A Mealhada prepara-se para receber a época mais colorida e divertida do ano com os corsos do Carnaval Luso Brasileiro da Bairrada. Como habitualmente, o processo é pensado, meses antes, pelas escolas de samba que desfilam no evento – Amigos da Tijuca, Batuque, Sócios da Mangueira e Real Imperatriz – que, em 2024, trazem para avenida temas do quotidiano como as tradicionais feiras portuguesas e a igualdade na sociedade, passando pela evocação dos cinquenta anos do «25 de Abril» até às memórias dos 45 anos da escola mais antiga do Carnaval da Mealhada. No meio de tudo isto, encontramos quem viva no samba desde que nasceu e quem não goste e não conheça este Carnaval, mas mesmo assim trabalhe horas a fio para ajudar amigos a construir alegorias.

«Acorda Ti’juca! Há samba na feira» pretende ser «um tema leve, alegre e muito popular». Quem o descreve é o carnavalesco Tomás Almeida, que admite gostar muito «de fazer coisas esteticamente portuguesas». «Cada ala retratará uma banca de feira, focando diversas situações, tais como, a feira tradicional portuguesa, a feira da ladra, o artesanato e muito mais coisas», descreveu, ao nosso jornal, o jovem, explicando que «no meio de tudo isto foi criada uma personagem, “a Juca”, uma velhota, viúva, com muito mau humor, que vive na rua onde todos os domingos se realiza a feira. O nome da personagem pretende personificar a nossa escola e o que queremos é levar o samba para a feira e convencer a “Juca” a ir também, o que acabamos por conseguir».

As bancas, por exemplo, representarão «a escolha do freguês», os Mirins a «Borda d’água», o segundo casal de Porta-bandeira e Mestre-sala a alma cigana e alguns destaques a Feira da Ladra. «Sou de Cantanhede e a feira sempre foi algo que adorei. Apesar disso, achando que podia ser um tema mais fácil de desenvolver, não o foi, porque tive de usar muito da imaginação, criando uma história e uma personagem», explicou ainda o carnavalesco da escola de samba Amigos da Tijuca, não duvidando que o tema «vai tocar pela emoção porque as pessoas gostam de ir à feira».

A escola estará distribuída por seis alas, com treze alegorias e um carro alegórico, tendo, este ano, pela primeira vez «uma ala da velha guarda (com os elementos mais antigos), uma vez que em 2024 festejamos vinte anos de existência». Tomás Almeida, de 23 anos, está nomeado na categoria de melhor carnavalesco de 2023 num concurso nacional, facto que diz «ser mais importante, do que propriamente o resultado final». «É o reconhecimento nacional de quem, nesta altura do Carnaval, vive dentro da escola. Este ano, há um mês que estou aqui dentro, só vou a casa para dormir mesmo», enfatiza.

Na sede da Tijuca, que, desde o ano passado, se situa no centro da cidade da Mealhada, encontramos Hélder Marques, de 40 anos, natural do Carqueijo que, até ao evento de 2023, nunca tinha vindo ao Carnaval da Mealhada. «No ano passado havia uma estrutura para ser elevada durante o cortejo e chamaram-me para ajudar nisso, dado o meu percurso profissional na área. Depois de feita, o elemento que ia estar lá em cima, não confiava em mais ninguém para elevar a estrutura que não fosse eu», conta-nos, admitindo que foi nos três desfiles, sem nunca ter assistido a nenhum «em toda a vida e não gostar nada de samba». «Aliás, eu achava que era tudo comprado e aparecia feito em desfile», conta.

«Agora saio do trabalho e enfio-me aqui, a ouvir trance. Quando eles chegam para ensaiar, vou-me logo embora», confessa, desvendando, entre risos, que «no ano passado, queriam que eu decorasse a letra da música para saber quando fazer a elevação, disse logo que não e tivemos que fazer uma campainha, que levava presa à orelha e que a acionavam quando eu tinha de levantar o Tomás»

A escola, que nasceu no concelho vizinho de Cantanhede, mais concretamente em Enxofães, mudou a sua sede oficial para a Mealhada em 2023, contudo, não deixou de ir «à aldeia que nos viu nascer» para um ensaio geral. Se por um lado, facilitou «um encerramento de via mais facilmente» do que se fosse na cidade; por outro, «ver o povo de Enxofães vir à janela para nos espreitar e aplaudir foi muito gratificante. Para uns foi “apenas” um ensaio de rua, para outros foi levar novamente vida e alegria à aldeia que faz parte da nossa história», garante Patrícia Pinto, presidente da direção da escola que, este ano, desfilará com quase duas centenas de pessoas.

