No âmbito do Festival Literário da Mealhada, a Escola Profissional Vasconcellos Lebre levou a cabo uma iniciativa intitulada «Biblioteca Humana» em que um conjunto de convidados estiveram em contexto de sala de aula a contar um episódio (ou vários) da sua vida, algo que, na imaginação de cada um, pudesse originar um capítulo de um livro ou até mesmo uma obra. Na ocasião foi também reaberta a Biblioteca da EPVL.

O nosso jornal assistiu a uma aula de Ação Educativa, do primeiro ano, em que a convidada foi uma imigrante oriunda da Venezuela. «Os meus pais e irmã são portugueses, mas eu nasci na Venezuela, um país com uma situação económica muito precária», começou por dizer Maria de Fátima dos Santos Miraldo, educadora de infância de formação, profissão que exerceu durante quinze anos no seu país de origem, «mas que lamentavelmente tive que deixar porque o dinheiro que ganhava não chegava».

Na Venezuela integrou durante dez anos o organismo Cruz Vermelha, tendo trabalhado na comunidade, em hospitais e em escolas, em regime de voluntariado. «Quando decidi emigrar fui primeiro para o Equador, onde também se fala o castelhano, e estive na fronteira com a Colômbia a ajudar muitas pessoas que vinham a pé do meu país, porque não o conseguiam fazer de outra forma. Na fronteira dávamos o apoio necessário, nomeadamente, kits de higiene», recordou Fátima Miraldo.

No Equador, a imigrante decidi vir para Portugal ter com a sua mãe. «Aqui deixei de lado ser educadora de infância, porque os certificados da Venezuela não são válidos, mas decidi, contudo, tratar das coisas para obter o 12.º ano (através da Revalidação de Competências na EPVL)», continuou, afirmando que teve «de arregaçar as mangas e as calças e começar a trabalhar numa unidade de cuidados continuados em Oliveira do Bairro, onde fazia a higiene e mudava fraldas a idosos. Depois daqui fui para um Lar, por altura da pandemia por covid-19, onde me vi em baixo emocionalmente». «Decidi mudar de ramo e fui trabalhar para o takeaway do Intermarché, uma vez que a restauração é uma área que também gosto muito. Lá estou na cozinha, mas também no atendimento», diz, enfatizando que o passo seguinte «é tirar o nível 4 de Técnico de Ação Educativa».

Já fora da sala, o nosso jornal perguntou a esta convidada que título teria este «livro» ou «capítulo» da história da sua vida? «Ser resiliente, ser valente», afirmou, explicando ser um exemplo de «como nos conseguimos adaptar a situações que estão fora daquilo que imaginamos inicialmente que poderiam acontecer connosco».

Atenta a este «episódio» esteve a aluna Letícia Peixoto, de 16 anos, que à mesma pergunta, sugeriu que o título fosse «Um caminho inesperado…». «Ouvimos o passado, mas o mais interessante é ver o caminho que a pessoa fez, com diversas dificuldades e obstáculos, para alcançar o que queria. Gostei muito e acho que esta história daria mesmo um bom livro», rematou.

Antes da «Biblioteca Humana» percorrer algumas salas, foi realizada uma pequena cerimónia de reabertura da Biblioteca da EPVL. «Este espaço ganha relevância quando sabemos da taxa de iliteracia que vai existindo no nosso país. 20% dos nossos jovens não conseguem ler e interpretar um texto e isso é um problema muito grave», referiu Carlos Sousa, diretor da escola, apelando a que os alunos possam «tornar a informação em conhecimento. Tem de haver contacto com a leitura e os livros, mesmo que seja de forma digital».

«As Bibliotecas mudaram e já não são somente aquele espaço de silêncio, mas também de partilha. Consultem-na e não deixem de escrever», desafiou Hugo Silva, da Autarquia.

 

Mónica Sofia Lopes