Artigo de Fátima Cruz

Enfermeira na USF Caminhos do Cértoma/ULS de Coimbra

Representante do Núcleo de Apoio a Crianças e Jovens em Risco da Mealhada

 

Durante muito tempo, o bullying foi tratado como uma simples “brincadeira de escola”. No entanto, essa interpretação superficial esconde uma realidade preocupante. O bullying é uma forma de violência repetitiva: física, verbal ou psicológica, dirigida a alguém considerado mais vulnerável. E, mais do que um problema escolar, ele é um reflexo claro da sociedade em que vivemos.

Empurrões, socos e pontapés são manifestações visíveis dessa agressão. Mas há também formas silenciosas e igualmente cruéis: apelidos ofensivos, ameaças, humilhações públicas e a propagação de boatos. Com a expansão das redes sociais como Instagram, WhatsApp e TikTok, o problema ganhou novas dimensões. O chamado cyberbullying ultrapassa os muros da escola, alcança centenas de pessoas em segundos e permanece registado por tempo indeterminado, prolongando o sofrimento da vítima.

As consequências são profundas. Crianças e adolescentes vítimas de bullying podem desenvolver ansiedade, depressão, baixa autoestima e dificuldades de aprendizagem. Muitas passam a temer o ambiente escolar, associando-o à dor e à exclusão. Em situações mais graves, o sofrimento pode levar ao isolamento extremo e até a comportamentos autodestrutivos. É importante lembrar que o agressor também necessita de acompanhamento, pois sua conduta pode refletir conflitos internos, problemas familiares ou a influência de uma cultura que normaliza a violência.

Não podemos ignorar que a escola frequentemente reproduz preconceitos já presentes na sociedade. Discriminações relacionadas à aparência, cor da pele, condição social, religião ou orientação sexual continuam a alimentar atitudes de exclusão. Quando a diversidade não é valorizada, reforça-se a ideia equivocada de que ser diferente é um problema. Soma-se a isso a exposição constante à violência em diferentes ambientes, o que pode levar jovens a encarar a agressão como algo comum.

Diante desse cenário, combater o bullying exige responsabilidade coletiva. A escola deve implementar políticas claras de prevenção e canais seguros de denúncia. As famílias precisam dialogar com os filhos e estar atentas a mudanças de comportamento. A sociedade, por sua vez, deve investir numa educação baseada no respeito e na empatia. E os próprios estudantes precisam compreender que defender a vítima e denunciar agressões é um ato de coragem.

O bullying não é uma fase passageira da infância ou da adolescência. É uma violência que compromete a saúde escolar e o desenvolvimento integral dos jovens. Se desejamos uma sociedade mais justa e solidária, precisamos começar por garantir que nossas escolas sejam espaços seguros, acolhedores e livres de medo.

Ignorar o problema é perpetuá-lo. Enfrentá-lo é um dever de todos.