Completou 75 anos no passado mês de janeiro e, desde a sua abertura em 1950, tem sido o «farol da cultura» no concelho da Mealhada, tendo tido um interregno de uma década pela necessidade de obras, reabrindo em outubro de 2001 já sob a égide da Câmara da Mealhada, que tem o direito de superfície por 55 anos, renováveis, depois de um acordo com a família Messias. Falamos do Cineteatro Messias, que «nasceu» de uma pretensão e vontade do benemérito comendador Messias Ferreira Baptista.

«É hoje inaugurado o Cine-Teatro da Mealhada, mandado construir pelo grande impulsionador do progresso daquela vila, o senhor Messias Baptista». É este o título do Diário de Coimbra de 18 de janeiro de 1950, fazendo rescaldo da inauguração, que aconteceu a uma quarta-feira, a partir das 17h00, de um empreendimento arquitetado por Raul Rodrigues Lima (responsável por projetar outros emblemáticos espaços, a nível nacional), com capacidade para 500 lugares sentados, palco para a atuação de companhias de teatro, tela para projeção de cinema, salas e salões para diferentes eventos, dois bares distintos – um no piso térreo e outro no foyer do 1.º piso – e ainda dois espaços diferenciados de instalações sanitárias.

A descrição feita pelo jornal sobre o empreendimento, na altura da sua inauguração, dignifica-o. «(…) um Cine-Teatro que – com justiça se diga – faz inveja a Coimbra e a tantas outras terras de categoria (…)». A qualidade era premissa para Messias Baptista, que, segundo o mesmo diário, terá pedido a Henrique Martins, o responsável pela montagem do palco, «nada de deficiências! Não olhar a despesas e procurar para o palco aquele máximo de condições que o não inferiorize (…)», lê-se.

Não admira, por isso, que no dia da inauguração, o presidente da Junta de Freguesia, em representação dos seus conterrâneos, ter entregue a Messias Baptista – o responsável pela construção das Caves da Mealhada, onde foi dirigente até 1973, um ano antes de falecer – uma mensagem «com centenas de assinaturas».

«Isto foi uma dádiva. Foi um polo cultural de atração de todos os jovens do concelho», referiu Nuno Salgado, para um documentário feito pela Autarquia da Mealhada, em 2020, aquando dos 70 anos do Cineteatro Messias, avançando que «foi este teatro que deu origem à Juventude Unida da Mealhada, que aqui fazia os seus saraus culturais e de beneficência, porque mesmo tratando-se de jovens dos 20 aos 25 anos ainda conseguimos construir uma casa para pobres no Reconco».

O também mealhadense João Pega recorda bem o dia de inauguração do espaço. «Estava muita gente e até houve foguetes. A população elogiou a generosidade de Messias Baptista em ter feito esta grandiosa obra e ele retribuiu com um grande beberete no Salão Nobre, que foi acompanhado pelo presidente da Autarquia de então, o dr.º Manuel Lousada», diz recordando que, nessa noite, «a população assistiu à revista “Quem manda são elas” com Vasco Santana, António Silva e julgo que também com Maria Matos. Penso que o primeiro filme aqui projetado foi o “Quem casa, quer casa”…».

Recordações corroboradas por José Branquinho que garante que o espaço «foi um grande benefício para a terra». «Não era qualquer pessoa que ia deitar mãos a uma obra destas. É preciso boa vontade para as coisas, mas também é preciso dinheiro», diz, elogiando Messias Baptista e recordando ter visto na Mealhada a atriz Laura Alves, numa peça de teatro que julga que se designava «A rainha do ferro velho».

Muitas gerações lembram bem os tempos mais antigos daquele espaço, onde, para além das peças vindas do Porto e de Lisboa, se faziam bailes, festas tradicionais, de finalistas e de passagem de ano. Foi assim, durante quase quatro décadas, o funcionamento deste Cine-Teatro até final dos anos 80, altura em que encerrou por «questões de segurança».

«O que me recordo mais do espaço é de facto a sua utilização, num meio pequeno, de um Portugal pobre, culturalmente bastante atrasado, mas que na verdade teve uma grande adesão da população da Mealhada, mas também das terras circundantes, de Coimbra inclusivamente», diz, no mesmo documentário, José Vigário, neto de Messias Baptista, enaltecendo «as condições bastante modernas da sala, que permitia a projeção de filmes e condições extraordinárias, com camarins e cenários, para sessões de teatro, particularmente de revista». Não era assim de estranhar que as companhias de teatro da capital quando percorriam a província, indo ao Porto e outros pontos do Norte, no regresso, parassem na Mealhada e Coimbra, antes de voltarem para Lisboa.

Depois de cerca de uma década fechado, mantendo-se em ruína até ao ano de 2000, «foi reinaugurado em 2001 após a negociação da Câmara da Mealhada com a família Messias, proprietária do edifício, que permitiu a recuperação desta casa de espetáculos com direito de superfície por 55 anos, renováveis», segundo se lê no sítio da internet do Cineteatro Messias.

O edifício foi totalmente remodelado e dotado dos meios técnicos necessários, dispondo o auditório de plateia e balcão, mantendo a traça original, muito focada «nas linhas ex-modernistas, telhados piramidais, mas suaves, pináculos de pedra, grelhas de tijolo e grandes varandins de ferro forjado». O Cineteatro Messias foi (re)inaugurado em outubro de 2001, pelo ministro da Cultura, Augusto Santos Silva.

Desde então tem apresentado uma programação regular, constituída mensalmente por várias produções no domínio das artes do espetáculo (teatro, música e dança), complementado pela existência semanal de cinema. Frequentemente também são organizados congressos, colóquios e seminários e exposições.

«Os grandes artistas de teatro deste país passaram por aqui. Tivemos e temos boas peças de teatro, não só do que vem das grandes cidades, mas também das coletividades concelhias, que precisam de uma sala deste tamanho, até porque a enchem. A população está do lado deste Teatro. Foi uma grande obra feita na Mealhada e merece toda a consideração», referiu, no documentário camarário, Mário Saraiva, falecido há dois anos.

 

Texto e fotografia do interior da notícia de Mónica Sofia Lopes

Fotografia de capa no dia da inauguração cedida pelo Arquivo Municipal da Mealhada