As corporações de bombeiros voluntários espalhadas por todo o país atravessam dias difíceis, muito por causa da pandemia, mas também pelo aumento dos combustíveis e do salário mínimo nacional. Na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Mealhada a situação não é diferente e os problemas intensificam-se devido a uma obra de recuperação e requalificação no quartel que está a poucos dias de terminar. Ao nosso jornal, Nuno Canilho, presidente da direção, tece fortes críticas ao Estado, garantindo que «não é bom pagador» e apela à comunidade para que, dentro das possibilidades, possa ajudar a Associação através de donativos.

Nuno Canilho, presidente da direção dos Bombeiros da Mealhada

«Os aumentos substanciais nos combustíveis e no salário mínimo nacional não foram proporcionais aos aumentos no pagamento do estado pelo transporte de doentes, pelo financiamento às associações e pelo serviço de INEM feito pelos bombeiros», lamenta o dirigente, acrescentando que a situação piorou com a atual situação pandémica, que trouxe às corporações «uma quebra substancial no transporte de doentes, um aumento de custos na aquisição de material de proteção e do pessoal, que fez turnos maiores».

E Nuno Canilho exemplifica: «O INEM existe na área de intervenção dos Bombeiros da Mealhada porque a nossa Associação assume um resultado líquido negativo anual de quase 25 mil euros, o que significa que há INEM porque os Bombeiros o pagam». «Para além dos subsídios do Estado aos serviços prestados pelos Bombeiros – transporte de doentes não urgentes e INEM – serem baixos, têm atrasos de muitos meses. No dia de hoje – 14 de julho – o Estado deve aos Bombeiros da Mealhada 55.436,00 euros, com algumas faturas a ultrapassar o meio ano. Já pagamos aos funcionários, tivemos a despesa com o serviço e da parte do Estado nada chegou», lamenta.

Com a situação pandémica, «a situação económico-financeira deteriorou-se substancialmente». «Para além da oferta de material por parte do Município da Mealhada, de empresas, da Autoridade da Proteção Civil e da Liga dos Bombeiros, a corporação da Mealhada gastou cerca de nove mil euros na aquisição de material de proteção individual», continua Nuno Canilho, explicando que, nos primeiros tempos da pandemia, «sempre que havia uma emergência, os bombeiros equipavam-se – com fatos completos – como se o doente estivesse infetado com covid-19».

Houve ainda a necessidade de se proceder «a uma mudança nos horários dos bombeiros que asseguram a emergência, colocando 15 bombeiros a trabalhar em três equipas de cinco, em turnos de 24 horas, o que também trouxe custos adicionais». Para além disso foram registadas quebras significativas no serviço de transporte de doentes não urgentes, assegurando-se apenas as diálises e os tratamentos oncológicos. «O mês de março de 2020 registou uma quebra de 27,9% na faturação face ao período homólogo, em abril a quebra foi de 31,7% e nos meses de maio e de junho aproximadamente 25%», refere.

Camarata feminina passa a ser uma realidade no quartel da Mealhada

A tudo isto acresce a realização de uma obra onde foram construídas, entre muitas outras coisas, uma camarata feminina com balneários e uma «sala de crise». A obra, no valor de 559.031,81 euros que começou em junho de 2019, seria financiada pelo POSEUR em 429.029,16 euros, contudo, e já com a obra a decorrer o programa promoveu um corte de 10% (50.474,01 euros). «Houve ainda a necessidade de um conjunto de trabalhos a mais, como acontece em obras desta dimensão, no valor total de 37.937,98 euros, ficando o apoio do POSEUR, neste caso, por apenas 12.982,36 euros. «Feitas as contas, no que diz respeito à obra do quartel – sem mobiliário, nem equipamentos – a associação assumiu 89.495,44 euros, descapitalizando-se completamente, e estando ainda em falta cerca de 50 mil euros para completar este valor», afirma Nuno Canilho.

 

 

Texto de Mónica Sofia Lopes

Fotografias de Spot of Brands