Muito haveria a escrever, pois a minha identidade profissional iniciou a 19 de agosto de 1996 no Centro de Saúde da Mealhada, casa que tão bem me acolheu.

Era uma jovem recém-formada detentora do Bacharelato da Escola Superior de Enfermagem de Leiria, a 26 de julho desse mesmo ano, cheia de sonhos e ambições. O “caminho fez-se caminhando”, e fui investindo na minha formação académica. Licenciei-me na Escola Superior de Enfermagem Dr. Ângelo da Fonseca de Coimbra em 2005 e consegui no ano de 2007 na mesma escola o título de Especialista em Saúde Materna e Obstétrica.

Muito fiel aos meus princípios, há 25 anos desde que saí da escola a aposta recaiu logo em Cuidados de Saúde Primários, no entanto, há muito que ansiava por um novo e desafiante projeto de vida, confesso que me encontrava motivada desde conhecedora da existência das Unidades de Saúde Familiares (USF’s), aspirei um dia integrar uma.

Hoje já não assumo com tanta firmeza o mesmo. Encontrava-me entusiasmada a alcançar na minha trajetória profissional da prestação de cuidados inúmeras metas: trabalhar por objetivos, com uma metodologia organizada, prestar Cuidados de Saúde Primários atempados, personalizados, humanizados e continuados. Garantir a acessibilidade, a globalidade e a qualidade dos cuidados a toda a população a quem presto assistência. Progredir num trabalho coeso de qualidade e eficiente, que se traduza em satisfação dos utentes/famílias/comunidade e dos profissionais da equipa à qual pertenço. Integrar uma equipa competente, motivada e dinâmica, interagindo com a comunidade, levando a mais ganhos em saúde.

Atualmente reconheço atendendo a como se encontra o Serviço Nacional de Saúde estruturado, ser muito difícil o alcançar de todos estes pressupostos.

Em 2018, um sonho a tornar-se real, aspirei um paradigma do cuidar mais humanizado e responsável, e todos estes conceitos estavam dependentes de uma decisão. Estava a ser posta à prova, não foi fácil! Mas como se costuma dizer, não devemos desistir de nada só porque é difícil. Pois o que é difícil de se conquistar, também é difícil de se perder!

Senti que me encontrava num novo ponto de partida, a viragem de uma página e o iniciar de um novo capítulo, voar para alcançar um dos meus sonhos. No entanto, por um lado 22 anos de dedicação a um ficheiro clínico numa Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) que tão bem conhecia como enfermeira de referência, por outro, uma equipa com a qual mais me identificava. Valeu-me a maturidade pessoal e profissional, muitas horas de reflexão e muitos silêncios, o estar só e sentir que a escolha era pessoal. Estava na hora da mudança, tinha que tomar e assumir uma decisão difícil, e arriscar. Tinha plena consciência que a sentença que iria tomar, quem acarretaria com as consequências dessa escolha um dia seria eu própria, como tal sem medo avancei e iniciei um novo caminho.

E certo é, que passados dois anos, integro a Unidade Saúde Familiar Caminhos do Cértoma (USF CC) com sede na Pampilhosa, composta por mais dois polos de saúde, Extensão de Saúde do Luso e a Extensão de Saúde da Vacariça da qual sou responsável, onde gosto imenso de estar. Pelo facto de ser Enfermeira Especialista em Saúde Materna Obstétrica há 14 anos e detentora da Competência Acrescida em Enfermagem do Trabalho, a minha motivação e preocupação incide sobretudo na área da Saúde Sexual e Reprodutiva, recai sobre a utente mulher no mundo do trabalho, nomeadamente, as grávidas e mães com filhos pequenos. Promovendo e protegendo a sua saúde, prevenindo a doença, não só física, bem como, a psicossocial. Investindo na educação para saúde, nomeadamente elucidando sobre a legislação existente, dar a conhecer sobre seus direitos e deveres, que na prática clínica verifico tão desconhecida pela população. Neste momento, atendendo a todo o contexto pandémico vivenciado, afirmo que o conceito de Teletrabalho também está a levar ao desequilíbrio da estrutura familiar, o não identificar os limites entre o laboral e o familiar.