 

Dos Açores para o Batuque, jovem já não pensa no Carnaval sem ser na Mealhada

Ali ao lado, encontramos o Grémio Recreativo Escola de Samba Batuque que, este ano, desfilará com o enredo «Igualdade. Todos diferentes, todos iguais». «Sendo o Carnaval uma manifestação artística tão grande, quisemos levar um tema contemporâneo que nos leve à reflexão e a um lado mais educativo», começou por explicar Mariana Cidade, enredista em 2024 do Batuque, mas também carnavalesca a par com Marcelo Barreto, Maria Inês Aparício e Jorge Pires. «No fundo queremos apelar à igualdade nas diferenças de género, raciais, religiosas, culturais e de amor nas orientações sexuais. Todo o ser humano tem uma raça, uma religião e uma cultura e deve ser respeitado por isso. Queremos no final, que todos concluam de que respeitando as diferenças, vivemos melhor porque vivemos em paz», acrescentou Mariana Cidade, natural de Luso, que, em 2024, «comemora» 25 anos que está Batuque.

Distribuídos por quinze alas, haverá diversos momentos da escola na passagem pela avenida, com alas a fazerem uma brincadeira à desigualdade económica, com as crianças a carregarem o livro dos Direitos Humanos e com uma sátira para reflexão no final. «Apresentei um tema, depois de ver o desfile do ano passado e muito me ter agradado o enredo da pegada ecológica e da sustentabilidade. De certa forma, peguei esse “comboio” para apresentar algo que volte a consciencializar públicos», afirma a enredista, enfatizando querer «fazer pensar, através de um momento artístico, falando do mundo e tentar assim melhorá-lo». «O Carnaval tem muita visibilidade e, por isso, é o local certo para abanar mentalidades; por outro lado, enquanto escola, já é importante para nós e educativo falarmos sobre estes temas em conjunto, em família», afiança Mariana Cidade, declarando que a escola com as cores que defende «é a mais heterogénea, onde entre todas as diferenças lá existentes, no final somos todos os iguais, com a mesma finalidade na avenida. Este tema acaba por ser um espelho da própria escola».

O Batuque levará na avenida 204 elementos, 161 a desfilar, o restante como staff a apoiar os corsos. «Aumentamos o número de desfilantes, em relação ao ano passado, em todas as alas, excetuando na Bateria», congratula Andreia Rosa, presidente da direção desta escola de samba, destacando que, nestes últimos dias, «a preocupação é ter tudo feito até domingo». «As coisas estão a andar, a escola tem mais movimento nos últimos dias e os fatos começam a estar completos. Só até agora já gastamos mais de 14 mil euros em material», disse ainda a dirigente.

Foi aqui, num dos ensaios de rua, no último mês, que encontramos Valter Meirinho, de 24 anos, natural dos Açores, que desfilou no Carnaval da Mealhada no ano passado, como staff, repetindo a proeza, em 2024, agora já na Bateria. «Estudei no Porto, cidade onde trabalho e foi lá que conheci a minha namorada, que é daqui», começou por desvendar, garantindo que quando entrou na escola de samba, pela primeira vez, encontrou «um ambiente similar ao da minha terra e daquilo que a minha mãe fazia com as amigas, nos Bailes na ilha Terceira, em que nos fantasiávamos e participávamos em jantaradas com desconhecidos. A minha mãe chegou a formar um pequeno grupo, em que todos se vestiam de igual, num desfile no Faial, o que significa que nasci neste meio de se fazer fantasias».

