descer as escadas da residência.

(…)

Já no interior do autocarro, toda a gente a falar de praxes, desde os académicos que praxam até aos novos alunos que querem ser praxados.

A Lara não aguentava o silêncio do irmão e retirou-lhe os fones dos ouvidos e perguntou: – Porque não queres ser praxado como toda a gente?

O irmão ficou zangado por lhe ter tirado os fones nos ouvidos sem pedir, mas não deu importância e respondeu: – Eu até gosto das atividades académicas porque promovem as relações entre os alunos, mas não vou faltar as aulas para ir submeter-me a gritarias dos académicos e de tantos outros comportamentos que adquirem só para demonstrarem que têm poder sobre os novos alunos. Vou assistir para ver e saber como funciona…

A Lara não sabia o que dizer em relação às praxes e só queria ser praxada, para no fundo pertencer ao leque das pessoas que praxam. Assim, sentia-se mais integrada e ninguém lhe ousava apontar o dedo de que não fez o que todos disseram.

A maior parte das pessoas, envolvidas nestas atividades, não conseguem realmente dizer porque o fazem. Uma das respostas que prevalece é no sentido de que permite uma melhor integração de caloiros na vida académica e que é uma tradição que deve ser seguida para manter viva a relação entre estudantes académicos.

– Está bem, eu vou e vou fazer tudo que pedirem, assim para o ano que vem posso ter e sentir esse poder sobre outros alunos. (Lara contrariou o irmão gémeo).

O Zé voltou a afirmar: – Estas atividades podiam ser de outra forma, em vez de encontros em que os caloiros são sujeitos a humilhação, podíamos pelo menos criar uma série de atividades que envolvessem a partilha de conhecimentos académicos e outros que enriqueçam as nossas condutas diárias. Ao menos assim fazíamos coisas das quais saberíamos por que razão as estamos a fazer.

Tudo se torna triste e estranho quando não sabemos a verdadeira razão pela qual fazemos alguma coisa, mesmo que essas coisas nos transmitam alegrias. Antes de mudar o que está mal, temos que mudar primeiro a nossa forma de encarar a “razão”, para no fim conseguirmos (quiçá) mudá-la.

 

Artigo de Mamadu Alimo Djaló

Estudante de sociologia na universidade do Algarve

Antigo aluno de Técnico de Restauração, Cozinha e Pastelaria na EPVL

 

Imagem: StockSnap (pixabay.com)