“brincar vs BRINCAR”

As novas tecnologias ocupam um papel fundamental na sociedade atual, na medida em que introduziram melhorias significativas no desempenho de diversas tarefas do quotidiano.

Há quem diga que as crianças de hoje já nascem a saber lidar com a tecnologia. Também…não é difícil!!! Hoje, não há casa ou escola onde não haja pelo menos televisão e computador.

Realmente a tecnologia foi chegando devagarinho e entrando na vida das pessoas de uma forma muito séria. Hoje em dia é mais fácil encontrar uma criança que saiba mexer num telemóvel, num tablet, num computador, numa Playstation, do que atar os sapatos em condições ou que saiba ver as horas no relógio de ponteiros. Os adultos, desesperados por momentos de sossego, na esperança de manter as crianças quietas, pelo menos, um curto espaço de tempo, acabam por deixar que elas sejam seduzidas pelo charme das tecnologias e, assim, vão contribuindo para o crescimento de uma geração obcecada e cada vez mais dependente delas.

Hoje em dia a tecnologia faz parte da vida das pessoas. Disso ninguém tem dúvidas.

Passar muito tempo em frente à televisão ou do computador é uma realidade. Mas…e o que é feito das brincadeiras à moda antiga? Onde andam as brincadeiras de rua, tão apreciadas pelos nossos pais e avós e até mesmo pela nossa geração.

Com a generalização das tecnologias, brincadeiras como jogar à bola na rua, ao polícia e ao ladrão, jogar à macaca, saltar à corda, saltar ao elástico, jogar ao pião e ao berlinde, jogar às escondidas foram aos poucos entrando no esquecimento. Segundo Marcos Teodorico Almeida, Coordenador do Laboratório de Brinquedos e Jogos, da Universidade Federal do Ceará (UFC), com o tempo, as brincadeiras que fomentavam o convívio entre as crianças foram desaparecendo e os meninos e meninas começaram a passar mais tempo com os brinquedos tecnológicos do que com os amiguinhos, e muitos esqueceram-se ou mesmo nem sabem o significado da palavra “brincar”.

O brincar socializa, resgata as tradições culturais, costumes e crenças de uma determinada época e comunidade, além disso, promove a participação, o desenvolvimento pessoal, a consciência de grupo, derruba obstáculos de separação e prepara as crianças no sentido de crescerem abertas para o mundo e para a vida. Com o jogo, a brincadeira e o brinquedo a criança explora, avalia, compara, interessa-se pela vida. Através do “BRINCAR”, ela pode ser um adulto consciente, equilibrado, feliz, afetivo, interativo, inteligente e com um repertório de experiências significativas. A maioria das habilidades sociais e intelectuais que são necessárias para se ter sucesso na vida, são desenvolvidas por meio de brincadeiras de infância.

Os jogos não estruturados, onde as crianças têm que descobrir tudo por si só, são muito

importantes. As crianças aprendem a resolver problemas, pensar de forma criativa e trabalhar como uma equipa.

Antigamente corria-se, trepava-se árvores, brincava-se ao eixo, à apanhada, ao berlinde, etc…, atividades excelentes para o desenvolvimento motor.

Como educadores, notamos que as crianças estão cada vez mais “trapalhonas”, batem com as pernas e braços em tudo, chegam a casa cheias de nódoas negras e nem sabem explicar como as fizeram, são cada vez mais descoordenadas. E isso também é visível em relação à caligrafia, à forma como recortam, como pegam nos talheres, como realizam a maioria das atividades. Na realidade verifica-se que a maior parte das crianças não tem atividades motoras suficientes e eficazes nos primeiros anos de vida!

Para que as crianças tenham bons desempenhos motores têm também que exercitar músculos, a coordenação e outras competências motoras. Mesmo para escrever é importante ter uma boa motricidade global, uma vez que isto também vai influenciar a postura nas atividades gráficas e tem um impacto enorme na coordenação motora fina.

O que acontece muitas vezes nos dias de hoje é que uma grande maioria das crianças não sabe brincar e ficam muitas vezes perplexas quando vêem um brinquedo que não tenha botões e muitas perguntam “onde é que se liga?”.

Com o uso e abuso das tecnologias, as crianças mal saem de casa para se divertirem com amigos, com os pais, para passearem, etc. O mesmo acontece nos ATL’s por exemplo. Segundo uma pesquisa da Kaiser Family Foundation, as crianças entre os 8 e os 18 anos gastam em média, cerca de 7 horas e 38 minutos, por dia, em frente a uma televisão. Sendo que as crianças não deveriam ver mais do que 1 a 2 horas, digamos que os números são deveras preocupantes.

