Introdução:

O artigo O Eneagrama na Educação dos Filhos é uma reflexão sobre a importância do autoconhecimento dos pais no sentido de melhorarem enquanto educadores.

Paulo Freire, um pedagogo de referência, dizia: “Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo”.

Uma educação verdadeiramente transformadora de pessoas tem de integrar as várias vertentes, que envolvem a pessoa – intelectual, física, emocional, social, cultural e espiritual. Os pais devem auxiliar as crianças a serem tudo o que podem ser, crescendo como pessoas mais interligadas consigo mesmas, com os outros e com o planeta.

Os educadores tem de se educar a si em primeiro lugar, porque quando nos deixamos seguir no “automático” é mais fácil transmitir os nossos traumas, inseguranças, medos e manias aos nossos filhos, acabando assim por limitar o seu crescimento.

Educar no amor, com compaixão por nós, pelas nossas fragilidades e pelos outros, aceitando as suas diferenças – é um trabalho de autoconhecimento proposto pela ferramenta do Eneagrama.

“Eneagrama” – um sistema de autoconhecimento e desenvolvimento humano, uma ferramenta milenar, que só no século passado chegou à cultura ocidental.

A palavra deriva das palavras gregas ennea e grammos, que significam nove figuras, fazendo então, alusão aos nove pontos identificados ao longo da circunferência externa do seu diagrama, como, representado na figura abaixo.

 

Os 9 tipos de personalidade representados na figura, subdividem-se em três Centros de Inteligência, Instintivo – Prático (8, 9,1), Emocional (2,3,4) e o Mental (5, 6,7).

O Ser Humano possui estes três centros sendo um mais desenvolvido, que confere a cada tríade de personalidades uma energia própria e características específicas.

 

O Centro Instintivo – Prático, rege as habilidades motoras e instintivas, a sua energia é potente, brota vitalidade, os pais deste centro são muito práticos. Emoção dominante é a Raiva.

  Características a Educar Pistas de Crescimento
8 ·  Educa incentivando a criança a lutar pelo que acredita, fazendo acreditar na sua força para conquistar os seus objetivos;

·  É exigente, autoritário na imposição da sua verdade aos filhos, o que pode provocar medo ou revolta;

 

·  Deve doar-se de coração aos filhos, criando uma relação de amorosidade e generosidade, que permite à criança viver a inocência e a verdade da infância (com as suas fragilidades) e ao educador acolher e aceitar a criança como ela consegue estar em cada momento;
9 ·  Educa incentivando a criança a crescer em harmonia, seguindo um modelo de calma e paciência;

·  Tem dificuldades na imposição de regras, tornando-se por vezes permissivos e pouco assertivos;

 

·  Deve cultivar dentro de si que o conflito e a tensão são partes inevitáveis e importantes para a vida e educação;

·  E que dar Amor também é agir impondo regras, conquistando a harmonia e a certeza do que precisa ser feito- a ação certa;

1 ·  Educa fazendo refletir sobre o certo e o errado;

·  Modelo de autodisciplina, persistência e de ética;

·  Exigências rígidas e cobranças à criança;

 

·  Deve exercitar a serenidade, desenvolvendo com os filhos atividades livres divertidas sem muitas regras;

 

O Cento Emocional está ligado ao hemisfério direito do cérebro e é responsável pelos sentimentos e emoções. Os pais deste centro têm habilidade de educar estabelecendo ligação afetiva e compaixão.

A emoção dominante é a vergonha.

 

Características a Educar Pistas de Crescimento
2 ·   Ajuda a criança com carinho e atenção é compreensivo, solidário e afetuoso;

·   Infantiliza a criança, fazendo as tarefas que ela já poderia realizar;

·  Devem permitir humildemente cuidar de si, permitir-se ao silêncio, a caminhadas na natureza, dando liberdade aos filhos para resolver as dificuldades;
3 ·   Incentiva e valoriza as capacidades da criança;

·   Modelo de competência, eficiência e versatilidade;

·   Dificuldade em lidar com fracasso do desempenho dos filhos;

·  Devem trabalhar o relaxamento, encontrando o seu verdadeiro valor interior, aceitando o fracasso como aprendizagem;

·  Desenvolver com os filhos tarefas não competitivas;

4 ·   Educar a criança para a expressão criativa;

·   Sensibilidade às angústias e necessidades;

·   Dificuldade em lidar com a banalidade, precisa de sentir uma empatia forte com o educando;

·  Devem conectar-se à realidade, através da ação bem disciplinada, baseada em princípios e atividades concretas, equilibrando-se dentro de si permitindo aceitar a semelhança ao próximo;

 

O Centro Mental está associado ao hemisfério esquerdo do cérebro e é responsável pelos nossos pensamentos, memórias, lógica e raciocínio.

Os pais que têm como centro de inteligência dominante o mental, serão pais muito observadores e sempre focados nos perigos que podem aparecer e vão criando estratégias para se defender.  A emoção dominante é o medo.

