Ricardo Silva e Ana Lúcia Graça são bombeiros na corporação da Pampilhosa, no concelho da Mealhada, há nove e três anos, respetivamente. Esta semana, em dia de folga e num contexto inusitado, ajudaram a salvar duas vidas – um homem e uma mulher de 69 e 66 anos -, após um acidente motorizado na EN336. Aos jornais, no dia do acidente, Cláudio Gonçalves, chefe dos Bombeiros Sapadores de Coimbra, enalteceu o papel crucial do bombeiro que, de passagem ocasional, se atirou à água para ajudar as vítimas.

«Vínhamos de Coimbra e na estrada de Souselas para o Botão, saindo pela Larçã, vimos dois carros parados e uma mota na berma da estrada e obviamente que paramos. Eu saí logo da viatura, vi um casal na manilha da água lá em baixo, tendo a senhora ferimentos na cara, porque o capacete saltou, e que segurava o marido para ele não ir na corrente da água. Cá em cima, um senhor já estava a ligar para o 112, mas como estava muito nervoso, não conseguia dar explicações muito precisas. Eu disse que era bombeira e dei as indicações ao socorro, inclusivamente dos meios que possivelmente seriam necessários», descreveu, ao nosso jornal, Ana Lúcia Graça, acrescentando que, enquanto isto acontecia rapidamente, «vejo o Ricardo sair do carro e quando volto a olhar, ele já estava na água».

«Um dos senhores que estava no local conhecia o terreno e referiu que a vinte metros havia um sítio onde podia entrar em segurança e chegar ao local. Com um pau vi a profundidade da água e arrisquei. Até chegar ao casal ainda passei por sítios com água pelo peito, mas no local onde as vítimas estavam o nível era mais baixo, mas a corrente muito mais forte por causa das chuvas que tinham antecedido àquele dia», recorda Ricardo Silva, garantindo que, nesta altura, «já o senhor apresentava sinais de hipotermia. Fui falando com ambos, que estavam totalmente conscientes e me foram contando como a scooter resvalou no alcatrão e na lama e os “atirou” lá para baixo, tendo a mota ficado junto à estrada e não caído à água. Foi a grande sorte».

Enquanto ia falando com o casal, Ricardo Silva «segurava o homem, de bom porte, por trás, contra a corrente da água, numa posição confortável para ambos. O senhor termia tanto que eu próprio já estava a ficar cheio de frio». «Como tínhamos uma manta térmica no carro, atirei-a ao Ricardo para a colocar no senhor, para que pelo menos o vento não deixasse a roupa ainda mais fria», foi se lembrando Ana Lúcia Graça.

Com a chegada dos meios operacionais, o chefe dos Bombeiros Sapadores de Coimbra «fez-me algumas questões e definiu uma estratégia de resgaste». «Até o senhor entrar na ambulância, estive sempre ali», relembra o bombeiro Ricardo, que vê esta atitude que teve «como um instinto. Tenho ideia de que qualquer bombeiro que ali passasse, teria a mesma atitude. Na altura nem pensamos no que poderia correr mal, reagimos para o salvamento». Ana Lúcia corrobora, acrescentando que «nestes episódios, as palavras de conforto às vítimas são muito importantes. Dizer-lhes que estamos ali e que vai ficar tudo bem, torna as pessoas mais lúcidas em situação de adrenalina».

Sobre o percurso de ambos, Ana Lúcia Graça passou primeiro pela Delegação no Concelho da Mealhada da Cruz Vermelha Portuguesa até ter contacto com a corporação da Pampilhosa, onde descobriu o seu sentido mais apurado «do voluntariado e de ajudar o próximo». Ricardo estava ao serviço do Exército quando conheceu o anterior comandante da corporação, nos incêndios florestais de 2016 em Seia. «Queimei as botas e os pés e o Fernando Abrantes veio em mãos entregar-me umas botas. Quando vim aqui quartel, devolver, disse-lhe que em recompensa, e uma vez que ia sair do Exército, queria voluntariar-me na corporação», desvenda.

 

Mónica Sofia Lopes