Primeiramente, é essencial abordar o conceito de burnout para compreender como este influencia a vida dos profissionais de saúde, bem como identificar estratégias que possam prevenir ou reduzir os seus efeitos.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2019), o burnout é um estado de exaustão física, emocional e mental, resultante de stress crónico e de exposição a elevadas exigências emocionais no trabalho. Esta síndrome caracteriza-se por três dimensões: exaustão emocional, despersonalização, ou seja, uma atitude fria e distante perante os utentes, e redução da realização pessoal no trabalho (Khatatbeh et al., 2022).

No contexto atual da prática em saúde, o burnout constitui um dos desafios mais relevantes para o bem-estar dos profissionais e para a qualidade dos cuidados prestados. A elevada exigência diária, tanto cognitiva, física quanto emocional, coloca os enfermeiros sob contínua pressão psicossocial, favorecendo o desenvolvimento de exaustão crónica e desgaste emocional constante.

A prevalência do burnout é significativa, devido ao contacto contínuo com situações de sofrimento, carga de trabalho elevada e exigências emocionais intensas. Estudos indicam que entre 21,6% a 47,8% dos profissionais de saúde portugueses apresentam burnout moderado a elevado, evidenciando uma taxa relativamente alta em comparação com outros países (Khatatbeh et al., 2022).

Diversos fatores contribuem para essa prevalência, incluindo sobrecarga laboral, turnos prolongados, horas extra, exposição contínua ao sofrimento ou à morte dos utentes, condições de trabalho inadequadas, falta de apoio institucional e responsabilidades profissionais complexas que exigem tempo adicional (Sullivan et al., 2022).

O impacto do burnout é profundo, afetando tanto profissionais quanto utentes. Entre as consequências mais frequentes estão:

Saúde física e mental comprometida: fadiga crónica, distúrbios do sono, aumento do risco de ansiedade e depressão;

Redução do desempenho profissional: queda na qualidade dos cuidados, maior risco de erros clínicos e eventos adversos;

Rotatividade de pessoal e absentismo: afetando a organização e continuidade dos serviços de saúde (Sullivan et al., 2022).

A prevenção do burnout deve ser uma prioridade em todos os contextos de saúde, exigindo abordagens integradas que considerem fatores individuais e organizacionais.

A nível individual, recomenda-se:

Apoio social e emocional, tanto profissional quanto entre pares;

Autocuidado físico e psicológico, incluindo atividade física regular e práticas de relaxamento, como exercícios de respiração;

Desenvolvimento de mecanismos de coping, definição de limites saudáveis entre vida profissional e pessoal, formação em gestão do stress e participação em programas de mindfulness (Sullivan et al., 2022).

No ambiente de trabalho, estratégias eficazes incluem:

Promoção de um clima de suporte e comunicação aberta entre a equipa;

Formação contínua em competências de gestão emocional;

Revisão de cargas de trabalho e horários;

Reconhecimento e valorização do desempenho profissional (Sullivan et al., 2022).

A integração de abordagens individuais e organizacionais tende a produzir melhores resultados na redução do burnout do que intervenções isoladas.

O burnout tem forte correlação negativa com a qualidade de vida dos enfermeiros, podendo levar à desistência da profissão, erros no cuidado aos utentes ou desenvolvimento de ansiedade e pensamentos suicidas, muitas vezes por medo de demonstrar vulnerabilidade (Khatatbeh et al., 2022). Este facto evidencia a complexidade e a profundidade do fenómeno, que muitas vezes se assemelha a um iceberg: os sinais visíveis representam apenas uma pequena parte do problema.

Enquanto futura profissional de saúde, tenho percebido a complexidade do exercício profissional do enfermeiro e os múltiplos desafios inerentes à prestação de cuidados. A elevada carga horária, a gestão simultânea de múltiplos utentes, a responsabilidade de decisões clínicas, a escassez de recursos, a pressão assistencial e a necessidade de lidar com sofrimento, doença grave e morte são fatores que potencializam o stress crónico. Quando não gerido adequadamente, este stress pode evoluir para burnout, manifestando-se em cansaço extremo, perda de empatia e sentimentos de ineficácia profissional.

O burnout não afeta apenas o indivíduo, mas também a relação terapêutica com os utentes, tornando-se uma questão ética e de qualidade dos cuidados. É essencial reconhecer que a prevenção não é responsabilidade exclusiva do enfermeiro; as organizações de saúde desempenham papel determinante, promovendo ambientes de trabalho saudáveis, adequando cargas horárias, apoiando profissionais e valorizando o seu desempenho.

A observação de diferentes contextos revela que equipas coesas e ambientes organizacionais positivos contribuem para maior satisfação profissional e melhor qualidade do cuidado. Portanto, é fundamental que os estudantes de enfermagem desenvolvam consciência precoce sobre sinais de exaustão emocional, adquirindo capacidade de autorregulação e buscando apoio atempadamente.

Em suma, o burnout nos enfermeiros é um desafio significativo para os sistemas de saúde, exigindo abordagens integradas que contemplem o indivíduo e a equipa. Enquanto futura profissional, é essencial assumir uma postura consciente, crítica e proativa em relação à própria saúde mental, reconhecendo que cuidar de si é condição essencial para cuidar do outro de forma segura, humanizada e ética.

 

 

Cruz, Fátima – Enfermeira Especialista na área de ESMO na USF Caminhos do Cértoma/ULS de Coimbra

 

Cardoso, Ana – Estudante do 3º Ano do Curso de Licenciatura de Enfermagem da Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra