A vontade era tanta que nem me passou pela cabeça pensar no convite. Seguimos juntos para mais uma discoteca que, habitualmente, animava a malta jovem e africana. Passavam músicas africanas, como por exemplo, afrobeat. Também porque o próprio conceito da discoteca era atrair mais jovens universitários de vários cantos do mundo, visto que a própria cidade de Eskisehir (na Turquia) é uma cidade universitária.

No caminho para a Fakülte (nome da discoteca) a animação não parava. Risos e gargalhadas sobre tudo e mais alguma coisa. Ensinamos uns aos outros algumas palavras e frases em línguas de outros. Ao pronunciar, por exemplo, “como estás? Estou bem e tu?”, em língua derja (árabe tunisino), em turco, ou até ouvir a pronúncia dessas palavras por uma pessoa que não sabe falar português, motivava grandes risos. E ao mesmo tempo vontade de ver a pessoa dizer corretamente a frase ou pelo menos algumas palavras do vocabulário.

Quando chegamos à Fakülte, já estava muita gente à porta de entrada. Típico das discotecas, sempre com imensa gente à entrada. Algumas pessoas com vontade de entrar. Outras a negociar ou a armar confusão e/ou forçar a entrada. No caso das discotecas turcas, não é preciso forçar, basta ter o documento de identificação e estar acompanhado.

Nisso de estar acompanhado, exigem que um rapaz esteja com uma rapariga. Caso contrário, não deixam entrar. Uma das razões dessa regra é evitar confusão no palco de dança.

Curioso é que esta regra só funciona no lado dos homens. O que demonstra, por um lado, que se continua a ver a mulher como um simples acessório, se não a tiveres não és bem-vindo. Por outro lado, revela também que a questão do assédio é sem dúvida um desconforto por parte das mulheres e ao mesmo tempo um problema grave que acompanha os homens.

No nosso grupo de amigos, éramos sete rapazes, dois guineenses, dois turcos, um tunisino, beninense e azerbaijanês, e quatro raparigas tunisinas. À entrada controlaram os nossos documentos de identificação, e automaticamente começaram a contar quantas raparigas e quantos rapazes. Deixaram entrar quatro rapazes e quatro raparigas que estavam à frente. Quando chegou a nossa vez, eu, o meu amigo guineense e o jovem beninense, não entrámos, com a justificação de que não estávamos acompanhados.

O jovem beninense não aceitou a justificação que deram, e falava mais da discriminação Racial. Por sermos africanos e pretos, não nos deixaram entrar. O meu amigo guineense tentava convencer os guardas e o dono da discoteca, na língua turca, a deixar-nos entrar porque éramos um grupo e não iríamos armar confusão com raparigas de outras pessoas homens.

No decorrer daquela confusão e negociação, pus-me a pensar, se todas as empresas e instituições turcas e não só, adotassem as mesmas regras das discotecas, a essa altura o ODS-5 já estaria alcançado e a busca pela igualdade de género não faria sentido, pois, teríamos exatamente o mesmo número de mulheres e homens a ocuparem lugares de tomada de decisão e a receberem salários iguais pelas mesmas funções que, tanto os homens como as mulheres, desempenham.

Infelizmente, essa regra de entrada continua a ser mais aplicada nas discotecas. Portanto, há que continuar a reeducar os homens para não serem provocadores de conflito e assediadores, seja nas discotecas ou noutros locais de diversão e que sejam responsáveis no tratamento ou relacionamento com as outras pessoas, principalmente com as mulheres.

 

Texto de Mamadu Alimo Djaló

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