A intenção era fazermos tudo aqui. Juntos. Na mesma luta do dia-à-dia. Sem medo e sem papas na língua. Seja com quem for. Pois, foi assim que aprendemos uns com os outros. Dizer a verdade, doa a quem doer. Ainda assim, nunca com intenções de pisar calo a ninguém.

Mas traíste-nos. Arrumaste os teus cargos muito cedo para abandonar o barco, onde estávamos todos a remar para a mesma direção. A direção da qual encontraríamos o futuro que todos almejávamos. E ainda hoje veneramos em busca do futuro onde também serás parte fundamental. Estando nós cá, tu lá, todas as vitórias que conquistaremos nesse percurso te pertencerá, sempre.

Sabíamos todos que não andavas cem por cento bem, por motivos de saúde. Mas, ao mesmo tempo, sabíamos todos que davas mais do que cem por cento, em todas as causas em busca de uma sociedade com mais sentido crítico e com capacidade de separar as águas. Tudo isso com base no coração limpo. Tal como o teu. Puro.

Nunca mais me esqueço das primeiras conversas que tivemos, quando estávamos ainda a consolidar as sementes, em direção às lutas pelas causas justas e emancipatórias, contra todas as intenções de discriminar, excluir ou menosprezar a capacidade do outro. Dizias tu que se um dia não estiveres connosco, fazias questão de perguntar ao Detentor do Universo, porque razão existem, no mundo, pessoas pobres e pessoas ricas, porque existem países ricos e países pobres. Espero que tenhas oportunidade de fazer estas perguntas por ti e por nós.

Por cá, continuaremos na mesma luta que nos deixaste. Sempre em contramão com a cultura de banalidade, de corrupção, de querer tudo com base nas cunhas e sem capacidade para tal. Este compromisso continua com todos os que alguma vez partilhaste a tua razão de luta. Continuará comigo. Sempre.

 

Mamadu Alimo Djaló