A Mealhada está nos últimos preparativos para o Carnaval Luso Brasileiro da Bairrada, que se realiza este fim-de-semana. Nas sedes das quatro escolas de samba estão montadas autênticas fábricas de confeção de fatos, espaços de ensaios e oficinas de construção de carros alegóricos. O objetivo é comum a todos, o de apresentar o melhor desfile na avenida para quem vive o samba 365 dias por ano, mas principalmente, para quem percorre centenas de quilómetros, para vir «à festa mais brasileira do país».
«SeteLuz – Reino dos Mistérios» é o enredo da Real Imperatriz, com sede na freguesia de Casal Comba. «Criamos um reino em que cada ala é uma cidade e é um dos “mistérios do 7”», começa por desvendar Margarida Oliveira, presidente da direção da escola de samba, exemplificando alguns nomes das cidades, nomeadamente, «águas infinitas, sete vidas e sombras e luzes». «Como temos mais de sete alas, criamos outros pontos, como o “Vale da Harmonia”, que serão os dezassete meninos do Centro de Santo Amaro da APPACDM, e o “Palácio da Memória”, onde estão guardadas todas as memórias do reino».
Com uma comissão carnavalesca composta por oito elementos, há muitos meses que as ideias foram sendo lançadas, tendo o tema sido sugerido ainda no Carnaval de 2025. «Depois passamos à parte dos desenhos e temos sempre alguém mais atento aos pormenores e em alertar para aquilo que não será funcional», explica ainda a dirigente, ressalvando «o forte trabalho conjunto que existe». «Nos últimos dias não se para, as pessoas não têm a mínima noção do trabalho que aqui fazemos, feito por voluntários que nas suas áreas profissionais não estão ligadas a nenhum tipo de arte», diz, confessando ser esta «a melhor altura do ano, especialmente porque temos sempre a escola cheia».
Contando com o staff, a Real Imperatriz apresentar-se-á na avenida com 196 elementos. «Este ano tivemos muita gente a entrar», enaltece, congratulando a presença da APPACDM: «Há muitos anos que desfilam connosco e fazem parte desta casa. Aliás, os fatos deles são sempre a nossa grande prioridade».
«1001 formas de ir desta para melhor» é o enredo do Batuque, escola com sede na Mealhada. «O tema trata a forma como podemos morrer, mas centra-se mais em como vivemos o dia-a-dia até lá chegar. São várias as formas de se viver, retratando a essência do Batuque, uma escola que vive de forma intensa e com paixão», enaltece Carlos João, presidente da direção do Batuque, que levará na avenida mais de duas centenas de elementos, entre staff, puxadores, empurradores e desfilantes, distribuídos pelas inúmeras alas: comissão de frente, mirins, casal mestre-sala e porta-bandeira, rainha da bateria, bateria, velha guarda e carro com os destaques.
O melhor dos últimos dias é a agitação para ter tudo pronto às 15h00 do próximo domingo. «Sinto que a escola está viva. São imensas as pessoas que estão a ajudar na confeção dos fatos, as de sempre e algumas que estavam mais desligadas e voltaram. As pessoas têm uma paixão inacreditável pela escola e dão tudo o que têm, principalmente o tempo, imensas horas do seu tempo. Muitas delas trabalham todo o Carnaval nos bastidores, nomeadamente, todos aqueles que constroem os carros, todas as noites no estaleiro», congratula, afirmando que «estão a aparecer novas pessoas na escola, muitas de fora do concelho a quererem fazer parte da comissão de frente, talvez por ser uma ala que liga o teatro à dança, sem aquela força maior do samba». «No fundo é este um dos objetivos que temos: que as pessoas nos vejam a passar e digam “para o ano quero desfilar nesta escola”, porque se identificam com a alegria e com a beleza do nosso desfile», enfatiza.
O orçamento de cada escola de samba para este Carnaval varia dos 20 até aos 40 mil euros. «O nosso orçamento irá dos 30 aos 40 mil euros, mas esta é aquela altura em que todos os dias vamos comprando coisas para os últimos pormenores dos fatos e alegorias», disse.
35 mil euros é o orçamento dos Sócios da Mangueira, que levará na avenida o enredo «Estava escrito em Verde e Rosa. A história dos Filhos de Luso». «Vamos contar uma história, criada por nós, dentro da história dos Lusíadas, nomeadamente, a descoberta do Caminho para a Índia. Uma história de amor com as personagens Simão e Ana», desvenda Pedro Castela, presidente da direção dos Sócios da Mangueira, abrindo ainda mais o «véu» para dizer que na avenida se vão ver «as cartas que Simão foi escrevendo ao longo do seu trajeto e que chegaram a Portugal anos mais tarde, tendo sido encontradas num baú por Luís Vaz de Camões».
Com mais de duzentos elementos nos corsos, o dirigente afirma que «indiretamente temos envolvidas no nosso Carnaval cerca de 300 pessoas, com trabalhos a serem feitos aqui e também em Estarreja. Temos aqui gente a dar tudo e mais alguma coisa para colocar este Carnaval na rua, preocupados em fazer tudo bem feito. Pessoas que vão garantir muitos Carnavais aos Sócios da Mangueira». «O que esperamos é que todos se divirtam, que sintam orgulho do trabalho feito e respeitem a bandeira dos Sócios da Mangueira», disse ainda, ansiando que as condições climatéricas permitam os três desfiles.
Os Amigos da Tijuca, com sede na Mealhada, estarão na avenida com «Don’t Move – A Terra Sem Tempo», «com a tentativa de o ser humano recriar a pré-história e trazer os dinossauros. Teremos a erupção, a lava, as flores, muita vegetação, mas também a manipulação genética. O final culminará no Parque Jurássico», explica a dirigente, que terá 218 elementos na avenida, entre desfilantes e todo o staff.
O orçamento foi estipulado nos 20 mil euros, mas Patrícia Pinto não tem dúvidas «de que já terá sido ultrapassado», dando um conjunto de razões para isso: «Todos os anos aumentamos o número de participantes; por outro lado, gasta-se muito dinheiro em materiais de construção para as alegorias, quatro delas feitas na nossa sede; e os tecidos estão também muito mais dispendiosos».
Outra contenção foi nos gastos com a maquilhagem. «Teremos uma equipa de dez pessoas, que formamos na escola, que vão maquilhar cerca de 150 desfilantes, o que significará que as maquilhagens nos desfiles diurnos comecem às 6h30», disse.
Nas últimas semanas, a média de pessoas a trabalhar na sede todas as noites é de meia centena de voluntários. «É inacreditável. Até casas de banho conseguimos construir com a ajuda de avós e de pais de desfilantes da escola», enaltece a presidente da direção dos Amigos da Tijuca, declarando, contudo, que «o crescimento traz maior logística». «Tivemos que montar um esquema organizativo com várias equipas que se juntam todas as terças-feiras, às 20h00, e fazem um balanço de como estão as coisas. A equipa está muito integrada e isso é muito tranquilo para todos».
Para a Associação do Carnaval da Bairrada «vai ser um ano histórico». «As escolas estão a superar-se, na confeção dos fatos, nos sambas enredos. Tudo feito com alta qualidade e precisão, num trabalho que dura meses a ser preparado», enaltece Márcio Freixo, presidente da direção.
Mónica Sofia Lopes





















