Vivemos num tempo onde o julgamento se tornou imediato. Julgamos pessoas, atitudes e escolhas de forma automática, quase sem perceber que o estamos a fazer. Basta uma frase fora de contexto, uma reação inesperada ou uma decisão que não compreendemos para, rapidamente, atribuirmos rótulos e formarmos opiniões firmes e definitivas. Este hábito ou até automatismo afasta-nos da compreensão e aproxima-nos da superficialidade.

Julgar é uma resposta automática. O nosso cérebro procura atalhos para interpretar o mundo, simplificando a complexidade da realidade humana. No entanto, aquilo que parece uma forma eficaz de organizar a informação, acaba, muitas vezes, por distorcer a verdade. Cada pessoa carrega uma história, experiências, medos, expetativas e circunstâncias que não são visíveis à primeira vista. Ignorar essa dimensão é reduzir o outro a um instante isolado e não ao todo que o compõe.

Por trás de cada comportamento existe sempre um porquê. Um motivo que pode nascer do cansaço, da insegurança, da frustração, da pressão ou até da tentativa de proteção emocional. Muitas reações que julgamos como exageradas, inadequadas ou incompreensíveis são, na realidade, respostas a contextos que desconhecemos. Quando julgamos sem procurar entender, avaliamos apenas a superfície e perdemos a oportunidade de compreender a profundidade.

O problema do julgamento não está apenas na opinião que formamos, mas no impacto que ele gera. O julgamento fecha portas, cria distâncias e silencia diálogos. Faz com que as pessoas se defendam em vez de se explicarem, se afastem em vez de se aproximarem. Em relações pessoais, familiares ou profissionais, o julgamento apressado fragiliza vínculos e impede a construção de confiança.

Perguntar “porquê?” é um gesto simples, mas transformador. Não se trata de justificar tudo ou aceitar qualquer comportamento, mas de procurar sentido antes de concluir. A curiosidade substitui a crítica, a escuta substitui a acusação e a empatia substitui a condenação. Quando escolhemos compreender antes de julgar, criamos espaço para conversas mais honestas e relações mais humanas.

Compreender o porquê não significa abdicar de limites ou de responsabilidade. Significa apenas reconhecer que as pessoas não são definidas por um ato, mas por um conjunto complexo de fatores que influenciam as suas escolhas. É possível discordar sem desvalorizar, corrigir sem humilhar e estabelecer limites sem desumanizar.

Num mundo cada vez mais rápido onde tudo parece exigir uma opinião imediata, compreender tornou-se um ato de resistência à tentação do caminho fácil. Exige tempo, atenção e disponibilidade emocional. Exige aceitar que nem tudo é tão simples quanto parece e que muitas respostas só surgem quando fazemos as perguntas certas.

Julgar é fácil e rápido. Compreender é mais difícil, mas infinitamente mais transformador. Da próxima vez que um comportamento te provocar estranheza ou desconforto faz uma pausa antes de formar uma opinião definitiva. Pergunta-te qual será o porquê e pergunta “porquê?”.

Porque há sempre um porquê. E é nesse espaço, entre o julgamento e a compreensão, que nasce a possibilidade de relações mais conscientes, justas e humanas.

 

“Entre o certo e o errado há um lugar. Encontramo-nos lá.” Rumi

 

 

 

Artigo de Pedro Oliveira Castela