Na conversa, Valter Meirinho, que andou numa Filarmónica, nos Escuteiros e mais tarde na Tuna da Faculdade, conta que, em 2023, os pais visitaram-no, por esta altura, na Mealhada. «Levei-os ao Batuque e, uns instantes depois, dei por falta da minha mãe, encontrando-a já agarrada a uma máquina de costura a fazer um fato», diz, entre risos, o mais recente músico de chocalho, que garante «adorar a experiência. Se pudesse tocava os instrumentos todos da Bateria». «Já sou sócio do Batuque e não me vejo a passar o Carnaval de outra forma, que não seja assim», enfatiza.

 

Escola mais antiga retrata memórias dos seus 45 anos

Seguimos para o Pavilhão da Antes, onde os Sócios da Mangueira têm a sua sede provisória, depois de um incêndio em 2020 que destruiu totalmente o espaço onde estavam na Póvoa da Mealhada. «Quando formamos a comissão de gestão em consequência da demissão da anterior direção, sentimos que era importante voltar às raízes, juntando o passado ao presente, não deixando de valorizar todo o crescimento que a escola tem tido. No fundo quisemos trazer recordações», começa por explicar Pedro Castela, da comissão de gestão, que levará na avenida o enredo «Do latão ao Pavilhão. Memórias da Sociedade Mangueirense».

O latão porque foi à volta dele, numa fogueira, que os primeiros elementos decidiram, num baile da Rua Amarela fazer nascer uma escola de samba, a mais antiga da Mealhada, a segunda mais velha a nível nacional. Estavam em dezembro de 1978 e foi com instrumentos das majoretes dos Bombeiros que desfilaram no Carnaval de 79, após ensaios na Torre do antigo quartel, no centro da vila. Dez anos, mais tarde, juntam-se a um grupo da Póvoa designado Sabanas e têm em desfile mais de duas centenas de pessoas. «No domingo, a Associação de Carnaval, entidade que produzia os fatos, não os conseguiu ter prontos e o João “Macaca”, o responsável pela pergunta “vamos criar uma escola de samba?”, decidi que não indo alguns, não ia ninguém, só voltando à avenida na terça-feira de Carnaval, onde deram duas, três voltas no corso e ainda foram em desfile até à Povoa», explica Pedro Castela, acrescentando que, para além deste Carnaval «épico», foram selecionados, para o tema deste ano, alguns temas específicos da escola, nomeadamente, «os papagaios brutais no tema da Pirataria; os Romanos em que a bateria levava fatos feitos de persianas e garrafões de água; e as gueixas que serão representadas nas Baianas».

Há ainda um apontamento aos palmarés dos Sócios da Mangueira «com o primeiro concurso ganho na Mealhada e o primeiro Troféu Nacional». «Focamos também as atividades socioculturais que fomos tendo, como futsal, karaté, passeios de bicicleta e descida de rio; e também os casamentos que aconteceram na escola, numa altura em que assinalamos as Bodas de Rubi», continuou Pedro Castela, concluindo que haverá marcos históricos, como o desfile no Carnaval da Figueira da Foz em 2000; o primeiro samba enredo original do Carnaval da Mealhada, feito pelo músico dos Sócios «Xandinho» e o incêndio na sede em 2020. «O carro alegórico será o original de 1990, com uma ou outra melhoria, sendo que o fato dos homens é exatamente igual ao desse ano, e levamos ainda a figura do João, representado com um fato característico do grupo Meracaso, porque sem a força e coragem dele não estaríamos aqui hoje. Levamos também uma bola de espelhos, porque festa com o João tinha que a ter», descreveu o elemento da comissão de gestão, que concluiu: «Desenhamos um Carnaval para o ganhar, mas mais importante é passarmos a mensagem dentro da escola do que são efetivamente os Sócios da Mangueira», que, este ano, levam 160 desfilantes e 44 elementos de staff.

