Todos os anos ela fazia uma nova resolução. Desejando várias coisas. Das quais o mais essencial: – ter saúde e uma boa disposição.

Logo no início do ano que está a findar, a sua resolução do ano novo foi: – conseguir um amor para o resto da sua vida. Uma pessoa que lhe ame com todos os seus defeitos e com uma paixão infindável. Não pretende estar limitada ao amor que tem pelas pessoas que conhece ou pelas pessoas ainda não conhece de perto. Contudo, ela desejava ter um Amor que não fique só pela reciprocidade.

Lana, moça bem bonita, de olhos grandes, alta, cabelos compridos, muito dedicada nos assuntos que lhe convém e sempre bem apresentada. Em vários momentos, procurava sempre manter a postura, com a sua elegância e atitude de uma boa rapariga. Longe das pessoas, Lana procurava sentir que ouvia as pessoas a falarem bem dela: – boa rapariga, bem comportada e humorada, e não diz asneiras. Este é o tipo de pensamento que pairava na sua cabeça, quando ficava sozinha.

A rapariga de olhos grandes, vivia num mundo só dela, poucas vezes falava de Amor com as pessoas à sua volta. Para ela, o grande mistério da vida residia no tipo de amor que procurava.

Para além do amor que tem pela sua família, que é incondicional, também o amor que nutria pelos seus amigos e conhecidos, Lana procurava um Amor diferente deste tipo. Desejava um parceiro que lhe conforta nos momentos menos felizes da sua vida. Alguém que ela possa abraçar sem pedir permissão, beijar sem perguntar se pode, simplesmente uma pessoa com quem partilhar a sua vida, o seu corpo e os sentimentos no momento preciso. Este, é o tipo de Amor que a rapariga procurava e sempre procurou cumprir para este ano.

Obcecada com este tipo de Amor, pois nunca tinha vivido um sentimento igual ao que ela desejava cumprir.Viveu sempre um amor imaginário, longe de um amor sólido, intenso e cara a cara. Ela estava inserida num mundo onde o amor é simplesmente líquido, baseada nas frases feitas, dedicada às pessoas que não conhecia por perto e que julgava que amava com esperança de poder viver um Amor que seja genuíno.

Os desejos não se cumprem se não temos razões fortes que nos liguem a eles. No caso da Lana, os seus desejos se cumpriram, mas só por um um dia.

Há mais de dois anos que nunca deixou de falar com o rapaz de quem gostava. Trocavam mensagens e às vezes falavam por vídeo chamada. A intimidade crescia cada vez mais, até que um dia o rapaz decidiu ir visitar a Lana em Aljezur, a pequena vila portuguesa que pertence ao distrito de Faro.

O rapaz chegou a casa da Lana e ambos entusiasmados por se verem. Principalmente a Lana, que esperava tanto por aquele momento. Começaram de imediato a fazer coisas juntos, desde cozinhar, tomar banho, passar creme no corpo um do outro, com muita delicadeza, abraços, beijinhos, conversas e promessas. Tudo a acontecer de tal forma como ela desejava. Para a menina alta de olhos grandes, será sempre uma noite inesquecível e acredita que será de igual forma para o rapaz. Sentiu como nunca sentia há muito tempo e o que desejava estava a acontecer.

No dia seguinte, a Lana levou o rapaz a passear pelas ruas da pequena vila portuguesa. No meio de tanta conversa que tiveram ao longo do passeio, ela descobriu que afinal o rapaz de quem gostava e que julgava que amava e que seria para sempre, afinal tem uma parceira. A rapariga elegante que nunca deixava ir abaixo por qualquer situação, sentiu-se triste e desapontada com o rapaz. Ainda assim, manteve a sua postura e o seu carácter sem que o rapaz percebesse que estava triste.

As razões fortes que lhe ligavam ao desejo que pretendia para o ano 2018, acabou por não se cumprir, aliás cumpriu por uma noite, mas para ela é um desejo falhado, porque não conseguiu que fosse para sempre.

A Lana abdicou do tipo de amor que tanto desejava, passou a manter encarnado no seu coração o tipo de amor que nutria pela sua família, amigos e conhecidos. Tornou-se cada vez mais apaixonada pelo trabalho que faz, ajudar os outros. A reciprocidade passou a ser a palavra-chave da sua convivência diária. Embora o conceito da palavra exige mutualidade ou seja, troca de favor de ambas as partes, mas para ela, é menos importante o que as pessoas faziam por ela.

Passou a ajudar quem precisa sem pedir que lhe retribuam. Os planos dela passaram a ser feitos diariamente. Focada no seu trabalho, na creche. Via com muito entusiasmo e paixão aquilo que fazia pelas crianças. Deixou definitivamente de fazer resoluções e desejar seja o que for para cada ano novo. Lana passou a pensar e a desejar dia após dia. No seu pensamento, a frase passou a ser: – dar amor a quem precisa no aqui e agora.

 

Artigo de Mamadu Alimo Djaló

Estudante de sociologia na universidade do Algarve

Antigo aluno de Técnico de Restauração, Cozinha e Pastelaria na EPVL

 

Imagem de capa: pixel2013 (pixabay.com)