 

  Características a Educar Pistas de Crescimento
5 ·  Educar incentivando a aprender e compreender as verdades por trás do que vemos;

·   Modelo de sabedoria, independência e autocontrole emocional;

·  Distanciamento emocional e físico da criança, passando a sensação que é inacessível;

·  Devem permitir desapegar do “seu espaço, do seu tempo” partindo para a ação, doando-se mais afetivamente;

·  Abrir mais o coração, mostrando-se como é, a criança desenvolve um conhecimento mais profundo para lidar com o mundo (corpo, emoção e mente);

6 ·  Educa a criança para confiar em si mesma e na sua capacidade de enfrentar os desafios da vida;

·  Controlador, com excesso de preocupações e vigilância exagerada deixa a criança ansiosa e sufocada;

·  Precisam confiar, ter fé e aceitar que não conseguimos controlar tudo, e, mesmo que algo corra menos bem, há sempre forma de solucionar, passando esta realidade de que podem passar por experiências menos boas, mas com coragem conseguem resolver;
7 ·  Educam incentivando os filhos a seguir os seus desejos com otimismo;

·  Modelo de felicidade, entusiasmo, abertura para o novo e capacidade de arriscar;

·  Insensibilidade para perceber e ajudar a criança a lidar com sofrimentos

·  Precisam entender que os problemas e crises são importantes, porque quando compreendidos e assimilados geram crescimento em direção a mais felicidade;

·  Devem trabalhar a presença com os filhos nos bons e nos menos bons momentos;

 

Quando nos começamos a questionar, começamos a traçar caminhos. Desta forma, lanço o desafio, colocando algumas reflexões e convidando cada um a fazer a sua observação interna:

Quais as características da minha personalidade?

Que influência têm na forma como educo?

Assim sendo, deixo três testemunhos que exemplificam o contributo que a observação diária e a ajuda do eneagrama trazem na educação dos filhos, porque os maiores especialistas no seu tipo são as próprias pessoas dessa personalidade.

Do Centro de Inteligência Prático – Um Pai do Tipo 9

“Com os meus dois filhos, as situações que mais me incomodam são relacionadas com disputas entre irmãos. Normalmente dão-se bem e protegem-se um ao outro. Gosto de presenciar esse crescimento deles. No entanto, como em todos os processos de crescimento, há situações em que discutem, em que se enfrentam e confrontam, essencialmente para captar a atenção do pai. Nesses momentos, sinto uma enorme dificuldade em me concentrar no que devo fazer e as suas disputas deixam-me triste e frustrado.

Quando toca a impor disciplina, sinto que sou permissivo. Seja no estudo ou no lazer, conseguem, várias vezes, levar avante as suas intenções, porque acabo por deixar que façam o que lhes apetece, não os contrariando. Provavelmente, estou a evitar conflitos. Em casos, poderá fazer passar a ideia de que o estabelecido, as regras, podem ser ultrapassadas sem grande dificuldade, bastando um pouco de conversa.

No que toca ao dia a dia, sinto que lhes transmito confiança e tranquilidade, e mesmo em momentos mais difíceis vêm ter comigo. Estou convencido que sou uma espécie de porto seguro, em que eles confiam.”                   Pedro Paiva

 

Do Centro de Inteligência Emocional – Uma mãe do Tipo 2

“Deixo também a minha experiência como mãe que me identifico com a Personalidade tipo 2.

Em processo de constante descoberta com o apoio da ferramenta de Eneagrama, estou mais desperta para as fragilidades da minha forma de educar.

A atenção e cuidado com as necessidades do meu filho são uma característica boa, claramente que sim, mas pode tornar-se perigoso para o seu crescimento, posso não permitir que ele cresça autónomo, posso cobrar o reconhecimento dessa dedicação.

Ao tomar consciência dos mecanismos de defesa que utilizo quando estou no automático da minha personalidade, ajuda-me a agir de outra forma, a permitir que o meu filho faça as tarefas qua já consegue, dando-lhe liberdade para agir dentro das possibilidades da idade.

Apesar de todas as preocupações diárias “obrigo-me” a cuidar de mim, permitindo-me a momentos sozinhas para me equilibrar, não me culpando tanto por não estar a cuidar do meu filho”.                    Olga Moura

 

Do Centro de Inteligência Mental – Uma Mãe do Tipo 7

“Como mãe tipo 7, o eneagrama ajuda-me a perceber o meu comportamento com os meus filhos e a lidar melhor comigo e com eles.

No dia a dia, tenho alguma dificuldade em lidar com as suas rotinas, tentando inventar sempre coisas novas para fazer, e noto que fico irritável quando tenho de ser eu a gerir as tarefas rotineiras. Mais dificuldade tenho em lidar com o seu sofrimento quando têm pequenas dores mas principalmente quando estão tristes e a fazer “birras” por alguma razão. Tento conversar com eles com calma mas deixam-me desgastada e sem paciência e percebo que mexe comigo o facto de estarem em sofrimento e me “arrastarem” um pouco com eles. Com o eneagrama percebo porque é que isto me afeta e facilita.

Acho que consigo trazer um pouco de diversão, fantasia e aventura à infância dos meus filhos e isso é algo que sei que tenho jeito. Mas sei também, e o eneagrama ajuda, que não posso estar sempre a inventar formas divertidas e fazer tudo e que saber lidar com as frustrações também faz parte da sua aprendizagem”.               Inês Rosendo

 

Conclusão:

Através do entendimento de cada traço de personalidade é possível adquirir mais consciência sobre si mesmo e seus objetivos, desenvolvendo novos comportamentos, ampliando o leque de possibilidades e escolhas na sua vida e dos seus filhos.

Como defendia o cientista Charles Darwin: “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta as mudanças”.

O maior desafio da humanidade foi entregue aos pais – Educar!

Segundo a Unesco, educar é ensinar a criança a SER. Eu completo a definição, reforçando que é ensinar a criança a ter compaixão, empatia, a ser livre para se adaptar às mudanças que o mundo exige, e mais ainda, para com a sua luz própria transformá-lo e brilhar!

Precisamos de pais que deixem também a sua luz brilhar, não de pais normais, mas pais plenos capazes de crescer junto com os filhos!

 

“À medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo.” (Nelson Mandela)

 

Olga Moura

Dep. Administrativo e Financeiro

CAPP – Centro de Assistência Paroquial de Pampilhosa