A vila da Pampilhosa, no concelho da Mealhada, está em comemoração pelos 140 anos da Fábrica das Devesas. A efeméride teve início com a inauguração da exposição «Uma história partilhada: Devesas e Pampilhosa – 140 anos de património, trabalho e memória (1886 – 2026)», que está exposta na Sala do GEDEPA, no Mercado Municipal da Pampilhosa, até ao final do ano. No próximo sábado, haverá um colóquio, com um painel de especialistas, que abordarão esta temática da histórica fábrica de cerâmica daquela vila pampilhosense.

A mostra está repleta de artefactos, grande parte deles que foram sendo guardados pelo Grupo Etnográfico de Defesa do Património e Ambiente da Região da Pampilhosa, mas também por alguns privados, contendo ainda material dos 150 anos da Fábrica de Cerâmica das Devesas em Gaia, que pertence à mesma família. No passado domingo, aquando da inauguração, muitos foram aqueles que recordaram as histórias deste edifício, hoje em ruínas. «Nasci na Baixa da Pampilhosa junto à Estação, em frente ao cinema e, nessa altura, não era usual termos relógios, mas sabíamos as horas precisamente pelas sirenes das fábricas e os seus ruídos associados como as tamancas das senhoras», começou por dizer Clara Pires, em representação da Provedoria do Munícipe da Mealhada, confessando sentir «tristeza por uma Pampilhosa sem fábricas», até porque, defende, «as fábricas não são só memória, são uma herança que temos nesta vila».

Carlos Cabral, presidente da Assembleia Municipal da Mealhada, mostrou-se emocionado ao recordar o primeiro quartel onde se instalou quando foi para a Guerra da Guiné. «Quando olho para o teto do pavilhão onde estava, verifico que as telhas eram da Cerâmica das Devesas da minha terra, da Pampilhosa. Fiquei fascinado com aquilo e foi a primeira vez que chorei na Guiné», confessou, recordando que «houve alguns movimentos que pretenderam salvaguardar o que resta daqueles edifícios, mas a parte principal está demolida e pouco resta daquele espaço».

Teresa Mendes de Carvalho, presidente do conselho de administração da Fábrica das Devesas em Gaia, começou por dizer que «esta exposição preserva a memória da minha família e principalmente do meu avô Raul». «As Devesas fazem parte da minha família, mas também de tantas casas, tantos lugares e tantas memórias a partir das nossas telhas e dos nossos tijolos», declarou ainda a neta de Raul de Carvalho, o administrador que deu uma nova vida à fábrica da Pampilhosa em 1920 proporcionando que a sua família a mantivesse durante décadas.

Para o curador da exposição, Mário Rui Cunha, «urge um projeto para aquele espaço em ruínas, explicando que, na década de oitenta, «houve pessoas que se preocuparam em preservar a memória daquele espaço deixando muito material à guarda do GEDEPA, que tem uma grande responsabilidade patrimonial em ter estes elementos». «Nesta exposição estará um terço do que existe na Casa Quinhentista, onde inclusivamente estão os fornos contínuos, mas ali não é verdadeiramente o local para todo este espólio», continuou, desejando que, nos edifícios em ruínas, «possa nascer um grande Museu dedicado à Cerâmica. Devemos ter consciência do valor que este património tem e da memória que o GEDEPA preservou de tantas famílias que ali trabalharam».

A mostra estará patente até ao final do ano e durante esse período decorrerão diversas iniciativas, onde se vão incluir testemunhos de antigos funcionários da fábrica.

No próximo sábado, dia 3 de outubro, pelas 15h00, também no Mercado da Pampilhosa decorrerá um colóquio sobre os 140 anos da Fábrica das Devesas na Pampilhosa, com um painel de especialistas catedráticos.

 

Sucursal das Devezas na Pampilhosa

Em 1886, João Teixeira Lopes assumiu a administração da sucursal das Devezas, em Pampilhosa, acompanhado por familiares que mais tarde fundaram outras fábricas de cerâmica. No início do século XX, a Companhia Cerâmica das Devezas enfrentou dificuldades devido à saída de sócios, à morte de António Almeida da Costa e ao aumento da concorrência.

Na década de 1920, Raul Mendes de Carvalho recuperou a empresa, colocando o filho Alberto Vieira Mendes de Carvalho como administrador da unidade da Pampilhosa. A família manteve-se ligada à gestão da companhia até aos dias de hoje.

Com o declínio da produção artísticas, a fábrica da Pampilhosa ganhou importância devido aos menores custos de produção. No entanto, um incêndio prejudicou fortemente a empresa, apesar dos investimentos na modernização. A fábrica, que empregava mais de cem trabalhadores no início dos anos 1970, foi reduzindo o número e acabou por encerrar em 1986, com cerca de 50 trabalhadores.

(Informação num dos painéis da exposição)

 

 

Mónica Sofia Lopes