É aqui que, desde os seis anos, desfila Carolina Rodrigues, de 20 anos, residente na Mealhada, hoje coordenadora de Mirins, depois de ano e meio com passistas. «Quando entrei na escola era ensaiada pelos mais velhos e, no fundo, acho que quero deixar esta mensagem que me foi passada a mim», referiu a jovem, garantindo que ensaiar crianças «é um desafio ótimo e gratificante. Eles nunca querem ir embora». A foliã, destaque na escola, garante que «o Carnaval é claramente a melhor altura do ano. Os Sócios são família e o local onde sempre esteve a minha própria família e onde, tirando o Natal, nos reunimos todos». «Nesta altura, em que todos somos poucos para ajudar, não há um dia em que a minha mãe não saia comigo à rua», enalteceu.

 

«Liberdade» dos 50 anos do 25 de Abril pela escola de Casal Comba

Foi na freguesia de Casal Comba que encontramos a última escola do nosso trabalho: o Grupo Recreativo Escola de Samba Real Imperatriz que, em 2024, desfila com o enredo «Abril. O canto da Liberdade». «A ideia é sempre melhorar e estou convencido que vamos surpreender e agradar ao público, que paga bilhete para ver um espetáculo», declarou, ao nosso jornal, Gilberto Lima, presidente da direção da escola, afirmando que o tema dos «50 anos do 25 de abril é algo sério que, no fundo, retrata as nossas vidas e o que somos e fazemos hoje. Vamos falar disso de forma descontraída e divertida, tocando nos pontos essenciais que antecedem o 25 de Abril, o próprio dia e o após. No final deixamos a pergunta no ar: “E tu, és livre?”».

Sobre o enredo, Margarida Oliveira diz que partiu de Carlos Pedro, o primeiro carnavalesco da escola, que reside na Suíça, mas que, por email, sugeriu «assinalarmos os 50 anos do 25 de abril». «Depois de uma série de videochamadas com ele, elaboramos um tema, que foi aprovado. Constituímos uma equipa com os carnavalescos Mickael Lourenço, Inês Almeida e Cristina Carvalho; Beatriz Bernardes escreveu a sinopse e os desenhos foram também feitos por si em conjunto com Bárbara Carvalho e Mickael Lourenço. Os carros estão a cargo de Júlio Silva e Carlos Pereira», enumera Margarida Oliveira, que fala também numa perspetiva de ver «o que o 25 de Abril nos deu e o que fizemos com essa liberdade».

Com 140 desfilantes, número ao qual acresce elementos do staff, muitas são as pessoas nesta escola que vêm de fora, como da cidade de Coimbra e arredores, Aveleira, Tovim, etc. Este ano, à Real Imperatriz junta-se, pela primeira vez, uma escola de dança de Mogofores e mantém-se a tradição dos utentes do Centro de Santo Amaro da APPACDM de Anadia desfilarem com a escola, «recordando o nosso Carnaval de antigamente, com críticas ao atual estado do país».

Mário Garcia, autor dos samba-enredo há já alguns anos e vencedor do mesmo no Concurso do Carnaval da Mealhada no ano passado, chegou à Mealhada em 1996, com 24 anos, quatro depois de aterrar em Portugal vindo do Brasil. «Quando aqui cheguei fiquei surpreendido com esta réplica do Carnaval brasileiro e obviamente que me identifiquei logo. Na minha zona (Rondónia, na Amazónia) tínhamos as marchinahs carnavalescas em clubes e discotecas com as tradicionais músicas “mamãe eu quero”, “Dá o dinheiro ai”, esse tipo de letras. Aqui fui encontrar samba e escolas organizadas», recorda, garantindo ter estado ligado aos Sócios da Mangueira, durante alguns anos, a convite de alguns fundadores.

«Depois de um período sem participar, há quatro anos a Real Imperatriz convidou-me e este ano já é o terceiro samba enredo que elaboro para a escola», continua, admitindo «a falta de formação musical», o que o leva uma pesquisa maior. «Entregam-me a sinopse do enredo, faço a minha pesquisa e depois as ideias e a inspiração vão aparecendo», diz, enaltecendo «o tema interessante e audacioso escolhido para este ano».

Já sobre o evento, Mário Garcia afiança que «para quem gosta de Carnaval, esta é uma época muito importante. Para mim, que resido aqui há tantos anos, vivo este Carnaval como qualquer português, como qualquer mealhadense. É uma altura muito feliz», remata.

 

Mónica Sofia Lopes