Do nada eclodiu uma gigantesca bagunça. No próprio dia, antes do acontecimento, saí de casa sem o consentimento dos meus pais, responsáveis pela alimentação e pelo meu teto. Custou-me cara aquela tarde ventosa e ensolarada. Às tantas, não sabia por onde ir, permaneci quieto, no chão e a tremer. Há momentos na nossa vida em que nos custa muito dizer não. Mas se eu tivesse dito, talvez não estivesse nesta situação embaraçosa. E assim segui.

Quando os meus sete melhores amigos me vieram visitar, ainda tudo estava perfeito. Comida da mãe e sumos naturais. Tudo nos caiu bem. Estávamos a um dia do pavor. Eu queria ficar em casa, mas os meus insistentes amigos não pareciam contentar-se com um não. Um dos sete, sussurrou-me ao ouvido – “Não digas nada à tua mãe. Sabes que ela percebe tudo o que se diz na TV”. E com isto lá me convenci, perante a sua insistência, a ir na conversa deles. Amanhã lá iria, ao seu encontro no local combinado.

Na verdade, nada escapa a minha mãe, ela sabe e muito. Com a televisão sempre ligada consegue muito bem distinguir as notícias verdadeiras e as falsas, embora não seja tarefa fácil nos tempos de hoje. Já eu, sou mais letrado que ela, mas a minha distração nas redes sociais acaba por enfraquecer a minha capacidade de distinguir uma boa notícia de outra que nada tem de verdade.

O que sei, agora, é que a minha mãe sabia que ninguém deveria sair de casa, a não ser por uma urgência.  Naquela semana falava-se disso em todos os canais. Diziam – “quanto mais permanecerem em casa, mais tempo dão aos profissionais de saúde para cuidarem dos infetados pelo vírus e as forças de segurança poderão manter um bom controle nas fronteiras e nos locais públicos, caso aconteça alguma coisa”. A internet também estava repleta de advertências e postagens de alerta, mas eu prestava mais atenção às publicações fúteis que se faziam acerca do vírus.

Acabei por sair de casa antes do sol se pôr, sem a minha mãe perceber. Vestido a rigor e todo de branco. Eu e os meus amigos tínhamos combinado usar roupa branca, da cabeça aos pés. E foi o que aconteceu.

Antes de chegar ao ponto de encontro, pelo caminho vi pessoas carregadas com sacos de compras a entrarem pelas suas casas e outras a sofrerem com o peso dos sacos. Até tentei ajudar algumas, mas insistiam em manter uma distância de segurança, alegando que o perigo de contágio pelo vírus era altíssimo. Eu estranhava, mas aceitava. Comecei a equacionar se seria seguro ir ter com um grupo de amigos perante tal cenário, mas resolvi ignorar o meu pensamento e seguir o meu destino.

Quando cheguei ao local do encontro, para além dos meus amigos, encontravam-se por ali inúmeras pessoas. Para passar de um lado para outro, tinha que se pedir quase a bruta, de tão cheio que estava aquele recinto ao pé da praia, e para nos ouvirmos uns aos outros tínhamos que colar a boca ao ouvido da outra pessoa. O barrulho da música e dos festivaleiros não permitiam uma boa comunicação.

E agora sei que tudo o que a minha mãe sabia não se cumpria naquela festa. E eu Mergulhei naquele ambiente e deixei de pensar nas coisas certas que se devia fazer sobre o coronavírus. Ao fim de umas horas já nem se pagava para beber, a festa estava ao rubro.

De repente, tudo parou. A música, as pessoas e todos ficaram atentos. Ao microfone, um agente da polícia disse – “aconselhamos-vos a ficarem quietos, cada um no sítio onde está. Esta festa não devia estar a acontecer e vocês violaram as medidas de contingência declaradas pelo Estado”. Eu, de tão bêbado que estava, nem sequer prestava atenção ao que ouvia. Quando as pessoas começaram a arranjar maneira de sair daquele local, a gritarem e a empurrarem-se para fugir, é que eu percebi que também tinha que sair dali.

Comecei a correr sem saber para onde, empurraram-me tantas vezes que dei por mim no chão, inconsciente e a tossir. Quando estava a recuperar os sentidos já era tarde para o arrependimento e percebi que estava deitado na cama do hospital. Na tentativa de saber como fui parar ali, a enfermeira disse-me – “isso agora é o menos importante, vais ficar de quarentena neste quarto durante duas semanas até sabermos se estás ou não contagiado com o coronavírus”.

A enfermeira estava do outro lado de um vidro a passar-me a informação através de microfone. Lamentou e seguiu para outro quarto do hospital.

Continuei triste e deitado na cama, à espera de mais diagnóstico… nunca pensei ver-me fechado num sítio, principalmente num hospital. Tirando a ressaca, sentia-me bem. Mas tive que permanecer ali, praticamente sem falar com ninguém. Isso tudo foi causado pela minha negligência. Não posso fazer mais nada, tenho mesmo que respeitar as ordens médicas e ficar aqui. Que dó!

 

Artigo de Mamadu Alimo Djaló

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