Desde muito cedo que as crianças são seres sociais e, por isso, estabelecem relações interpessoais entre pares e os adultos com que convivem diariamente. Estas relações tornam-se importantes fontes de aprendizagem, dado que é através destas experiências e vivências que a criança vai adquirindo competências sociais, vendo, interagindo, imitando e aprendendo, necessitando de um ambiente propício e desafiante que é, sem dúvida, da responsabilidade do educador.

Importa referir que entendemos por educador todo o adulto que participe na educação da criança.

Este tipo de socialização também acontece com a entrada na creche ou no jardim-de-infância, onde as crianças são colocadas perante uma realidade diferente do que estão habituadas, sendo confrontadas com um novo mundo cheio de desafios, onde têm que dividir o seu tempo e espaço com um grupo. Assim, independentemente da idade ou da etapa de desenvolvimento torna-se inevitável a ocorrência de conflitos interpessoais.

Em contexto de creche, por vezes, ocorrem diversos tipos de conflitos entre crianças não sendo necessariamente agressivos, sendo que, muitas vezes o objetivo não é magoar o outro, mas sim tentar defender os seus interesses, objetivos e vontades, ultrapassando a resistência das outras crianças.

Por exemplo, quando uma criança quer brincar com um objeto que o seu colega tem, é muito provável que daí possa surgir algum tipo de conflito, dado que a criança ainda não conseguiu perceber qual será a forma socialmente aceitável para o resolver e, como podemos imaginar, age de forma instintiva o que, muitas vezes, pode passar por comportamentos mais agressivos como empurrões, mordidelas e pontapés.

Assim, as situações de conflito devem ser encaradas como momentos de enorme aprendizagem onde são colocadas em prática as capacidades sociais das crianças, contribuindo para o seu desenvolvimento. Para além disto, os conflitos permitem desenvolver capacidades como cooperação, interajuda e trabalho de grupo.

Não devemos encarar os conflitos como situações a evitar, mas sim como um momento de aprendizagens efetivas para a criança e para todos os envolvidos. É nestes momentos que o educador também aproveita para conhecer melhor as suas crianças e a forma como reagem  a diferentes situações.  

Por exemplo, uma das estratégias que o educador poderá utilizar é promover o diálogo entre crianças, encorajando-as a falar umas com as outras dos seus sentimentos. Ou seja, o que o educador quer é que as crianças sejam capazes de resolver os seus conflitos autonomamente, para isso, deverá guiar uma das crianças à outra parte envolvida, incentivando-a a falar sobre o que se passou para se ouvirem mutuamente. Posteriormente, o educador poderá apresentar algumas ideias de como resolver o conflito em questão, cabendo às crianças a decisão final.

Neste sentido, os conflitos e a sua resolução são fonte de aprendizagem fulcrais no desenvolvimento da criança, em que o educador assume um papel de mediador e promotor de diálogo e da descoberta cooperada de estratégias, promovendo a crescente autonomia no que diz respeito à resolução de conflitos interpessoais e à manutenção das relações entre pares.

No entanto, quando o conflito se instala, como devemos reagir enquanto educadores, ou seja, mediadores do conflito?

  • º Passo: Abordar o conflito com calma e parar qualquer comportamento agressivo

O adulto que a criança procurou deve observar o que está a acontecer posicionar-se ao nível das crianças e de forma tranquila questionar sobre a origem do conflito. O adulto deve evitar passar a resolução do conflito para outro adulto, isto é, se a criança o procurou é porque confia em si portanto não se descarte deste momento.

 

  • º Passo: Reconhecer os sentimentos das crianças

Nunca nos devemos esquecer que as crianças ainda não têm maturidade para perceber a forma como devem reagir, assim sendo, todos os sentimentos são válidos. Por isso, devemos possibilitar a ambas as partes a oportunidade de serem ouvidos e compreendidos e se o conflito tiver como causa um objeto, as crianças devem perceber que é o adulto que o deve segurar;

 

  • º Passo: Recolher a informação

O adulto coloca perguntas abertas, dirigindo-se primeiro a uma criança e depois a outra, demonstrando estar atento a todos os detalhes.

 

  • º Passo: Reformular o problema e redefini-lo de acordo com o que as crianças disseram

Com uma linguagem simples, o adulto deve dizer aquilo que ouviu, sem verbalizar o que pensa sobre a situação;

 

 

  • º Passo: Pedir ideias e soluções e escolher em conjunto

O adulto deve encorajar as crianças a pensarem numa solução e que esta seja aceite por todos;

 

  • º Passo: Encorajar para que a solução seja posta em prática

Após o esforço efetuado pelas crianças para a resolução do conflito, o educador não se pode esquecer do reforço positivo para que a criança se sinta valorizada.

 

  • º Passo: Estar atento e dar apoio à decisão

Enquanto a decisão está em prática, as crianças devem perceber que o adulto está por perto, e que se necessário pode clarificar o que ficou combinado, sendo que no fim, deve valorizar o esforço feito;

 

Apesar de ser uma tarefa extremamente difícil, os pais e/ou educadores, não se devem esquecer que são as referências/modelos para as crianças. Assim sendo, devem mostrar-lhes estratégias de resolução, em que seja possível a criança desenvolver o pensamento critico em relação ao seu comportamento e ao dos outros, tornando claro para a criança que se aceita o sentimento mas não o comportamento, ou seja,  gostamos sempre dela mas podemos não gostar das suas atitudes.

Em relação ao pedido de desculpas, não nos devemos esquecer que este por si só não vale de nada, ou seja, o pedido de desculpas não deve ser banalizado a criança tem de conseguir fazê-lo com significado e de forma tranquila. Se naquele momento a criança não se sentir preparado para esse passo não devemos insistir. Acima de tudo, os pais devem perceber que o conflito também é uma forma de aprendizagem para as crianças e que são o modelo para elas. Por isso, pedir desculpas só porque o adulto esta a pedir não vai fazer a criança perceber o significado que este passo tem.

Também, não podemos cair no facilitismo e utilizar frases do género “Não te deixes ficar”, “Se te baterem bate também”, etc. Os pais e/ou educadores tem por vezes este tipo de atitudes por terem medo que os filhos sejam alvo de violência e porque acreditam que esta é a melhor forma de os proteger e torná-los mais fortes para a vida que vão enfrentar. Mas não é isto que acontece, muito pelo contrário, só estamos a ensinar às nossas crianças que a violência é a forma como resolvemos os nossos problemas.

 

“A maneira mais natural de educar é pelo exemplo”

(Professor Felipe Aquino)

 

Ed. Daniela Nunes

Centro de Assistência Paroquial da Pampilhosa