Pesquisas científicas mostram que o uso excessivo de tecnologias pode contribuir para um aumento no risco de vários problemas emocionais e neurológicos devido ao uso superior a quatro horas diárias das tecnologias, e quanto maior a idade, menos tempo é indicado para o uso delas.

 

Quais os riscos envolvidos? Tais pesquisas revelam que os principais são: sensação de solidão, depressão, ansiedade, baixa auto-estima e aumento da agressividade. Boa parte dos adolescentes que costumam passar muito tempo conectados sentem desânimo, tristeza ou depressão pelo menos uma vez por semana. Existe também um risco físico.

Estudos mostram que o cérebro super exposto a essas tecnologias pode ter um deficit no seu funcionamento tanto em execução quanto em atenção, pode sofrer com atrasos na aprendizagem, raiva excessiva, maior impulsividade, dificuldade de concentração entre outros sintomas (Small 2008, Pagini 2010). Questões de concentração e memória acontecem, porque o cérebro toma atalhos até ao córtex frontal para lidar com tal rapidez de informação (Christakis 2004, Small 2008). Logo, se uma criança tem dificuldade na concentração, também terá dificuldade para aprender. Neste sentido, podemos pensar que essa seja uma das causas do aumento de casos de déficit de atenção e hiperatividade entre crianças, especialmente.

Outro dos riscos associados ao uso excessivo das novas tecnologias é a obesidade infantil.

Enquanto estão em casa, as crianças passam muito tempo em frente à televisão, embora esse tempo pudesse ser designado para estar em contacto com a sua família. Nota-se que os hábitos familiares, que primavam por momentos de interação, diálogo e refeições em família, por exemplo, transformaram-se de tal forma que estão a deixar de existir, afetando os hábitos alimentares.

Efetivamente, as famílias passaram a realizar as suas refeições em frente à televisão, sem mesmo perceber como se estão a alimentar e o que todos, principalmente estão a comer.

Tudo isto não quer dizer que a utilização das novas tecnologias não seja, até certo ponto, saudável e desejável, uma vez que a sua existência veio tornar muitos aspetos da vida das nossas crianças mais atrativos e fáceis. Mas os pais e até mesmo os educadores, visto que uma grande parte do dia é passado na escola, no infantário ou no ATL, devem criar regras para os horários de utilização e devem sobretudo incentivar a continuação das brincadeiras.

Aprender a manusear os dispositivos tecnológicos é útil e pode trazer muitos benefícios quando são utilizados com sabedoria e discernimento, como auxiliar na educação e no desenvolvimento intelectual do seu filho, ou do seu aluno. Mas para o bem do crescimento saudável das crianças, isso não precisa acontecer tão cedo e nem em excesso. Deixe o seu próprio filho, um dia, quem sabe, demonstrar interesse pelo telemóvel, tablet, televisão, em vez de oferecer o acesso a essas ferramentas como se fossem brinquedos. E, quando esse encontro acontecer, imponha limites e dê o exemplo. Determine os momentos em que o seu filho poderá usar o computador, por exemplo.

Melhor que tudo o resto…ensine-o a BRINCAR.

 

É urgente ensinar as crianças a brincar! Ou melhor, estimulá-las a brincar, porque brincar é inato!

Os adultos dizem que as crianças já nascem a saber mexer em tablets e telefones de última geração, mas na verdade elas sabem o mesmo que sabiam há anos atrás, a grande diferença é que os adultos só sabem mexer nesses aparelhos e as crianças, sendo muito observadoras e perspicazes, aprendem com o que vêem! E o que veem são adultos a deslizar apressadamente páginas nos tablets e o “tiritar” dos dedos nas teclas do ecrã do telemóvel!

E, como é lógico, imitam!

Na realidade, nós adultos não sabemos como ensinar as crianças a brincar! Cabe-nos a função de reensinar as crianças a brincar, mas nós também necessitamos de treinar.

Precisamos urgentemente de reaprender a brincar.

 

Uma criança que não brinca não amadurece de maneira saudável e, provavelmente, terá prejuízos no desenvolvimento motor e socio afetivo. É possível que perca a disposição diante de situações que proporcionem o raciocínio lógico, a interação e a atenção.

 

PENSE NISSO antes de oferecer um presente a uma criança ou antes de elaborar a próxima atividade!!!!

 

Artigo Prof. Sónia Simões – Centro de Assistência Paroquial de Pampilhosa

Imagem: GemmaMM (pixabay.com)