Há uma década que Paulo Mota, piloto de embarcações, trabalha em pleno oceano atlântico num navio de apoio à exploração de petróleo offshore em Angola. Em períodos normais, o jovem, natural da Mealhada, passa quatro semanas a 200 quilómetros da costa angolana e outras quatro em casa, em Portugal. A pandemia por covid-19 trouxe alterações à laboração marítima, num país «onde as regras mudam diariamente e as exigências têm um cariz monetário acima de qualquer outra coisa».

Foi a partir do quarto de hotel em Angola, onde esteve fechado desde o dia 20 de novembro até à passada quinta-feira, altura em que «partiu» para o mar, que Paulo Mota nos concedeu esta entrevista. «Partimos de Portugal todos com teste negativo, viemos juntos no mesmo avião e partilhamos a mesma carrinha até chegar ao hotel da empresa onde trabalhamos. Aí fomos todos colocados cada um num quarto, onde estamos até hoje», lamenta Paulo Mota, de 38 anos, explicando que «a quarentena do Governo angolano são 14 dias, ao sétimo fazemos um teste, cujo resultado demora uns três, quatro dias e depois ainda temos que esperar pela alta médica».

Mas o grande problema é que «ao fim de 12 semanas no mar, o tempo que estamos agora a fazer de período laboral, as mesmas pessoas que estiveram em quarentena, e as únicas existentes na embarcação, saem do barco e têm novamente que ser testadas e esperar mais três ou quatro dias, até termos conhecimento do resultado do teste que, obviamente, só pode ser negativo. Depois disso ainda temos que esperar por um carimbo para conseguirmos sair do país», confessa-nos «exausto» pelo que considera ser «uma burocracia sem sentido». «No aeroporto de Luanda mostrei oito vezes o teste de covid-19. Nem sei se quiseram ver o bilhete de avião», diz, considerando a situação caricata.

«E tudo isto a troco de dinheiro. Sei que por cada teste a empresa onde trabalho paga 250 euros e que tem que ser pago antecipadamente, só depois disso é que os técnicos vêm cá ao hotel», continua Paulo Mota, referindo que já enviou «dezenas de emails para o Consulado de Portugal em Angola», assim como fez outras tantas tentativas de telefonemas, sem surtir efeito. «A única coisa que me ocorre dizer acerca de tanta burocracia e tanto tempo de espera, entre quarentenas e conhecimento do resultado dos testes, é a de que o país está a fazer muito dinheiro ao nível de hotéis, testes, carimbos, etc. Cada dia que um estrangeiro passa em Angola está a dar dinheiro ao país», enfatiza.

E o cansaço psicológico começa a sentir-se porque desde março que «muitos portugueses, pessoal do mar principalmente, estão nesta situação em Angola». «Quando a pandemia surgiu estávamos no mar onde ficamos três meses a bordo. Psicologicamente não foi e não é fácil», recorda Paulo Mota, acrescentando que foi para casa no final de junho, tendo regressado a Angola ao fim de cinco semanas. «Para cá entrar precisámos todos de um papel com carimbos de cinco Ministérios diferentes. «Vim a 28 de julho e fiquei 20 dias de quarentena, porque nessa altura o resultado dos testes demorava uns cinco ou seis dias», afiança, garantindo que esteve dez semanas no mar, tendo depois ficado mais quatro dias «preso» na empresa, para fazer um novo teste e conseguir viajar. «Cheguei a Portugal a 20 de outubro para ficar seis semanas e ao fim de um mês já me chamaram porque esta exigência das quarentenas muda também o cenário laboral. A empresa onde trabalho já não sabe o que há de fazer mais para nos simplificar a vida».

Paulo Mota seguiu, na manhã da passada quinta-feira, para o mar, e só a 2 de fevereiro de 2021 está previsto novo desembarque. «Se tudo correr bem, no dia 6 já estarei em Portugal. Vamos ver. Aqui as leis mudam todos os dias», remata Paulo Mota, lamentando ainda: «Este ano era para estar 28 semanas em casa e estive somente dez».

 

Texto de Mónica Sofia Lopes

Imagens com Direitos Reservados