De maio de 2013 a novembro de 2018, colaborei com o Serviço de Saúde Ocupacional da Unidade de Saúde Pública da ARSC,IP. Integrei a equipa deste serviço, dois dias por semana durante cinco anos, responsável pela Consulta de Enfermagem do Trabalho aos profissionais do ACE’S Baixo Mondego e da ARSC,IP. Um serviço onde aprendi imenso sobre Saúde Ocupacional, Higiene e Segurança no Trabalho. Outrora detentora de Autorização Transitória para o Exercício de Enfermagem do Trabalho emitida pela DGS até julho de 2023, defendo ambientes laborais seguros e saudáveis, só com profissionais saudáveis poderemos obter mais ganhos em saúde. Serviço este que despertou em mim a necessidade de investir na população ativa do meu ficheiro clínico, utentes que por norma não procuram os cuidados de saúde. Bem como, o prosseguir na formação académica, tendo alcançado em março deste ano a Pós-Graduação em Enfermagem do Trabalho, com nível de excelência. Isto é enfermagem, avançar com a mesma vocação e paixão de sempre. Informaram-me que para integrar a USF CC, teria que estar a tempo completo e não seria compatível estar noutros projetos, foi-me imposto abdicar de trabalhar neste serviço. Esta decisão pesou imenso, foi emocionalmente muito dura e desgastante, descrever o que sinto ainda hoje, SAUDADE. Hoje reconheço que teria sido possível acumular funções, mas ingenuamente aceitei o que me foi proposto e não contrapus. Se estou arrependida, SIM! Eu sei que a porta ficou aberta e quiçá um dia voltarei. E quando se gosta muito de algo e como “parar é morrer”, deve-se investir para se conseguir alcançar o que se anseia, daí o foco na aquisição da Competência Acrescida Diferenciada em Enfermagem do Trabalho, a qual consegui em março de 2021.

 

25 anos depois…

Eis-me integrada na Equipe de Saúde da Unidade de Saúde Familiar Caminhos do Cértoma do Centro de Saúde da Mealhada. Senti as dificuldades inerentes a um novo contexto de trabalho, integração numa nova equipa, trabalhar num ficheiro clínico novo, uma nova metodologia de trabalho, que vou ultrapassando com a assertividade que me caracteriza, mas com muito esforço pessoal. Atendendo a que trabalhar por indicadores, exige muitas horas de trabalho, o tal dito “amor à camisola”. Valeu-me o querer abrir uma nova porta no mundo laboral, trabalhar o autoconhecimento, amadurecer a personalidade, validar as metas e os meus objetivos de vida. Ir ao encontro das minhas competências, talentos e sonhos. Empenhar-me na visão, missão e valores do projeto que assumi abraçar.

Neste momento, matriculada no 2º ano letivo do Ciclo de Estudos de Mestrado na área de Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica, consigo visionar um futuro que tanto ansiava, o autoavaliar-me constantemente, priorizar-me, que até então nunca o tinha assumido. Estarei eu a vivenciar nesta fase da vida o conceito de empoderamento feminino? Sinto que até então me dediquei mais aos outros, sobretudo à família, ao papel de esposa e mãe de dois filhos maravilhosos, deixando para trás a carreira profissional.

Hoje olho para trás e não me arrependo das escolhas que fiz, no entanto, sinto que chegou a hora de investir em mim.

Olhando para atualidade e as notícias que correm mundo, sinto-me uma abençoada por ser mulher neste país…E uma revolta atroz em saber que por se ser mulher e/ou criança e ter nascido noutro lugar deste mesmo mundo, no mesmo século, neste momento encontram-se aterrorizad@s, são molestad@s, são violad@s, são torturad@s, são castigad@s, são preseguid@s,…

 

A perda total dos Direitos Universais e Liberdades enquanto seres humanos. Perante isto, mulher e enfermeira, independente, sinto-me uma privilegiada, posso sair, trabalhar, estudar, viajar, entre tantas privações que o meu semelhante em tanta parte do mundo é privado. A primordial missão é a humanitária, promover cuidados de excelência e de proximidade, como enfermeira de família e de referência, não só na área da Saúde Materna e Obstétrica, mas em todo o contexto de Cuidados de Saúde Primários, contribuindo para o crescimento de uma comunidade mais saudável e feliz.

É primordial agirmos tod@s localmente para alcançar o global, é imperioso trabalhar com a população os conceitos de igualdade de género e de empoderamento, eles são cruciais, tanto ao nível da saúde, assim como para o desenvolvimento socioeconómico de cada país.

Sinto que estou a construir uma identidade profissional que me irá ajudar a atingir o mais alto grau de notoriedade e credibilidade, tanto ao nível da equipa onde me encontro inserida, bem como na comunidade a quem presto cuidados.

 

E mencionando Florence Nightingale: “A Enfermagem é uma arte; e para realizá-la como arte, requer uma devoção tão exclusiva, um preparo tão rigoroso, quanto a obra de qualquer pintor ou escultor¸ …É uma das artes; poder-se-ia dizer, a mais bela das artes!”.

 

 

Enfermeira Fátima Cruz

Especialista em Saúde Materna e Obstétrica

Enfermeira de Família na Unidade Saúde Familiar Caminhos do Cértoma/ ACE’S Baixo Mondego